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Como a violência escolar expulsa travestis e pessoas trans do sistema de ensino

16/07/2026 http://www.jornaldaciencia.org.br/edicoes/?url=http://jcnoticias.jornaldaciencia.org.br
Pesquisa acompanha seis estudantes travestis e trans para entender os mecanismos que levam à exclusão dessa população do ensino e propõe novo modelo

A escola costuma ser descrita como uma “segunda família”. Para travestis e pessoas trans, porém, ela frequentemente marca o primeiro grande rompimento. Em um país onde essa população tem expectativa de vida inferior a 35 anos e em que 72% não concluem o ensino médio, a exclusão começa cedo, muitas vezes ainda na infância.

A dissertação de mestrado Escolas para trans ou escolas-trans? Por uma educação que diferencie e liberte o sujeito, defendida por Marcella Halcsik Silva na Faculdade de Educação (FE) da USP, em fevereiro de 2026, acompanhou seis estudantes travestis e trans da Educação de Jovens e Adultos (EJA) entre 2022 e 2023. À luz da psicanálise lacaniana, a pesquisa investiga como a violência escolar produz processos de expulsão e discute o que seria uma escola capaz de acolher esses sujeitos.

Professora de geografia, Marcella lecionou na EJA até 2023. O contato mais próximo com estudantes travestis e trans veio em 2022, quando passou a trabalhar em uma escola de EJA de tempo integral no bairro do Glicério, em São Paulo, região marcada pela presença de pessoas em situação de rua atendidas por políticas da Secretaria Municipal de Direitos Humanos. A experiência deu origem à pesquisa.

“Eu percebi que esses estudantes, especialmente trans e travestis, são invisíveis. Eles não existem!”, afirma. A percepção, somada à participação em um núcleo de pesquisa sobre psicanálise e educação que já discutia a questão trans, motivou a realização de seis entrevistas em profundidade. Os relatos abordam as experiências escolares dos participantes, o retorno aos estudos na EJA e as características que, na visão deles, uma escola inclusiva deveria ter.

Território de medo

As lembranças de violência não começam na adolescência. Segundo a pesquisadora, elas costumam remontar ao Ensino Fundamental I, entre os 6 e os 9 anos, quando essas crianças já demonstravam comportamentos considerados diferentes do esperado para o sexo atribuído no nascimento.

Um dos relatos mais marcantes é o de Xeila. Aos 9 anos, ela foi ridicularizada pela voz fina ao pedir para ir ao banheiro. “A sala riu dela e ficou falando: ‘olha a vozinha dela’”, conta Marcella. “Depois disso, ela nunca mais pediu para ir ao banheiro e fazia xixi na roupa para não precisar pedir.” Xeila ainda se lembra do cheiro de urina e dos comentários dos colegas. “Ela dizia: ‘eu não pedia porque começaram a me chamar de Xuxa’. Ela tinha 9 anos.”

Enquanto para a maioria dos estudantes o recreio costuma ser um momento de liberdade, para os entrevistados era o período de maior exposição à violência. “É muito louco pensar que o recreio, o espaço de que as crianças mais gostam, onde elas brincam e se expressam, era justamente o lugar que essas pessoas tinham medo”, diz Marcella. Uma aluna trans contou que foi atingida por pedras na quadra e chegou a machucar o quadril. Um homem trans relatou que evitava permanecer no espaço porque queria jogar futebol, mas era constantemente alvo de agressões físicas e verbais.

Para a pesquisadora, o problema não está apenas na ausência de punição aos agressores, mas também na dificuldade de muitos professores em reconhecer que essas violências acontecem dentro da escola.

A violência também aparece disfarçada de regra disciplinar. Uma das entrevistadas contou que era obrigada pela direção a retirar a maquiagem antes das aulas, enquanto as colegas cisgênero podiam usá-la normalmente. “Eu ia de maquiagem na escola e a diretora mandava eu tirar. Só mandava eu tirar. As meninas podiam ir, mas eu tinha que tirar”, relatou.

Para interpretar esse tipo de situação, Marcella recorre à psicanalista francesa Maud Mannoni. Em “A Educação Impossível”, a autora descreve o que chama de “educação pervertida”, uma prática voltada ao controle dos corpos e à exclusão de tudo aquilo que foge à norma.

A vida fora da escola

Todos os seis entrevistados passaram pela escola regular e abandonaram os estudos na mesma etapa, entre o fim do Ensino Fundamental I e o início do Fundamental II. “A que foi mais longe chegou ao sétimo ano”, conta Marcella. Para a pesquisadora, é nessa transição que a evasão costuma se concentrar.

Depois de deixar a escola, a prostituição passa a fazer parte da trajetória de muitos desses estudantes. Segundo Marcella, cerca de 80% das mulheres trans que frequentam a escola pesquisada têm nessa atividade sua principal fonte de renda. Entre elas está uma aluna que trabalha na prostituição há 40 anos. Com o dinheiro, conseguiu comprar um apartamento, mas também acumulou histórias de violência envolvendo policiais, clientes e outras mulheres.

A pesquisadora interpreta esse percurso a partir da psicanálise de Jacques Lacan, segundo a qual cada sujeito encontra formas próprias de lidar com o sofrimento. Nesse contexto, a prostituição, a vida nas ruas e o uso de drogas aparecem menos como escolhas isoladas do que como estratégias de sobrevivência.

Os relatos indicam que é nas ruas que muitas dessas pessoas encontram, ainda adolescentes, outras que compartilham experiências semelhantes. Esse pertencimento ajuda a explicar por que tantas deixam a casa da família entre os 10 e os 12 anos para buscar essas comunidades. “Sozinhas elas morrem”, resume Marcella.

Cinco dos seis entrevistados já passaram pelo sistema prisional. Paradoxalmente, foi nesse período que redescobriram o interesse pelos estudos. “Na prisão, eles voltaram a gostar de estudar”, afirma. A hipótese da pesquisadora é que o cárcere ofereceu um ambiente onde não precisavam esconder quem eram. Ali, encontraram um senso de comunidade entre pessoas que também viviam experiências de exclusão.

“Talvez a chave seja justamente esse senso de comunidade aliado à liberdade de não precisar se enquadrar na norma”, diz. Marcella também observa que o preconceito relatado pelos entrevistados costuma ser aprendido dentro de casa. Xeila contou que o pai era violento desde a infância por perceber “o jeito afeminado do filho” e dizia que mataria um filho caso ele fosse gay. Apesar disso, a própria entrevistada fazia questão de separar o pai do discurso que reproduzia. “Não era meu pai. Era o que ele ouvia na rua, o que trazia dos amigos dele”, contou.

A partir de relatos como esse, os próprios estudantes defenderam que as escolas promovam encontros periódicos com as famílias, principalmente quando episódios de violência são identificados.

O olhar do professor

A pesquisa aponta que a permanência escolar depende diretamente da relação construída entre professor e estudante. Mas a rotina exaustiva, a falta de formação e preconceitos muitas vezes inconscientes podem fazer com que o próprio docente reproduza violências sem perceber. “Os estudantes travestis comentavam que o olhar do professor já era violento para eles. E eu nem sei se o professor percebia isso”, observa Marcella.

Para pensar esse desafio, a pesquisadora recorre a Sigmund Freud, que descreveu governar, psicanalisar e educar como as três “profissões impossíveis”, justamente porque nenhuma delas consegue controlar completamente o sujeito. A partir dessa ideia, ela defende que a formação continuada também ofereça espaço de escuta aos professores. “Eu sentia muita falta desse acolhimento para a gente [professores] também, porque é uma dificuldade muito grande.”

Para os seis entrevistados, o retorno aos estudos só foi possível por meio do Transcidadania, programa da Secretaria Municipal de Direitos Humanos que oferece uma bolsa de aproximadamente R$1.500,00 por até três anos, condicionada à frequência escolar.

Marcella, no entanto, afirma que o incentivo financeiro, sozinho, não garante a permanência. O que faz diferença é a expectativa de encontrar um ambiente acolhedor. Muitos decidiram voltar a estudar depois de ouvir de agentes da Secretaria que determinada escola era um espaço onde seriam bem recebidos, mesmo que isso significasse atravessar a cidade diariamente. “Volta a estudar nessa escola, porque lá tem bastante pessoas iguais a você”, ouviam.

Uma das entrevistadas resumiu o motivo da escolha como “Eu não queria estudar com os héteros. Eu já estudei no passado. Foi horrível.” Apesar disso, nenhum dos participantes defende a criação de escolas exclusivas para travestis e pessoas trans. “A gente é o quê, bicho, que tem que estar separado?”, perguntou uma das entrevistadas.

A dissertação termina em tom de esperança. Na prisão, Xeila descobriu o desenho como forma de expressão. Fazia retratos e ilustrava cartas para outros presos em troca de perfume e creme hidratante. Foi ela quem pintou a jaqueta usada por Marcella na defesa da dissertação. Mesmo depois de sucessivas experiências de exclusão, o desejo de aprender, criar e permanecer na escola continua existindo quando encontra um espaço de acolhimento.

Jornal da USP
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