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Governos sem utopia, artigo de Renato Janine Ribeiro

13/07/2009 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=64633
“Que a SBPC se reúna na Amazônia quando o governo cede a visões de curtíssimo prazo sobre energia e regularização da propriedade rural, não só aponta uma prioridade que a região representa na biodiversidade mundial, mas também simboliza outras prioridades que estão a nosso alcance” <BR><BR>Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo (USP). Artigo enviado pelo autor ao “JC e-mail”:<BR><BR>No alto escalão do governo, talvez no mundo inteiro, é freqüente os cargos serem maiores que seus ocupantes. Tivemos uma grande exceção no governo Lula, que foi – de um total de talvez 60 ministros que passaram pelas diversas pastas – Gilberto Gil. Como ministro, foi bom. Mas outros poderiam ser bons ministros, enquanto só ele pode ser o cantor da qualidade e da identidade Gil.<BR><BR>Uma possibilidade teria sido o prof. Roberto Mangabeira Unger. Depois de Fernando Henrique Cardoso, ele é provavelmente o intelectual brasileiro mais respeitado no exterior. Quando pleiteou a prefeitura de São Paulo, em 2000, embora não tivesse chances de se eleger, seus textos eram originais. Tinham idéias que excediam os esquadros dos partidos. Mas, no Ministério, ele ficou aquém do que poderia ter sido.<BR><BR>Hoje, temos três pastas para lidar com “o futuro”. A primeira e mais conhecida é a do Planejamento. Mas, com o passar do tempo e a renúncia do Estado a planejar, ele agora se ocupa mais é de elaborar o orçamento e controlar o desempenho dos ministérios. Neste segundo papel, por sinal, fica atrás da Casa Civil.<BR><BR>O segundo ministério “do futuro” é o Conselhão – o conselho que reúne o PIB, como disse, inteligente e irônica, uma ex-assessora dessa pasta. Ele se empenha, sim, em pensar o futuro e discordou muito das opções mais conservadoras, em matéria econômica, de Lula. Teve as asas muito cortadas na proposição e na implantação de um futuro diferente e inovador. Seus titulares petistas foram de alto escalão, primeiro o atual ministro da Justiça, Tarso Genro, depois o hoje governador da Bahia, Jacques Wagner – mas o Conselhão, ele mesmo, não decolou.<BR><BR>Quando se criou a Secretaria de Ações de Longo Prazo, que depois adotou o nome já antigo de Secretaria de Assuntos Estratégicos, para ter como ministro o prof. Mangabeira, era de se esperar que viessem idéias originais. Estas vieram, mas por conta das posições pessoais de Marcio Pochmann, presidente do Ipea – e assinalo, mais suas posições pessoais do que seu papel institucional. Já os projetos do ministro ficaram aquém do que se esperava.<BR><BR>De um intelectual que pensa o futuro, o que se espera é justamente que não o pense como reiteração dos temas já existentes. Há um futuro que é uma continuação do presente. Poderia citar uma passagem de Hobbes, em que o querido filósofo fala dos que entendem a eternidade como um nunc-stans, como um presente que perdura para sempre. E é assim mesmo que geralmente se pensa o futuro, como um presente repetido.<BR><BR>Ora, o que vimos nas últimas décadas é que as previsões de uma reiteração do presente deram, o mais das vezes, errado. Um intelectual no governo deveria trazer uma dose de utopia – algo como o Do-in antropológico de Gil, mas radicalizado.<BR><BR>Quem esteve mais perto desse papel foi Marina Silva, ministra do Meio Ambiente defenestrada pela candidata do presidente Lula a sua sucessão. E é patético que justamente tenha sido com Marina Silva que nosso secretário de Assuntos Estratégicos se estressou, quando ele recebeu do presidente a incumbência de coordenar um projeto que, obviamente, seria dela.<BR><BR>Como a SBPC deste ano é na Amazônia, é mais que nunca oportuno frisar que essa região é em larga medida o futuro do Brasil e mesmo do mundo. Parafraseio Carlos Nobre: o Brasil é uma potencia agrícola e nisso não há mérito maior ou novidade; mas pode ser a primeira potência ambiental do mundo, e nisso haverá muito mérito e novidade.<BR><BR>Quinze anos atrás, o ministro do Meio Ambiente “e da Amazônia Legal” (assim se chamava sua pasta) foi transferido para a Fazenda, a fim de completar o Plano Real. Elogios de toda a parte. Uma exceção só: Antonio Callado,na Folha de S. Paulo, lamentou o rebaixamento de Rubens Ricupero, um dos homens que melhor conhecia a Amazonia, para um cargo de contador. Rebaixamento, foi o que disse Callado. O romancista sabia do que dizia. Ricupero, na Fazenda, fez o que qualquer pessoa competente faria. Na Amazônia, faria algo mais original, mais rico e promissor.<BR><BR>Não é dessa riqueza, dessas promessas, dessas utopias que temos falta hoje?<BR><BR>O PT, na oposição, navegou em utopias. Qualquer uma era aceita por ele. Somou as utopias totalitárias (o marxismo-leninismo) e as utopias libertárias (até mesmo a liberação da maconha, a sunga de Fernando Gabeira), sem se preocupar com suas eventuais contradições. Enquanto o PSDB se preocupava com a governabilidade e a justo título se inquietava com as contradições abrigadas no petismo, o PT apelava, entre outros públicos, a um que achava a imaginação mais importante do que a seriedade quase enfadonha em que os tucanos corriam o risco de cair.<BR><BR>O triste não foi albergar utopias conflitantes entre si. O triste foi a cúpula do atual governo se desfazer com tanta facilidade como o fez das promessas e sonhos que tinha assumido enquanto estava na oposição. Até entendo que, entre a eleição e a posse, não dava para reunir algumas multidões e dizer: vamos fazer o possível; vamos abrir mão provisória ou definitivamente de muitos valores, mas não dos principais; etc. Mas esse descuido com o elemento utópico se perpetuou.<BR><BR>Por isso, era importante termos, no primeiro escalão, alguém que pensasse, que não se limitasse a duplicar o que já é feito (ou não é feito) no Planejamento, na Casa Civil, no Conselhão. Pouca gente discute, no governo, o que são as mudanças na vida atual. Os relacionamentos amorosos, as escolhas profissionais, os projetos de vida, tudo isso está mudando a enorme velocidade.<BR><BR>A Amazônia é simbólica disso. Que a SBPC se reúna na Amazônia quando o governo cede a visões de curtíssimo prazo sobre energia e regularização da propriedade rural, não só aponta uma prioridade que a região representa na biodiversidade mundial, mas também simboliza outras prioridades que estão a nosso alcance. O Brasil também tem uma culturo-diversidade notável. E sabe lidar com ela melhor que muitos outros países. Também isso vai ser sacrificado a contas de um PIB visto a secas?<BR><BR>Enfim, deveríamos ter um espaço maior para a imaginação no poder. Não é bem o que sucede. E no entanto propor mais do mesmo é má estratégia, se é que alguma coisa os últimos cem anos nos ensinam. Sugiro, para concluir, um pequeno exercício. Imaginem, desde 1900, o que a cada vinte anos se imaginou que as décadas seguintes trariam. Pensem no que a belle époque, em 1900, projetava para o futuro, e não verão a Grande Guerra.<BR><BR>Pensem no que a Europa destroçada de 1920 imaginava para as décadas seguintes. Pensem no que o mundo envolvido na guerra, em 1940, concebia para o futuro, e não verão lugar para a democracia. Pensem no que se imaginava em 1960 para as décadas seguintes, e será difícil saber se será o mundo jovem, simbolizado por Kennedy, Castro, os Beatles, a mini-saia, ou se será o mundo das ditaduras, encarnado por dezenas de déspotas mundo afora.<BR><BR>Pensem em 1980, com Thatcher recém-triunfante, em 2000, com os Estados Unidos divididos entre o futuro proposto por Al Gore e o retrocesso simbolizado por Bush 2.0. Basta dizer: em nenhuma dessas épocas, as décadas seguintes repetiram as anteriores. O governo que aprender uma lição destas terá muito espaço pela frente.<BR>
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