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Visão míope, artigo de Celso Niskier
20/01/2010
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=68543
"Para que cheguemos a um crescimento consistente, em que a quantidade caminhe em sintonia com a qualidade, promovendo a inclusão educacional, é necessário apostar em novas formas de financiamento da educação superior"<BR><BR>
<P>Celso Niskier é reitor da UniCarioca. Artigo publicado em "O Globo":</P>
<P>Com a divulgação de mais um Censo da Educação Superior, pelo MEC, percebemos que continuamos distantes da meta do Plano Nacional de Educação de garantir a universidade para 30% dos jovens entre 18 e 24 anos até 2011. Apenas 13,7% dos jovens nessa faixa etária cursavam o ensino superior em 2008.</P>
<P>Uma triste estatística, que nos distancia dos indicadores de países vizinhos, como a Argentina e o Chile. Curiosamente, na mesma semana em que os dados do MEC foram divulgados, soubemos da entrada de capital chinês na empresa MMX. Não parece paradoxal que sejamos o objeto do desejo de investidores internacionais, mas que apliquemos tão pouca atenção à formação de mão de obra para fazer frente a esse crescimento? Será que seremos obrigados a importar também a inteligência necessária para alavancar o nosso desenvolvimento?</P>
<P>Chama a atenção, nos dados do Censo 2008, a consistente expansão das instituições particulares, que hoje respondem por 74,9% dos alunos matriculados em cursos superiores. Uma área promissora, na qual a inovação educacional caminha lado a lado com o crescimento, é a educação à distância, que cresceu significativos 96,9% no número de matrículas, de 2007 a 2008, constituindo-se em uma opção viável para tantos brasileiros que buscam obter um diploma universitário.</P>
<P>No entanto, como aceitar que apenas pouco mais da metade dos alunos que ingressam em um curso superior chegue ao final? Que tamanho desperdício de tempo e de recursos! A persistir esse trágico indicador, o Brasil caminha célere para se tornar uma nação de "superiores incompletos", como tantos trabalhadores se qualificam em seus currículos, de uma maneira até envergonhada.</P>
<P>E vergonhosa. Quais os motivos para tamanha evasão? Algumas instituições de educação superior colocam a culpa nas fragilidades e deficiências do ensino médio, desdenhando a qualidade dos seus ingressantes e se eximindo de responsabilidades pela desconfortável evasão escolar.</P>
<P>Outras, até, preferem não receber esses alunos, aumentando a elitização do ensino superior, sob o duvidoso argumento de que não querem piorar os seus indicadores nas avaliações do MEC. E, ainda, algumas poucas tomam a si a tarefa de recuperar as deficiências dos alunos ingressantes.</P>
<P>São eles, afinal, os grandes esquecidos da educação superior, os chamados "quase alunos". Precisam se tornar o foco da atenção dos educadores.</P>
<P>Outro aspecto em que os discursos proliferam, em detrimento das ações concretas, é na questão curricular. Fala-se (muito) sobre a necessidade de atualização dos currículos das universidades, sugerem-se diretrizes, propõem-se núcleos docentes estruturantes, apenas para que, com mais burocracia, procure-se esconder o que de fato precisa acontecer: a sala de aula precisa fazer sentido para o aluno. Ele não pode fazer um curso superior em uma faculdade e ingressar em um ambiente empresarial totalmente dissociado do que aprendeu.</P>
<P>Disciplinas tais como liderança, empreendedorismo, criatividade e raciocínio lógico, apenas para citar algumas, deveriam fazer parte de todo e qualquer currículo que efetivamente pretenda preparar o aluno para uma vida profissional plena.</P>
<P>Por que deixar esses assuntos para os programas de trainees das grandes empresas? Será que precisamos apenas de mais técnicos que saibam repetir de cor as normas da ABNT ou de futuros líderes, capazes de inovar e de construir, com senso crítico, um país melhor?</P>
<P>Para que cheguemos a um crescimento consistente, em que a quantidade caminhe em sintonia com a qualidade, promovendo a inclusão educacional, é necessário também apostar em novas formas de financiamento da educação superior nos segmentos que mais carecem: as classes C e D.</P>
<P>O curioso é que os mecanismos atuais de financiamento privado consideram a situação do aluno hoje, e não o potencial de crescimento que ele terá no futuro. Veem o aluno como um risco, e não como um possível retorno para a sociedade.</P>
<P>Com essa visão míope, têm-se perdido muitas oportunidades de alavancar grandes massas de trabalhadores através de modalidades inovadoras e eficazes de financiamento estudantil.</P>
<P>Não se pode julgar um modelo de ensino voltado para as classes trabalhadoras, que constituem a nova classe média, com os padrões das universidades de pesquisa, hoje voltadas para uma elite que pode se preparar para um vestibular disputado.</P>
<P><FONT size=1>(O Globo, 19/1)</FONT></P>
<P>Celso Niskier é reitor da UniCarioca. Artigo publicado em "O Globo":</P>
<P>Com a divulgação de mais um Censo da Educação Superior, pelo MEC, percebemos que continuamos distantes da meta do Plano Nacional de Educação de garantir a universidade para 30% dos jovens entre 18 e 24 anos até 2011. Apenas 13,7% dos jovens nessa faixa etária cursavam o ensino superior em 2008.</P>
<P>Uma triste estatística, que nos distancia dos indicadores de países vizinhos, como a Argentina e o Chile. Curiosamente, na mesma semana em que os dados do MEC foram divulgados, soubemos da entrada de capital chinês na empresa MMX. Não parece paradoxal que sejamos o objeto do desejo de investidores internacionais, mas que apliquemos tão pouca atenção à formação de mão de obra para fazer frente a esse crescimento? Será que seremos obrigados a importar também a inteligência necessária para alavancar o nosso desenvolvimento?</P>
<P>Chama a atenção, nos dados do Censo 2008, a consistente expansão das instituições particulares, que hoje respondem por 74,9% dos alunos matriculados em cursos superiores. Uma área promissora, na qual a inovação educacional caminha lado a lado com o crescimento, é a educação à distância, que cresceu significativos 96,9% no número de matrículas, de 2007 a 2008, constituindo-se em uma opção viável para tantos brasileiros que buscam obter um diploma universitário.</P>
<P>No entanto, como aceitar que apenas pouco mais da metade dos alunos que ingressam em um curso superior chegue ao final? Que tamanho desperdício de tempo e de recursos! A persistir esse trágico indicador, o Brasil caminha célere para se tornar uma nação de "superiores incompletos", como tantos trabalhadores se qualificam em seus currículos, de uma maneira até envergonhada.</P>
<P>E vergonhosa. Quais os motivos para tamanha evasão? Algumas instituições de educação superior colocam a culpa nas fragilidades e deficiências do ensino médio, desdenhando a qualidade dos seus ingressantes e se eximindo de responsabilidades pela desconfortável evasão escolar.</P>
<P>Outras, até, preferem não receber esses alunos, aumentando a elitização do ensino superior, sob o duvidoso argumento de que não querem piorar os seus indicadores nas avaliações do MEC. E, ainda, algumas poucas tomam a si a tarefa de recuperar as deficiências dos alunos ingressantes.</P>
<P>São eles, afinal, os grandes esquecidos da educação superior, os chamados "quase alunos". Precisam se tornar o foco da atenção dos educadores.</P>
<P>Outro aspecto em que os discursos proliferam, em detrimento das ações concretas, é na questão curricular. Fala-se (muito) sobre a necessidade de atualização dos currículos das universidades, sugerem-se diretrizes, propõem-se núcleos docentes estruturantes, apenas para que, com mais burocracia, procure-se esconder o que de fato precisa acontecer: a sala de aula precisa fazer sentido para o aluno. Ele não pode fazer um curso superior em uma faculdade e ingressar em um ambiente empresarial totalmente dissociado do que aprendeu.</P>
<P>Disciplinas tais como liderança, empreendedorismo, criatividade e raciocínio lógico, apenas para citar algumas, deveriam fazer parte de todo e qualquer currículo que efetivamente pretenda preparar o aluno para uma vida profissional plena.</P>
<P>Por que deixar esses assuntos para os programas de trainees das grandes empresas? Será que precisamos apenas de mais técnicos que saibam repetir de cor as normas da ABNT ou de futuros líderes, capazes de inovar e de construir, com senso crítico, um país melhor?</P>
<P>Para que cheguemos a um crescimento consistente, em que a quantidade caminhe em sintonia com a qualidade, promovendo a inclusão educacional, é necessário também apostar em novas formas de financiamento da educação superior nos segmentos que mais carecem: as classes C e D.</P>
<P>O curioso é que os mecanismos atuais de financiamento privado consideram a situação do aluno hoje, e não o potencial de crescimento que ele terá no futuro. Veem o aluno como um risco, e não como um possível retorno para a sociedade.</P>
<P>Com essa visão míope, têm-se perdido muitas oportunidades de alavancar grandes massas de trabalhadores através de modalidades inovadoras e eficazes de financiamento estudantil.</P>
<P>Não se pode julgar um modelo de ensino voltado para as classes trabalhadoras, que constituem a nova classe média, com os padrões das universidades de pesquisa, hoje voltadas para uma elite que pode se preparar para um vestibular disputado.</P>
<P><FONT size=1>(O Globo, 19/1)</FONT></P>