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Pesquisa em agricultura precisa correr para incluir aquecimento global

08/05/2009 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=63278
Mudanças no ambiente impõem desafio à ciência agrícola brasileira. Simpósio debateu o tema no último dia da Reunião Magna Anual da Academia Brasileira de Ciências, no Rio <BR><BR>Vinicius Neder escreve para o “JC e-mail”:<BR><BR>A pesquisa científica em agricultura precisa correr contra o tempo para alertar governantes a respeito dos impactos das mudanças do clima e ajudar na formulação de políticas públicas capazes de adaptar a atividade agropecuária a novas realidades marcadas pelo aquecimento global. <BR><BR>Para o pesquisador Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), trata-se de pensar um novo modelo de desenvolvimento que preserve a Floresta Amazônica, cujo desmatamento por queimadas é o principal responsável pelas emissões de gases de efeito estufa por parte do Brasil. “A base seria uma revolução de ciência e tecnologia”, afirmou Nobre.<BR><BR>O pesquisador do Inpe coordenou nesta quarta-feira, dia 6, o simpósio “Mudanças Climáticas e Agricultura”, no último dia da Reunião Magna Anual da Academia Brasileira de Ciências (ABC), no Rio. “Não há país tropical plenamente desenvolvido”, completou Nobre, para lembrar que não existem modelos de desenvolvimento a serem copiados pelo Brasil.<BR><BR>Estudo da Embrapa apontou que, por volta de 2020, o Brasil poderá ter perda anual de US$ 7,4 bilhões na produção de grãos por causa das mudanças no clima, segundo informou no simpósio o pesquisador Eduardo Assad, da estatal de pesquisa agrícola. Para buscar novas tecnologias capazes de minimizar os efeitos negativos, seria preciso investir cerca de US$ 450 milhões ao ano, ainda segundo estudos da Embrapa.<BR><BR>Os ganhos de produtividade que colocam o Brasil atualmente como uma potência agrícola estão assentados em ciência e tecnologia. “O Brasil é o responsável pelo desenvolvimento de ciência e tecnologia em agricultura tropical”, destacou Luiz Cláudio Costa, reitor da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e especialista em meteorologia agrícola, também em palestra no simpósio desta quarta-feira. A necessidade de mitigar os efeitos do aumento das temperaturas oferece “um novo paradigma para a ciência agrícola tropical”, completou o pesquisador.<BR><BR>A busca desse novo paradigma enfrenta algumas lacunas científicas, conforme enumerou Carlos Nobre na apresentação de abertura do simpósio. Uma delas é responder se a produção de biocombustíveis oferece riscos de aumentar o desflorestamento da Amazônia e de ameaçar a segurança alimentar. Se há evidências de que a produção de etanol a partir do milho nos Estados Unidos influencia o preço de alimentos, o mesmo não se verifica no Brasil.<BR><BR>O problema é a influência indireta da produção da cana-de-açúcar na Amazônia. O avanço da área plantada de cana sobre o Cerrado leva à expansão da pecuária e da soja na Região Amazônica. Segundo Nobre, monitoramentos indicam aumento do desmatamento na Amazônia a partir do crescimento do plantio de soja no Mato Grosso e a expansão do número de cabeças-de-gado na Amazônia, entre 1992 e 2006, foi de 150%, muito acima da média nacional.<BR><BR>Em relação à pecuária, a baixa produtividade se apresenta como um problema. A densidade média dos rebanhos no Brasil é de 1 cabeça-de-gado por hectare – e ela é ainda menor na Amazônia. Há 26 anos, a Empraba apresenta estudos sobre a importância de se incentivar a integração entre pecuária e plantio de grãos nas propriedades rurais, mas as pesquisas não se traduzem em políticas públicas, afirma Eduardo Assad. <BR><BR>O pesquisador pondera que a política de integração deverá sair ainda neste ano e que a proposta de reduzir a zero o desmatamento da pecuária na Amazônia, feita pelo Ministério da Agricultura, poderá induzir ao aumento de produtividade.<BR><BR>O plantio controlado da cana-de-açúcar, capaz de garantir o fornecimento para a produção de biocombustíveis sem pressionar por mais desmatamento na Amazônia, segundo Assad, depende também de uma política pública: a aprovação do zoneamento agroecológico da cana.<BR><BR>O projeto de zoneamento deriva de estudo da Embrapa, citado por Assad. A pesquisa aponta que seria possível ocupar 44 milhões de hectares com cana-de-açúcar, apenas em áreas de pastos degradados, fora da Amazônia e do Pantanal. A área total seria suficiente para produzir 300 bilhões de litros de etanol. Falta, porém, incluir os impactos das mudanças climáticas no zoneamento.<BR><BR>“Do ponto de vista econômico, temperaturas mais quentes podem aumentar a produção agropecuária em valor, ao beneficiar a cana-de-açúcar, mas deixariam vulnerável a segurança alimentar”, ponderou Assad durante sua palestra. <BR><BR>Assad citou estudo da Embrapa que aplicou os modelos de variação climática do IPCC nas previsões de funcionamento das zonas de risco climático – política do Ministério da Agricultura que orienta produtores quanto às melhores épocas para o plantio. Segundo o pesquisador, de 19 produtos, apenas a cana e a mandioca não teriam perdas econômicas diante de temperaturas mais altas. Elevação de 2oC, completou Assad, já bastaria para causar impactos negativos.<BR><BR>Segundo a apresentação de Luiz Carlos Costa, da UFV, mais nocivo do que o aumento das temperaturas médias é o crescimento das variações. “O aumento das temperaturas à noite reduz a produtividade agrícola”, informou Costa. Outros exemplos de mudanças são a ocorrência de veranicos mais extensos e a redução das geadas no Sul de Minas Gerais – que ameaça a produção de café, como demonstrou Assad, da Embrapa. <BR><BR>Quantificar os impactos e evitar perdas de produtividade são, segundo Costa, alguns dos principais desafios da ciência agrícola diante das mudanças climáticas. O pesquisador lembrou que as plantas gostam de CO2, pois usam a substância no processo de fotossíntese, mas ainda não se sabe quais poderão ser as reações dos vegetais em um ambiente com mais gás carbônico na atmosfera. Costa ressaltou também a importância de se desenvolver modelos de funcionamento da fotossíntese diante de um clima mais quente.<BR><BR>Falta de dados atrasa a ciência, dizem pesquisadores<BR><BR>A dificuldade no acesso a dados meteorológicos na Região Amazônica é um dos entraves para as pesquisas sobre mudanças climáticas no Brasil. Segundo Carlos Nobre, do Inpe, embora haja menos estações de medição na Amazônia, o problema está na divulgação.<BR><BR>“O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) é quem colhe os dados, mas não os libera. É um problema político”, afirmou Nobre durante o simpósio desta quarta-feira na ABC. O pesquisador chamou a atenção para o problema durante a apresentação de Luiz Cláudio Costa, da UFV.<BR><BR>Segundo Jacob Palis, presidente da ABC, a entidade e a SBPC fizeram ofício pedindo mais clareza na divulgação de dados sobre o clima. Em seguida, Nobre defendeu a aprovação de uma lei de liberdade de informação como uma solução mais definitiva, manifestação que foi seguida de alguns aplausos durante o simpósio.
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