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A nova prova da USP

15/12/2008 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=60515
Superelitista, engessada, burocrática, sem dinheiro e recebendo poucas doações; eficiente, criativa, democrática, aberta e inserida no cenário internacional: essa é a Universidade de São Paulo aos 75 anos<BR><BR>Patrícia Cerqueira escreve para o “Valor Econômico”: <BR><BR>Estamos perto de uma reviravolta no quadro obscuro do mal de Alzheimer, doença altamente debilitante, que destrói lembranças guardadas no cérebro e impossibilita a execução de atividades simples como tomar banho sozinho ou mesmo atravessar a rua. A doença, que afeta 60% dos idosos brasileiros, sempre foi um enigma para a medicina, mas, recentemente, pesquisadores da Universidade de São Paulo descobriram a área no cérebro onde ela surge. O significado da descoberta, sem dúvida, é enorme para a sociedade, pois permitirá a inibição do avanço do problema. <BR><BR>No entanto, essa não é a única boa notícia: conquista como essa da Faculdade de Medicina é apenas mais uma entre tantas outras obtidas pela maior universidade da América Latina. Só para se ter uma idéia, neste ano, pesquisadores da USP também anunciaram a produção da primeira linhagem brasileira de células-tronco embrionárias e a transformação de células-tronco de gordura em células musculares humanas, que no futuro servirá para tratamento de distrofia muscular. <BR><BR>Esses êxitos são exemplos práticos do grau de excelência da universidade paulista, que no dia 25 de janeiro completa 75 anos, com muitas razões para comemorar. Em menos de um século, a mítica instituição se tornou uma das 200 melhores universidades do mundo, de acordo com rankings internacionais. O resultado não é pouca coisa. "A Universidade de Bolonha, a mais antiga do mundo, está apenas entre as 300 melhores", diz Ruy Altafim, pró-reitor de Cultura e Extensão da USP. <BR><BR>Fundada sob o regime autoritário de Getúlio Vargas, sem autonomia política, orçamentária e pedagógica, a USP virou a mesa ao longo das décadas e se estabeleceu. "É a primeira da América Latina e a 34ª no mundo em citações de seus artigos científicos. Responde por cerca de 28% da produção científica nacional", afirma Suely Vilela, reitora da USP desde 2005. <BR><BR>Trata-se também da universidade que mais forma doutores no mundo, algo estratégico do ponto de vista do desenvolvimento científico e tecnológico do país. São, em média, 2,2 mil títulos concedidos anualmente, o que corresponde a 21% dos titulados no país. "Algumas das principais universidades americanas ficam na faixa de 750 doutores por ano", compara Suely. <BR><BR>Mas a atual gestão não deita em berço esplêndido. Já vislumbra a universidade entre as 50 melhores do mundo em 2034, quando completará 100 anos. O discurso entre todos os pró-reitores e alguns docentes é o de que, para isso, a USP tem de ampliar a qualidade do ensino na graduação e dos programas de pós-graduação. Grande quantidade dos programas de ciências exatas já tem bom nível de penetração internacional. <BR><BR>"Temos quase 31% dos programas de excelência nota 7 da Capes e 20% dos programas nota 6", explica o professor Armando Corbani Ferraz, pró-reitor de pós-graduação. A atenção está voltada agora para os 7% que têm nota 3, a segunda mais baixa. <BR><BR>O desempenho insuficiente em algumas áreas não é o único problema para uma universidade com tamanha ambição. A lista dos obstáculos a serem superados é grande como a instituição, que tem quase 5,5 mil docentes, em torno de 15,5 mil funcionários técnico-administrativos e cerca de 80 mil estudantes. Há desde reclamações de que a universidade é elitista, distante da sociedade e dela mesma, até a eterna e crônica falta de verba, que já fazia parte das reivindicações de alunos e professores na década de 60, passando pela excessiva burocracia - interna e externa. <BR><BR>A escassez de recursos, talvez, seja a mais grave fragilidade da instituição. Entre tantos problemas, a falta de verba interrompe pesquisa, impede a contratação de professores e funcionários, a ampliação de vagas, o intercâmbio de alunos e professores, algo fundamental para uma universidade que se pretende global como a USP. Mas já foi pior. Até 1989, a reitoria ficava à mercê da vontade política dos governantes para receber - ou não - dinheiro. Essa dependência dava uma margem razoável de ingerência dentro da universidade, por isso na luta por autonomia era necessário conquistar, sobretudo, a independência financeira. <BR><BR>No fim da década de 80, um decreto determinou um quinhão da arrecadação do ICMS do Estado para a USP. O orçamento para 2009 é de R$ 2,8 bilhões, o que representa crescimento de 18,14% em relação a 2008. Do orçamento deste ano quase 95% é para folha de pagamento e custeio. "Desde 1989, conseguimos prever o orçamento e não temos mais de ficar insistindo por dinheiro", diz Corbani Ferraz. <BR><BR>Há, entretanto, um outro lado dessa conquista: a ampliação de vagas passou a ficar amarrada. Quando foi inaugurada em 2005, a USP-Leste, em Ermelino Matarazzo, não constava na previsão orçamentária da universidade. Dependeu da boa vontade dos deputados estaduais para a liberação de verba. Mas com ajustes no orçamento, sem que a porcentagem do ICMS fosse aumentada, os custos do campus Leste não dependem mais do humor da Assembléia Legislativa paulista. Mesmo assim, cada projeto de um novo campus precisa ser milimetricamente pensado e negociado. <BR><BR>A USP-Leste ampliou o número de vagas de alunos da universidade e chegou a uma das regiões mais carentes da cidade - Ermelino Matarazzo é o bairro paulistano com pior índice de moradores com ensino superior (apenas 6% dos 4 milhões), segundo pesquisa da Datafolha. Teoricamente, a USP teria cumprido ali o seu papel de abrir mais vagas nas franjas carentes da cidade. São cerca de mil alunos que a cada ano entram para a Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH). Estudam ali aproximadamente 4 mil pessoas, desde a sua inauguração, mas metade não é da região. <BR><BR>Para Simon Schwartzman, pesquisador do Instituto dos Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), os cursos oferecidos na nova unidade foram uma resposta equivocada da USP para as pressões da sociedade pela democratização de acesso a ela. "É preciso ampliar o número de vagas, sem dúvida, mas não é papel da USP oferecer cursos de perfil técnico. Isso é política de Estado para o ensino superior", diz ele. <BR><BR>A criação do campus na extrema zona leste de São Paulo integra o acalorado debate acerca da elitização do ensino público superior no Brasil. Em especial na USP, que escancara o gigantesco degrau social brasileiro. Do total de alunos, 75% são do sistema privado (particular e cursinho). No ensino médio no Estado de São Paulo, 85% dos estudantes estão nas escolas públicas. Os 15% restantes são do sistema privado. O que ocorre dentro da USP, portanto, é uma total distorção da realidade estudantil brasileira. Pressão de fora da universidade exigia a adoção da política de cotas. Dentro da instituição havia o desejo para que não se modificasse nada. <BR><BR>"Muitos pediam para deixar as coisas do jeito que estavam porque acreditam que a universidade deve mesmo ser para determinados segmentos favorecidos da sociedade", afirma Selma. Sensível à necessidade de maior inclusão social, mas contrária às cotas para negros para evitar a formação de guetos, a USP criou, há dois anos, o Inclusp, programa que concede bônus de 3% a todos os alunos do ensino médio da escola pública, além de isentá-los da taxa da Fuvest. <BR><BR>"Comentam que 3% é pouco, mas, quando se traduz para números, são quase 3 mil estudantes aprovados num vestibular de 10 mil vagas. Ou seja, estamos chegando a quase 30% do total de alunos", explica Selma. A partir do vestibular deste ano, a porcentagem do prêmio pode variar entre 3% e 12% da nota do aluno no vestibular. O programa inclui os bonificados em boa parte dos cursos, mas nos tradicionais e mais concorridos, como medicina e engenharia, ainda não foi percebida a chegada dos "incluspianos". <BR><BR>Como a USP é uma universidade estadual, não terá de seguir a lei aprovada pela Câmara, no mês passado, que reserva pelo menos 50% das vagas em cada curso e turno de universidades federais para estudantes que tenham feito todo o ensino médio em escolas públicas. Para entrar em vigor, o projeto ainda precisa ser aprovado pelo Senado e sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. <BR><BR>Mas se essa discussão sobre cotas para negros perdeu força com o Inclusp, isso não significa que a USP navega em águas mais tranqüilas. Novas polêmicas entraram no caldeirão e estão esquentando os campi. Uma delas, tão antiga quanto a das cotas, porém distante de ser encerrada, é a da participação do dinheiro privado nos projetos de pesquisa. Os contrários ao capital externo dizem que é arriscado depender tanto desses recursos porque, cada vez mais, as pesquisas podem ficar direcionadas a um grupo específico e longe dos problemas comuns à maioria da população e da pesquisa básica. <BR><BR>"A academia ainda é bastante resistente à parceria público-privada, adotando o discurso de que estamos nos vendendo, mas a velocidade das mudanças é altíssima e, se a universidade não acompanhar, ficará para trás. Corre o risco, sim, é de ser ultrapassada por outras instituições", afirma Mayana Zatz, pró-reitora de pesquisa. "Claro que a parceria tem de ser sempre criteriosa. Mas insisto: conhecimento que fica preso somente na universidade, que não é passado adiante, morre na praia", prossegue. <BR><BR>Outro argumento é que os empresários também são parcela representativa da sociedade. "Por ser de ponta, a USP precisa sempre de verba, e qualquer tipo de restrição ao financiamento, inclusive privado, dos projetos causaria mais mal à universidade e ao país do que se possa imaginar", afirma o ministro da Educação, Fernando Haddad. <BR><BR>No mesmo caldeirão de sopas polêmicas a temperatura sobre a Univesp (Universidade Virtual) aumenta. Trata-se de um programa de ensino a distância desenvolvido em parceria com a Secretaria de Ensino Superior, que entra em vigor já no próximo ano. "É um programa de educação de uso intensivo das tecnologias: internet, 0800 e IPTV, mas também exige 40% de atividades presenciais", explica Carlos Vogt, secretário de Ensino Superior. Os alunos passarão por um processo seletivo. O foco é a expansão da formação do professor secundário. <BR><BR>O projeto nasce no meio de inúmeras críticas. Muitos avaliam que há falta de disciplina para o brasileiro estudar sozinho, há risco de sucateamento da qualidade do ensino e falta de viabilidade para tirar as dúvidas. "Não acho que seja papel da USP fornecer ensino a distância. Ela deve cuidar de manter o padrão de qualidade da pesquisa brasileira, seu maior patrimônio", afirma Schwartzman, do Iets. <BR><BR>Outro desafio enfrentado pela universidade está numa maior integração com ela mesma. "Há um isolacionismo que atomiza a universidade. Cada faculdade, cada departamento é um mundo à parte", diz Nicolau Sevcenko, professor do Departamento de História. Para Mayana, os pesquisadores ainda não se deram conta de quanto é melhor fazer parcerias para alguns trabalhos. "Todos ganham, mas a ciumeira e o ego ainda atrapalham", diz a pró-reitora. <BR><BR>A USP não estaria distante apenas dela mesma. Como no caso da elitização de seu corpo discente, a sociedade reclama também que a USP parece falar pouco com a população, dando margem, até mesmo, para críticos a acusarem de ser cara demais para o contribuinte e de dar retorno de menos. <BR><BR>"Se as iniciativas da universidade não são compreendidas, algo de errado ocorre", afirma Ruy Altafim. As informações produzidas pela instituição, segundo ele, são muito pulverizadas por causa do ao grande número de jornais e veículos de comunicação da própria universidade. "Estou em campanha por um menor número de jornais, porém mais eficientes, que tenham encartes científicos", defende. <BR><BR>Poucos sabem e não usufruem, por exemplo, de sua estrutura aberta à população, como os quatro museus, entre eles o Estação Ciência e o Museu Paulista, ou suas 39 bibliotecas. O público conhece mais os hospitais, que são quatro, entre eles o das Clínicas, de São Paulo, o maior da América Latina. <BR><BR>Mesmo com seus desacertos, uspianos e não-uspianos são unânimes ao afirmar que a USP cumpre, sim, o papel de uma universidade pública: o de dar à sociedade o retorno que dela se espera. Léa Maria Leme Velho, professora da Unicamp e pesquisadora de formação de recursos humanos para pesquisa, avalia que é preciso ampliar o olhar sobre a USP para enxergar também a mão-de-obra de alta qualidade que sai de seus nove campi. <BR><BR>"Os números mostram uma parte visível dessa excelência. Mas há outra, mais difícil de ser mensurada, como o padrão de qualidade que a USP impõe no ensino superior e forma as cabeças dos dirigentes do país, dos quadros para a iniciativa privada e para as ONGs", diz Léa. Aliás, foi a partir do padrão de ensino uspiano que surgiram as outras duas importantes instituições de ensino superior gratuito do Estado: a Unicamp, segunda universidade que mais forma doutores no mundo, e a Unesp. <BR><BR>Se alguns resultados produzidos pela USP são mais fáceis de ser percebidos, outros não são visíveis, mas estão presentes no cotidiano da universidade, como as discussões sobre a educação brasileira, a violência urbana, a ética por trás da conquista do genoma, tão fundamentais para a pesquisa e formação da opinião e aprovação de leis. <BR><BR>Discussões transbordam no ambiente dos campi da capital e do interior. O professor de história Breno Leal Ferreira, de 27 anos, mestrando na USP, destaca a presença de intensos debates como uma das marcas positivas da instituição. Ferreira faz a afirmação porque tem como compará-la a outro universo: o da história da PUC-SP, curso em que entrou em 2001. Considera os dois de qualidade, mas o maior diferencial da USP está na vocação para o debate. "A discussão não se limita à sala de aula. Continua nos corredores", afirma. Ali, diz ele, é possível manter um diálogo de alto nível. <BR><BR>Para Selma Garrido, pró-reitora de graduação da USP, o principal desafio da graduação para os próximos anos é justamente não perder de vista "a formação de estudantes críticos". Na avaliação dos docentes dos 231 cursos, boa parte dos estudantes, quando entra na universidade, a enxerga como mercadoria. "Como se vai ao supermercado escolher um tomate, vem-se para a universidade. O estudante não chega aqui um ser crítico", diz Selma. <BR><BR>A frase "temos de pesquisar desde a graduação" também parece um mantra. A novidade é que agora, além da graduação, a USP lançou o desafio de levar a pesquisa para o ensino médio público. O programa de pré-iniciação científica, iniciado em outubro, pôs cerca de 400 alunos da rede pública da capital em contato direto com grupos de pesquisa. Ficarão durante um ano. "Queremos que a garotada seja contaminada pelo vírus da curiosidade e se esforce para conseguir estudar conosco", afirma Mayana. <BR><BR>Superelitista, engessada, burocrática, sem dinheiro e recebendo poucas doações. Eficiente, criativa, democrática, aberta e inserida no cenário internacional. Essa é a Universidade de São Paulo aos 75 anos. "E o nosso país é diferente disso? A USP não é nem santo nem demônio. É a cara do Brasil", diz Léa Velho. <BR><FONT size=1>(Valor Econômico, 12/12)</FONT> <BR><A href="http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=60515"><FONT size=1>http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=60515</FONT></A>
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