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A polêmica do plágio entre mestres e doutores

27/10/2009 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=66860
Tratada com discrição, a cópia de trabalhos acadêmicos utiliza empresas especializadas em teses ou sites na internet<BR><BR>
<P>Maria Elisa Alves escreve para "O Globo":</P>
<P>Um assunto que é tratado nas universidades quase como um tabu, sempre na maior discrição, está vindo à tona cada vez com mais frequência. Trata-se do plágio de trabalhos acadêmicos, que deixou de ser protagonizado, como no passado, apenas por alunos da graduação.</P>
<P>Atualmente, estudantes de pós-graduação, querendo obter o título de mestre ou doutor, e até mesmo professores universitários têm se apropriado da pesquisa alheia, recorrendo às antigas empresas especializadas em fornecer trabalhos e também a uma ferramenta ainda mais eficaz - a internet. A fraude acontece até em cursos conceituados, como o Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense, que cassou, em 2008, o diploma de doutor de um ex-aluno.</P>
<P>Mudança de títulos e de ordem nos parágrafos O aluno - que não respondeu aos contatos do Globo - apresentou uma tese, em 2003, que foi aprovada. Cinco anos depois, um amigo do músico André Cardoso, autor do trabalho plagiado, teve acesso ao documento.</P>
<P>Desconfiado com as semelhanças com a tese de doutorado de Cardoso - defendida em 2001 no programa de pós-graduação em música da UniRio e ganhadora do primeiro prêmio no II Concurso de Monografias da Academia Brasileira de Música -, ele mandou uma cópia para o músico.</P>
<P>- Identifiquei aproximadamente 120 páginas de texto copiado de minha tese, além de tabelas e gráficos idênticos. O "autor" do trabalho modificou ligeiramente alguns títulos e subtítulos e trocou a ordem de parágrafos - contou André, diretor da Escola de Música da UFRJ.</P>
<P>Ele procurou a UFF, que convocou uma comissão para analisar o caso, e cassou o título.</P>
<P>- Tivemos até agora dois casos como esse. Não é muito, se consideramos que temos 300 alunos, mas é um problema que vem acontecendo em todos os departamentos. Enfrentamos ainda o uso de ideias sem referências, o "vampirismo" - diz Martha Abreu, coordenadora do programa, que defende a criação de comissões para discutir essa conduta pouco ética.</P>
<P>Um dos professores da Pós-Graduação em História da UFF enfrenta problema semelhante, mas como vítima. Verificando na internet trabalhos realizados em outros estados na sua área de pesquisa - escravidão e imprensa abolicionista -, Humberto Fernandes Machado deparou-se com um resumo de uma dissertação de mestrado, da Universidade de Brasília, idêntico ao de sua tese de doutorado.</P>
<P>Curioso, conseguiu que um amigo do Distrito Federal lhe mandasse uma cópia. Da primeira à última linha, o trabalho era uma cópia, sem trocar uma palavra, da sua tese: - Passei quase dois anos pesquisando no Arquivo Nacional e na Biblioteca Nacional para elaborar a tese sobre José de Patrocínio e a imprensa abolicionista.</P>
<P>Como uma pessoa pode simplesmente copiar tudo durante o mestrado? O único trabalho que o plagiador teve foi trocar o título e uma parte dos agradecimentos. Por incrível que pareça, até na hora de mencionar a orientadora e a família, ele copiou meu texto.</P>
<P>Em e-mail ao Globo, o acusado de plágio disse que, ao entrar na pós-graduação da UnB, teria 30 meses para fazer a defesa final da dissertação. Nesse período, teve um problema de doença na família e, para não perder o prazo, apelou a um serviço de redação de monografias.</P>
<P>- Eu havia passado pelo difícil e rigoroso processo de seleção para ingressar no mestrado, cursado as disciplinas e, se não defendesse a dissertação, seria um prejuízo enorme para mim. Então, contratei um serviço de redação de monografias, dissertações e teses. Jamais pude imaginar que a pessoa encarregada de me prestar o serviço fosse capaz de copiar um trabalho de autoria de um renomado pesquisador. Em momento algum desconfiei da má-fé do redator, já que ele me pediu todos os meus apontamentos, resenhas, textos das aulas.</P>
<P>Para Márcio Brandão, professor da Faculdade de Direito da UFF, ao contratar uma empresa para fazer o texto da tese, o pesquisador cometeu o crime de falsidade ideológica, cuja pena é de até seis anos de detenção.</P>
<P>O acusado só soube que a dissertação pela qual ele pagou era um plágio no início de setembro, quando recebeu uma citação do Juizado Especial Cível do Fórum do Catete, onde o professor Machado entrou com uma ação por danos morais, ainda em tramitação. Já André ganhou a ação que moveu.</P>
<P><FONT size=1>(O Globo, 25/10)</FONT></P>
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