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Pesquisa e competitividade agropecuária, artigo de Carlos Roberto Spehar
05/05/2010
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=70643
"Preocupante, os avanços em agropecuária não podem ser considerados definitivos, tecnologia acabada, duradoura. A vida é dinâmica, desafiando soluções"<BR><BR>
<P>Carlos Roberto Spehar é professor da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador da Embrapa. Artigo enviado pelo autor ao "JC e-mail":</P>
<P>Seria redundância enfatizar quão importante tem sido a pesquisa agropecuária para o Brasil. Mesmo assim, vale a pena citar exemplos e demonstrar os impactos. O Brasil deve seus avanços a conquistas estratégicas. Soja adaptada às baixas latitudes é o mais conhecido. Graças à seleção de variedades que crescem suficientemente antes de florescer, em regiões tropicais, a história mudou.</P>
<P>De inexpressivos, em trinta anos passamos ao lugar de segundo maior produtor mundial, com níveis de tecnologia que rivalizam com os encontrados em países desenvolvidos. Sem a soja, não teríamos avançado na produção de aves (corte e postura), suínos e outras de origem animal, como leite e carne de bovinos e caprinos. Também a população não teria acesso à proteína de origem animal, mais barata, além de outros subprodutos da soja.</P>
<P>A cadeia é complexa, mais do que se imagina, interferindo noutros cultivos e fazendo com que a economia do país, como um todo se beneficie.</P>
<P>O mesmo vale para feijão e arroz, a unidade nacional. Sem melhorar os índices de rendimento, certamente estaríamos a importar esses produtos, desenvolvidos basicamente para o consumo humano e de grande impacto na segurança alimentar brasileira.</P>
<P>Quando se reanalisa o complexo soja e suas implicações, percebe-se que outros setores dele dependentes também se baseiam em tecnologia. Assim, não produziríamos aves de forma competitiva, se não houvesse investimento em pesquisa e desenvolvimento.</P>
<P>Em suma, em todos os casos há um foco, com visão de conjunto, planejamento de longo prazo e, principalmente, apoio de dirigentes, perspicazes o suficiente para evitar interferências negativas. Dessa forma, em plena criatividade, a tecnologia se atualiza.</P>
<P>Há um conjunto mínimo de ações de que não se pode prescindir. Nos avanços citados, precisava-se quem enxergasse oportunidades, tiradas dos obstáculos. Há trabalhos clássicos que devem ser lidos e assimilados para melhor entender como os eventos tomam vulto e se transformam. Estes devem servir de parâmetros para fortalecer as crenças e convicções daqueles que alimentam ideais de avanços para a agropecuária brasileira.</P>
<P>Na maior parte das vezes, soluções simples têm causado grandes impactos. Em soja tropical, semelhante aos avanços com trigo na Índia, foi a incorporação de genes estratégicos existentes na natureza que causou a mudança. Além disso, o que consolidou o seu uso, gerando variedades mais produtivas, foi determinação, muito trabalho e, acima de tudo, constância de propósitos. Não se resolveram os problemas em ambiente virtual, até mesmo por que este é um evento novo!</P>
<P>Pode-se dizer que muitos contribuíram em maior ou menor escala, desde os pesquisadores e agentes de extensão rural, atuando na linha de frente, aos gerentes sensíveis. Claro que políticas de longo prazo, priorizando ações, devem ser incluídas como fatores de sucesso.</P>
<P>Porém, preocupante, os avanços em agropecuária não podem ser considerados definitivos, tecnologia acabada, duradoura. A vida é dinâmica, desafiando soluções; novos problemas surgem em decorrência e daí a necessidade de constância.</P>
<P>Se isso não estiver claro para os dirigentes diretamente envolvidos - formadores de opinião e políticos, os principais agentes -, os potenciais transformadores da sociedade, ficam à deriva.</P>
<P>Na atualidade, instituições públicas de pesquisa, da maior relevância para o Brasil, têm adotado posturas modernas, induzindo seus técnicos à liderança de projetos, sujeitando-os às prioridades de políticas momentâneas. Exemplo: agrocombustíveis; quantos pesquisadores recém-iniciados são levados a investir em temas do tipo, pois atraem recursos? Muitas das vezes nem correspondem às aspirações e se desestimulam. Ou melhor, não inspiram e, por conseqüência, não há constância. Corre-se o risco de parar no meio do caminho quando se trabalha por demanda pouco participativa.</P>
<P>No intento de alcançar objetivos, se empenham, formam equipes - muitas vezes fictícias e evidentes apenas nos textos -, defendem seus propósitos e se tornam líderes. Captam recursos e são bem vistos pela instituição que os abriga, classificando-os como essenciais.</P>
<P>Outro cenário é o que ocorre nas áreas de tecnologia de ponta. Há muito por ser feito e quem está envolvido é privilegiado com recursos que, por vezes, levam a resultados dúbios.</P>
<P>Pois bem, o que pesa são os recursos e a aparente sanidade financeira da instituição. Se ela está eficiente, melhor inspirando seus técnicos e explorando o seu potencial criativo, é outra história. Ou, se os recursos, tão raros, estão bem investidos, é mais uma.</P>
<P>Portanto, pesquisa "por editais", ora em voga, sem que se disponha de uma espinha dorsal permanente, pode significar modismos ou conveniências e, ao final, um tiro no próprio pé. Analisem-se tendências em instituições de peso, como a Embrapa, e sua perspectiva futura. Não foi assim que se lograram grandes avanços. No passado, quantos pesquisadores, mal respondendo por planos de ação, fizeram história! Eram líderes de fato e não virtuais.</P>
<P>Na atualidade, fica-se com a impressão de que se imerge em editais, com idealismo induzido de liderança. O trabalho, a real contribuição, fica para depois, pois há que cuidar de relatórios, reuniões técnicas, trabalhos publicados que melhoram currículos e, consequentemente, salários etc. Qual a oportunidade para a expressão da criatividade?</P>
<P>Eventualmente, se sobrar tempo, surge tecnologia, por parte de alguns que ainda perseguem ideais palpáveis, tentando fazer muito com pouco. Estes, cada vez mais raros, são os que carregam a instituição com a sensação do dever cumprido, em consequência dos avanços a que induzem para o avanço da ciência. Porém, em instituições burocratizadas, se marginalizam.</P>
<P>Nos tempos que parecem esquecidos, ainda que com vieses, ouviam-se os bons técnicos, nos momentos de grande decisão. Estes ajudavam a formar opinião e influenciar lideranças de fato e políticas de pesquisa e desenvolvimento. O ideal maior era contribuir para uma agricultura sólida, responsável, graças à geração e aplicação de tecnologia, com foco e determinação.</P>
<P>No presente cenário, ciência resultando tecnologia, em instituições públicas e independentes, fica cada vez mais distante da realidade. Pior, na alocação de recursos, por estratégias mal definidas em função de momentos políticos, os meios se restringem, piorando índices de rendimento.</P>
<P>Surgem, então, ações corretivas, a nível institucional, para desfazer erros que têm sido cometidos, devidos a gerentes que jamais tocaram a realidade agropecuária. As instituições se "reformam" propondo estudos estratégicos. Estes se destinam a identificar oportunidades. Porém se, de novo, forem mal direcionados, perde-se com a sensação de ganhar. Assim, surge mais um rótulo, de algo inócuo.</P>
<P>A pergunta que fica: até quando se farão reinvenções sem propósito, interferindo negativamente na capacidade de criar? Ou, por que o tema não é melhor tratado, dando-se oportunidade àqueles que têm respondido por ganhos reais?</P>
<P>De atitudes consciente, influenciadas por líderes, idealistas e responsáveis, podem sair soluções para impasses. A continuar como está, o tempo vai revelar que devíamos ter mudado enquanto era oportuno e as consequências não se faziam sentir. Vantagens competitivas, arduamente conquistadas, podem esvair-se, fazendo o Brasil pagar alto preço por erro de estratégia.</P>
<P>Carlos Roberto Spehar é professor da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador da Embrapa. Artigo enviado pelo autor ao "JC e-mail":</P>
<P>Seria redundância enfatizar quão importante tem sido a pesquisa agropecuária para o Brasil. Mesmo assim, vale a pena citar exemplos e demonstrar os impactos. O Brasil deve seus avanços a conquistas estratégicas. Soja adaptada às baixas latitudes é o mais conhecido. Graças à seleção de variedades que crescem suficientemente antes de florescer, em regiões tropicais, a história mudou.</P>
<P>De inexpressivos, em trinta anos passamos ao lugar de segundo maior produtor mundial, com níveis de tecnologia que rivalizam com os encontrados em países desenvolvidos. Sem a soja, não teríamos avançado na produção de aves (corte e postura), suínos e outras de origem animal, como leite e carne de bovinos e caprinos. Também a população não teria acesso à proteína de origem animal, mais barata, além de outros subprodutos da soja.</P>
<P>A cadeia é complexa, mais do que se imagina, interferindo noutros cultivos e fazendo com que a economia do país, como um todo se beneficie.</P>
<P>O mesmo vale para feijão e arroz, a unidade nacional. Sem melhorar os índices de rendimento, certamente estaríamos a importar esses produtos, desenvolvidos basicamente para o consumo humano e de grande impacto na segurança alimentar brasileira.</P>
<P>Quando se reanalisa o complexo soja e suas implicações, percebe-se que outros setores dele dependentes também se baseiam em tecnologia. Assim, não produziríamos aves de forma competitiva, se não houvesse investimento em pesquisa e desenvolvimento.</P>
<P>Em suma, em todos os casos há um foco, com visão de conjunto, planejamento de longo prazo e, principalmente, apoio de dirigentes, perspicazes o suficiente para evitar interferências negativas. Dessa forma, em plena criatividade, a tecnologia se atualiza.</P>
<P>Há um conjunto mínimo de ações de que não se pode prescindir. Nos avanços citados, precisava-se quem enxergasse oportunidades, tiradas dos obstáculos. Há trabalhos clássicos que devem ser lidos e assimilados para melhor entender como os eventos tomam vulto e se transformam. Estes devem servir de parâmetros para fortalecer as crenças e convicções daqueles que alimentam ideais de avanços para a agropecuária brasileira.</P>
<P>Na maior parte das vezes, soluções simples têm causado grandes impactos. Em soja tropical, semelhante aos avanços com trigo na Índia, foi a incorporação de genes estratégicos existentes na natureza que causou a mudança. Além disso, o que consolidou o seu uso, gerando variedades mais produtivas, foi determinação, muito trabalho e, acima de tudo, constância de propósitos. Não se resolveram os problemas em ambiente virtual, até mesmo por que este é um evento novo!</P>
<P>Pode-se dizer que muitos contribuíram em maior ou menor escala, desde os pesquisadores e agentes de extensão rural, atuando na linha de frente, aos gerentes sensíveis. Claro que políticas de longo prazo, priorizando ações, devem ser incluídas como fatores de sucesso.</P>
<P>Porém, preocupante, os avanços em agropecuária não podem ser considerados definitivos, tecnologia acabada, duradoura. A vida é dinâmica, desafiando soluções; novos problemas surgem em decorrência e daí a necessidade de constância.</P>
<P>Se isso não estiver claro para os dirigentes diretamente envolvidos - formadores de opinião e políticos, os principais agentes -, os potenciais transformadores da sociedade, ficam à deriva.</P>
<P>Na atualidade, instituições públicas de pesquisa, da maior relevância para o Brasil, têm adotado posturas modernas, induzindo seus técnicos à liderança de projetos, sujeitando-os às prioridades de políticas momentâneas. Exemplo: agrocombustíveis; quantos pesquisadores recém-iniciados são levados a investir em temas do tipo, pois atraem recursos? Muitas das vezes nem correspondem às aspirações e se desestimulam. Ou melhor, não inspiram e, por conseqüência, não há constância. Corre-se o risco de parar no meio do caminho quando se trabalha por demanda pouco participativa.</P>
<P>No intento de alcançar objetivos, se empenham, formam equipes - muitas vezes fictícias e evidentes apenas nos textos -, defendem seus propósitos e se tornam líderes. Captam recursos e são bem vistos pela instituição que os abriga, classificando-os como essenciais.</P>
<P>Outro cenário é o que ocorre nas áreas de tecnologia de ponta. Há muito por ser feito e quem está envolvido é privilegiado com recursos que, por vezes, levam a resultados dúbios.</P>
<P>Pois bem, o que pesa são os recursos e a aparente sanidade financeira da instituição. Se ela está eficiente, melhor inspirando seus técnicos e explorando o seu potencial criativo, é outra história. Ou, se os recursos, tão raros, estão bem investidos, é mais uma.</P>
<P>Portanto, pesquisa "por editais", ora em voga, sem que se disponha de uma espinha dorsal permanente, pode significar modismos ou conveniências e, ao final, um tiro no próprio pé. Analisem-se tendências em instituições de peso, como a Embrapa, e sua perspectiva futura. Não foi assim que se lograram grandes avanços. No passado, quantos pesquisadores, mal respondendo por planos de ação, fizeram história! Eram líderes de fato e não virtuais.</P>
<P>Na atualidade, fica-se com a impressão de que se imerge em editais, com idealismo induzido de liderança. O trabalho, a real contribuição, fica para depois, pois há que cuidar de relatórios, reuniões técnicas, trabalhos publicados que melhoram currículos e, consequentemente, salários etc. Qual a oportunidade para a expressão da criatividade?</P>
<P>Eventualmente, se sobrar tempo, surge tecnologia, por parte de alguns que ainda perseguem ideais palpáveis, tentando fazer muito com pouco. Estes, cada vez mais raros, são os que carregam a instituição com a sensação do dever cumprido, em consequência dos avanços a que induzem para o avanço da ciência. Porém, em instituições burocratizadas, se marginalizam.</P>
<P>Nos tempos que parecem esquecidos, ainda que com vieses, ouviam-se os bons técnicos, nos momentos de grande decisão. Estes ajudavam a formar opinião e influenciar lideranças de fato e políticas de pesquisa e desenvolvimento. O ideal maior era contribuir para uma agricultura sólida, responsável, graças à geração e aplicação de tecnologia, com foco e determinação.</P>
<P>No presente cenário, ciência resultando tecnologia, em instituições públicas e independentes, fica cada vez mais distante da realidade. Pior, na alocação de recursos, por estratégias mal definidas em função de momentos políticos, os meios se restringem, piorando índices de rendimento.</P>
<P>Surgem, então, ações corretivas, a nível institucional, para desfazer erros que têm sido cometidos, devidos a gerentes que jamais tocaram a realidade agropecuária. As instituições se "reformam" propondo estudos estratégicos. Estes se destinam a identificar oportunidades. Porém se, de novo, forem mal direcionados, perde-se com a sensação de ganhar. Assim, surge mais um rótulo, de algo inócuo.</P>
<P>A pergunta que fica: até quando se farão reinvenções sem propósito, interferindo negativamente na capacidade de criar? Ou, por que o tema não é melhor tratado, dando-se oportunidade àqueles que têm respondido por ganhos reais?</P>
<P>De atitudes consciente, influenciadas por líderes, idealistas e responsáveis, podem sair soluções para impasses. A continuar como está, o tempo vai revelar que devíamos ter mudado enquanto era oportuno e as consequências não se faziam sentir. Vantagens competitivas, arduamente conquistadas, podem esvair-se, fazendo o Brasil pagar alto preço por erro de estratégia.</P>