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Federal do ABC tem evasão de 42%

23/02/2010 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=69177
Reitor atribui desistência dos alunos aos atrasos nas obras do campus e à dificuldade de cotistas seguirem o curso<BR><BR>
<P>Primeira universidade federal instalada na região que foi berço político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a UFABC perdeu, em média, 42% dos seus alunos nas três primeiras turmas da história da instituição - entre 2006 e 2009.</P>
<P>Uma das causas para a alta evasão registrada na Universidade Federal do ABC é a falta de infraestrutura adequada no local, refletida sobretudo no que a instituição classifica de "crônico" atraso na construção dos campi - um em obras em Santo André e outro que ainda nem começou a sair do papel em São Bernardo.</P>
<P>Por causa das obras, o início do ano letivo de 2010 foi adiado de março para maio. Símbolo da expansão das instituições federais de ensino superior no país, a UFABC selecionou 4,5 mil estudantes de 2006 a 2009, mas no fim do ano passado só tinha 2.617 alunos. Todos estavam matriculados no curso de Bacharelado em Ciência e Tecnologia, a única porta de entrada da universidade até o ano passado.</P>
<P>"Nas primeiras turmas, perdemos metade dos alunos", afirma Helio Waldman, o quarto reitor em menos de quatro anos da instituição. "No ano passado, as perdas foram altas, de 25% a 30% em média. Podem aumentar mais um pouco, mas não chegarão a 50%", acredita.</P>
<P>Ao ser empossado no cargo, no último dia 8, Waldman fixou a redução da evasão como sua principal meta. Em quatro anos, ele quer que as desistências caiam para menos de 10% das matrículas. Apesar do alto índice de abandono, esse foi o curso mais procurado pelos alunos que usaram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para tentar uma vaga em instituições federais. Na primeira etapa do sistema de escolha pela internet, o Sisu, foram 16,2 mil inscritos para 1,5 mil vagas. Dessas, sobraram 780 para a segunda etapa, que terminou ontem.</P>
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<P>Sem internet</P>
<P>O próprio reitor atribui a desistência dos estudantes aos problemas na construção do campus. Na unidade de Santo André, cujo único prédio em funcionamento foi inaugurado pelo presidente Lula em agosto de 2008, as obras deveriam ter ficado prontas no início do ano passado. De 2005 a 2009, Lula participou de cinco solenidades ligadas à universidade, sendo a última em agosto do ano passado para lançar a pedra fundamental do campus de São Bernardo.</P>
<P>"Ao contrário do que a gente esperava e do previsto, o prédio (de Santo André) não está pronto. Deverá estar em maio, mas não totalmente", diz o reitor. "E não haverá internet", lamenta. O contrato está no quinto aditivo e, mesmo com o prazo renovado para dezembro de 2010, o reitor já prevê mais demora.</P>
<P>"Oficialmente, a obra toda termina em dezembro, mas há um histórico de lentidão", diz Waldman, sem saber dizer o motivo dos atrasos. "Há uma certa lentidão crônica, cuja origem não saberia reconhecer."</P>
<P>Além das questões de infraestrutura, outra causa da evasão está ligada à falta de adaptação de alunos cotistas, para os quais é reservada metade das vagas de ingresso. Sem dar detalhes, o reitor disse que eles desistiram mais do que os outros alunos. "Em geral, eles têm problemas por trabalhar."</P>
<P>Entre as medidas para reduzir a evasão, algumas foram destinadas aos cotistas, como a ampliação de bolsas de auxílio socioeconômico e para moradia. Cada uma garante R$ 300 ao aluno. São cerca de 700 bolsas distribuídas atualmente.</P>
<P>Ex-reitor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-presidente da Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), Mozart Neves Ramos relativiza os problemas de infraestrutura e a alta evasão da UFABC, mas defende maior autonomia de gestão para as instituições federais em todo o país.</P>
<P>"Os problemas desses três primeiros anos são mais de logística, enfrentados por qualquer obra ou grande ampliação", diz ele, hoje diretor executivo do Movimento Todos Pela Educação. "O principal problema é a necessidade de implantar um novo modelo de gestão. O reitor nas federais só administra o custeio, não o orçamento. Tem de se criar um modelo com mais autonomia."</P>
<P>Alunos ficam frustrados com adiamento das aulas</P>
<P>Logo no dia das primeiras matrículas, a alegria dos estudantes por ter conquistado uma vaga em uma universidade pública deu lugar à decepção quanto ao início do ano letivo na Universidade Federal do ABC (UFABC). As aulas, que começariam em março, ficaram para maio.</P>
<P>Muitos calouros estavam surpresos com o adiamento. Outros decidiram aproveitar o tempo a mais para viajar e organizar a mudança. "Minha filha até chorou ao saber (do começo das aulas em maio). Até agora não deu para comemorar", afirma a professora Cleuza Omote, de 53 anos, que acompanhou a filha para fazer a matrícula na instituição.</P>
<P>Mariana Omote, de 18 anos, quer aproveitar o recesso forçado para fazer intercâmbio nos Estados Unidos. "Vamos ver. Se o meu pai deixar, quero viajar. Não dá para ficar parada", diz a jovem, moradora da zona sul da capital.</P>
<P>Outros calouros planejam organizar a transferência para o ABC paulista neste recesso inesperado. "Como sou de Mogi das Cruzes e trabalho em Suzano, de repente esse tempo é bom para eu conseguir vir morar no ABC", diz Fabio Souza, de 30 anos.</P>
<P>Mesmo assim, alguns só souberam que as aulas começarão em maio ao serem avisados pela reportagem enquanto esperavam para a matrícula, na semana passada. "Em maio? Pensei que começassem em 1º de março", reagiu Vinícius Maranhão, de 18 anos, morador do bairro do Paraíso, na zona sul da capital. "Ainda estou esperando o resultado da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), mas fiz a matrícula aqui para garantir."</P>
<P>Segundo o reitor da UFABC, Helio Waldman, a universidade estuda desenvolver atividades livres de recepção para os ingressantes nas próximas semanas, até o início das aulas.</P>
<P>Formatura difícil</P>
<P>Após três anos de universidade e com tempo suficiente para o título de bacharel em Ciência e Tecnologia, os primeiros calouros não conseguem reunir colegas suficientes para fazer uma festa de formatura.</P>
<P>Segundo cálculos da comissão de formandos, dos 1,5 mil que ingressaram no vestibular em 2006, entre 600 e 700 continuam na instituição. Para piorar, do grupo que segue na universidade, poucos têm condições de se tornar bacharel. Grande parte não completou ou não foi aprovado em parte do currículo básico.</P>
<P>"Em vez de convocar os alunos pela conclusão, determinamos os que vão participar da formatura a partir da data de ingresso na universidade" diz o estudante Rafael Cuzziol, 22 anos, da comissão de formatura. "Se o cara pagar a festa e não se formar, já falamos com a empresa e ela devolverá o dinheiro."</P>
<P>Em dezembro, o Conselho de Ensino e Pesquisa da UFABC associou o alto índice de evasão a "dificuldades de adaptação dos alunos ao rigor metodológico do curso" para fixar normas que flexibilizaram prazos para jubilação por abandono ou por insuficiência de aproveitamento.</P>
<P>Proposta pedagógica adota ciclo básico</P>
<P>Se por um lado a Universidade Federal do ABC vem enfrentando problemas de infraestrutura e evasão, por outro a instituição tem sido reconhecida no meio acadêmico pela estrutura curricular diferenciada das instituições tradicionais.</P>
<P>As aulas são quadrimestrais e, a partir do segundo quadrimestre do curso, o aluno pode escolher disciplinas além da grade obrigatória. Eles ingressam no curso de bacharelado em Ciência e Tecnologia, com currículo básico de três anos. Após este período, se concluir o currículo obrigatório, é possível pegar o diploma de bacharel. O estudante pode seguir na instituição para cursar um dos 17 cursos pós-bacharelado - há oito na área de Engenharia.</P>
<P>A universidade também adotou um modelo de centros multidisciplinares, em vez do sistema de unidades universitárias subdivididas em departamentos. Outra exigência é que os professores sejam doutores, aprovados em concurso.</P>
<P>Além das 1.500 vagas de Ciência e Tecnologia, a universidade vai oferecer a partir deste ano o curso de Ciências e Humanidades (com 200 vagas) em São Bernardo do Campo. Um colégio da prefeitura foi adaptado para receber os universitários - as obras deste campus estão em fase de terraplenagem.</P>
<P>Quem já estuda na universidade reconhece os problemas de infraestrutura da instituição, mas diz ter apostado no crescimento e desenvolvimento da universidade. "Muita gente da minha turma desistiu, mas a faculdade está se estruturando para receber os novos alunos e está melhorando", afirma Daniel Almeida, de 23 anos, que ingressou na UFABC na primeira turma, em 2006.</P>
<P>Segundo Almeida, só no próximo ano ele terá condições para se formar bacharel em Ciência e Tecnologia. "Para mim, foi difícil a adaptação no começo. O curso é puxado e minha nota era ruim, mas não pensei em desistir. Eu apostei na universidade", diz Daniel, que se mudou de Sorocaba, no interior do Estado.</P>
<P><FONT size=1>(Fábio Mazzitelli, do Jornal da Tarde)</FONT></P>
<P><FONT size=1>(O Estado de SP, 21/2)</FONT></P>
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