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Luta contra o analfabetismo

08/12/2009 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=67743<br>
Brasil reafirma compromisso em reduzir o número de pessoas que não sabem ler nem escrever. Mas índices ainda são alarmantes<BR><BR>
<P>Renata Mariz escreve para o "Correio Braziliense":</P>
<P>Primeiro a negativa do pai, que temia ver as filhas escrevendo bilhetes aos homens da cidade. Depois, a baiana de Santa Rita de Cássia migrou para Brasília e teve oito filhos. A luta diária para dar uma vida decente à prole adiou o sonho de saber juntar letras e reconhecê-las como palavras. "A coisa mais linda que eu achava era ver as pessoas lendo a Bíblia na hora da reza", conta Valdete de Sousa Leite.</P>
<P>Hoje, aos 62 anos, ela frequenta uma turma de alfabetização e já consegue acompanhar as orações na igreja. A mulher pode se considerar uma vitoriosa, especialmente porque, no Brasil, quase um terço da população na faixa etária de Valdete - 60 anos ou mais - não sabe ler nem escrever. Enquanto o país avança na educação infantil, com redução de 12,3% para 7,3% de crianças analfabetas entre 2000 e 2008, no mesmo período, o problema entre pessoas com idade superior a 15 anos diminuiu apenas três pontos percentuais - 12,9% para 9,9%. Dos 50 anos em diante, o índice dos que não sabem sequer assinar o próprio nome é superior a 20%.</P>
<P>Um encontro encerrado na última sexta-feira sobre educação de adultos, hoje um dos maiores desafios do ensino no Brasil, reuniu mais de 40 ministros de Estado da área e delegações de 156 países em Belém (PA).</P>
<P>O documento final da conferência reafirmou o compromisso acordado em 2000, no Fórum Mundial de Educação, em Dakar, de reduzir o analfabetismo entre pessoas com idade superior a 15 anos em 50% até 2015. Isso significa, para o Brasil, cair dos atuais 9,9% para 6,75% - cerca de três pontos percentuais nos próximos seis anos.</P>
<P>Tarefa difícil se o ritmo atual continuar, uma vez que esse mesmo índice de redução (três pontos percentuais) foi obtido nos últimos oito anos. Para acelerar o processo, André Lázaro, secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (MEC), pretende fortalecer uma articulação com outras pastas.</P>
<P>"Acredito que atingiremos a meta na medida em que conseguirmos reunir as políticas públicas. Vamos nos articular com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, por exemplo, para que nos ajude a identificar o agricultor que precisa de alfabetização. O mesmo acontecerá com o Ministério da Pesca", afirma Lázaro.</P>
<P>Outras pastas já trabalham com o MEC, diz o secretário, tais como a da Saúde e a do Desenvolvimento Social. Este ano, foram quase 5 milhões de matrículas na educação de jovens e adultos no país.</P>
<P>O problema, entretanto, vai além de garantir a oferta de turmas: também engloba o combate a evasão, estimada em torno de 30% a 40%. "Tem que haver um trabalho de motivação, até para que o aluno não fique apenas na alfabetização, mas siga adiante", destaca Salete Camba, diretora de relações institucionais do Instituto Paulo Freire.</P>
<P>Segundo ela, a desistência entre a alfabetização e a continuidade da educação, entre jovens e adultos, chega a 60%. "As razões são diversas. Muitas vezes, a escola fica distante da casa do aluno, a metodologia não é atrativa, há falta de professores treinados, além de, claro, existirem os estudantes que só querem mesmo aprender o básico para poder pegar um ônibus e assinar documentos", enumera Salete.</P>
<P>Antônio Marcos de Sousa, 67 anos, ainda não se sente preparado para dar o próximo passo, mas nem pensa em sair da turma de alfabetização que frequenta. Há sete anos estudando, aprendeu a escrever e ler "um pouquinho".</P>
<P>"Fora de época, é muito difícil, a cabeça da gente não está mais funcionando bem. Mas eu gosto demais daqui. Pensar que a vida inteira eu fui analfabeto e hoje eu tenho curiosidade de ler. Quando pego um papel de propaganda na rua, leio logo para saber o que é", conta o piauiense de Teresina.</P>
<P>Para Maria de Lourdes Pereira dos Santos, coordenadora do Centro de Educação e Cultura do Paranoá (Cedep), onde Antônio estuda, o mais importante é elevar a autoestima dos alunos. "Damos uma sacudida no camarada para ele perceber que consegue", diz.</P>
<P>Sem financiamento</P>
<P>O Cedep, hoje com cerca de 100 adultos na alfabetização, é um exemplo de entidade que faz o papel de escola. Sem financiamento permanente do governo - só quando fecha projetos pontuais -, sobrevive com a ajuda de voluntários. "As educadoras são estudantes de pedagogia e vêm aqui para aprender também", explica Maria de Lourdes.</P>
<P>Para Salete Camba, do Instituto Paulo Freire, o problema da oferta de turmas para adultos nos colégios públicos está na falta de estrutura das redes de ensino estaduais e municipais, mas também em uma cultura que não enxerga tal modalidade como uma prioridade. Quase 10% dos municípios do país não têm aulas para esse público. Em outros, a oferta é muito limitada.</P>
<P>Em nível federal, entretanto, Salete destaca que houve um avanço, com a educação de jovens e adultos contemplada no Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) - que paga valor mínimo de R$ 1.221,34 anuais por cada aluno na educação fundamental regular, e R$ 977,07 para os inseridos nas classes de jovens e adultos. "Ou seja, dinheiro existe. Basta o município ou o estado querer ofertar", salienta Salete.</P>
<P>André Lázaro, do MEC, esclarece que a diferença de 20% entre as duas modalidades se deve à taxa de desistência elevada dos alunos adultos. "É um fator estipulado no financiamento para compensar a evasão e distribuir melhor os recursos", explica.</P>
<P><A href="http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=67743"><FONT size=1>http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=67743</FONT></A></P>
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