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São Paulo corta a EJA enquanto milhões ainda não sabem ler
13/01/2026
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Matrículas na modalidade caíram mais de 50% na capital, apesar da demanda reprimida e dos discursos oficiais de inclusão
No fim do ano passado, Jovelina Pereira da Silva realizou um sonho adiado por mais de seis décadas. Recebeu, enfim, o diploma de conclusão do Ensino Fundamental pelo Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (Cieja) Professora Rose Mary Frasson, na Brasilândia, zona norte de São Paulo.
Foram 65 anos até que ela pudesse se tornar estudante. Na infância e na adolescência, o desejo de frequentar a escola foi sistematicamente barrado pelo pai, que não via utilidade nos estudos. Para ele, a escola apenas atrapalharia o trabalho pesado nas fazendas de soja e café do sul do Paraná, onde Jovelina dividia a lida com os irmãos.
“Meu pai nunca me deu esse direito, essa liberdade. Ele dizia que não valia a pena estudar, que o certo era trabalhar”, relembra. Hoje, aos 67 anos, alfabetizada, segura na leitura e na escrita, Jovelina descobriu um novo prazer: escrever. E cultiva o sonho de se tornar escritora.
A cerca de 15 quilômetros dali, no bairro do Canindé, Marinalva Rodrigues de Souza, de 65 anos, também celebrou recentemente o fechamento de um ciclo. Concluiu os estudos na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Espaço de Bitita. Para ela, a escola significou, acima de tudo, autonomia.
“Eu ia ao supermercado e não conseguia ler os preços. Inventava que estava sem óculos, pedia para alguém ver pra mim”, conta. “No ônibus, eu me guiava pela cor. Às vezes me perdia.”
Jovelina e Marinalva são rostos de uma conquista individual, mas também símbolos de resistência coletiva. Ambas estudaram em equipamentos da Prefeitura de São Paulo num momento em que a cidade vem promovendo um encolhimento sistemático da EJA, modalidade voltada justamente a quem não conseguiu concluir a educação básica na idade considerada ‘adequada’.
Desde 2021, quando Ricardo Nunes assumiu a Prefeitura, a EJA registra queda contínua. Entre junho de 2021 e junho de 2025, o número de matrículas caiu 52%, despencando de 39.720 para 18.801 estudantes. Em outubro de 2025, último dado disponível no Portal de Dados Abertos da Prefeitura, eram 16.986 matrículas — uma redução de 16% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Na rede estadual, principal responsável pela oferta da EJA em Ensino Médio, a situação não é diferente. Entre 2011 e 2020, segundo dados de uma nota técnica da Rede Escola Pública e Universidade, a Repu, houve uma redução de 54% na oferta de matrículas na modalidade. Já entre 2020 e 2023, 85.515 matrículas na EJA presencial deixaram de existir, uma variação negativa de 61,9%.
Leia na íntegra:
Carta Capital
No fim do ano passado, Jovelina Pereira da Silva realizou um sonho adiado por mais de seis décadas. Recebeu, enfim, o diploma de conclusão do Ensino Fundamental pelo Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (Cieja) Professora Rose Mary Frasson, na Brasilândia, zona norte de São Paulo.
Foram 65 anos até que ela pudesse se tornar estudante. Na infância e na adolescência, o desejo de frequentar a escola foi sistematicamente barrado pelo pai, que não via utilidade nos estudos. Para ele, a escola apenas atrapalharia o trabalho pesado nas fazendas de soja e café do sul do Paraná, onde Jovelina dividia a lida com os irmãos.
“Meu pai nunca me deu esse direito, essa liberdade. Ele dizia que não valia a pena estudar, que o certo era trabalhar”, relembra. Hoje, aos 67 anos, alfabetizada, segura na leitura e na escrita, Jovelina descobriu um novo prazer: escrever. E cultiva o sonho de se tornar escritora.
A cerca de 15 quilômetros dali, no bairro do Canindé, Marinalva Rodrigues de Souza, de 65 anos, também celebrou recentemente o fechamento de um ciclo. Concluiu os estudos na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Espaço de Bitita. Para ela, a escola significou, acima de tudo, autonomia.
“Eu ia ao supermercado e não conseguia ler os preços. Inventava que estava sem óculos, pedia para alguém ver pra mim”, conta. “No ônibus, eu me guiava pela cor. Às vezes me perdia.”
Jovelina e Marinalva são rostos de uma conquista individual, mas também símbolos de resistência coletiva. Ambas estudaram em equipamentos da Prefeitura de São Paulo num momento em que a cidade vem promovendo um encolhimento sistemático da EJA, modalidade voltada justamente a quem não conseguiu concluir a educação básica na idade considerada ‘adequada’.
Desde 2021, quando Ricardo Nunes assumiu a Prefeitura, a EJA registra queda contínua. Entre junho de 2021 e junho de 2025, o número de matrículas caiu 52%, despencando de 39.720 para 18.801 estudantes. Em outubro de 2025, último dado disponível no Portal de Dados Abertos da Prefeitura, eram 16.986 matrículas — uma redução de 16% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Na rede estadual, principal responsável pela oferta da EJA em Ensino Médio, a situação não é diferente. Entre 2011 e 2020, segundo dados de uma nota técnica da Rede Escola Pública e Universidade, a Repu, houve uma redução de 54% na oferta de matrículas na modalidade. Já entre 2020 e 2023, 85.515 matrículas na EJA presencial deixaram de existir, uma variação negativa de 61,9%.
Leia na íntegra:
Carta Capital