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Por trás daquela refeição

07/11/2012 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=84880
Feijão resistente a vírus, alface biofortificada e café que sobrevive a longos períodos seca são alguns alimentos que deverão aparecer na mesa do brasileiro em breve.Em um simples "prato-feito" com feijão, arroz, carne e salada, com cafezinho no fim, pode haver muita ciência escondida. Em um futuro próximo, brasileiros poderão, cada vez mais, incluir em sua dieta alimentos desenvolvidos no Brasil especialmente para sanar problemas e suprir limitações da produção agrícola do País. São plantas geneticamente modificadas (GM), carro-chefe da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. "Nós vivemos anteriormente um momento de medo [dos transgênicos], mas não estamos mais nessa situação. Saímos da questão do 'frankenfood', assumimos sua adoção e hoje o questionamento envolve mais os posicionamentos técnicos e científicos", afirma a bióloga Adriana Brondani, chefe executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB). Ela lembra que o Brasil é o segundo país com mais áreas plantadas de transgênicos (os Estados Unidos lideram o ranking), feito conquistado em grande parte pela soja transgênica, também desenvolvida pela Embrapa, e pela facilitação do processo depois da Lei da Biossegurança de 2005. Ainda assim, ela ressalta que é importante reforçar a comunicação a respeito do tema. Segundo uma pesquisa encomendada pelo CIB, em maio de 2010 a aceitação aos transgênicos verificada pela mídia online (no conteúdo de blogs, tweets, comentários e notícias, por exemplo) era 32% positiva e 68% negativa. Desde então, o CIB vem monitorando essas opiniões e, de acordo com os últimos dados, de agosto de 2012, houve mudanças. Essa proporção agora é de 48% (avaliações positivas) e 52% (negativas). "Hoje as discussões são mais pacíficas", ressalta, recordando a época em que plantações e laboratórios de transgênicos no Brasil e no mundo eram invadidos por ambientalistas. Feijão e alface - Um dos projetos mais conhecidos dessa unidade da Embrapa é o feijão transgênico, o primeiro do mundo a ser desenvolvido por uma instituição pública, que foi aprovado em 2011 pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). Foram necessários mais de dez anos de pesquisa para criar essa variedade de feijão, o mulatinho ou carioquinha transgênico (posteriormente a tecnologia poderá ser aplicada a outros tipos da leguminosa), resistente ao vírus do mosaico dourado. O alimento ainda demorará algum tempo para ser comercializado, devendo chegar às prateleiras por volta de 2015 ou 2016, pois se encontra em ensaios de cultivo no chamado "mapa do feijão", que engloba estados como Paraná, Minas Gerais, São Paulo e Bahia, por exemplo, conforme detalha o pesquisador em transformação genética de plantas Francisco Aragão. "Serão doze ensaios para registro de variedades, que durarão cerca de dois anos", explica. No Brasil, onde se perde de 90 mil a 280 mil toneladas do grão por ano por conta do mosaico dourado (dentro de uma produção de 1,5 milhão de ton/ano), a Embrapa disponibilizará a tecnologia sem royalties para os produtores de sementes. A ideia é, posteriormente, chegar a outros países, já que o mosaico dourado atinge, com algumas variações genéticas, a todas as nações produtoras de feijão da América. Outro projeto encaminhado é o de variedades de alface biofortificadas, que têm até 15 vezes mais ácido fólico. Muitas vezes associado à dieta de grávidas (por evitar a má formação do tubo neural nos fetos), o ácido fólico é uma vitamina necessária ao ser humano. Aragão conta que o equivalente a 12g de alface biofortificada seriam responsáveis para suprir 70% das necessidades diárias de ácido fólico para um adulto - grávidas devem comer o dobro disso. De acordo com o pesquisador, estudos indicam que a deficiência de folato em adultos pode estar associada a problemas no sistema nervoso e até à depressão, nos mais jovens. O projeto está prestes a entrar nos ensaios de biossegurança para obter o pedido de comercialização. Aragão também destaca a ideia de silenciar (isolar) da mamona a ricina - proteína que age como uma espécie de veneno vegetal. A ricina é encontrada na 'torta', ou seja, no resíduo da mamona que sobra depois da extração de seu valioso óleo. A intenção é poder aproveitar a torta sem essa toxina para produzir ração. Hoje, parte dela é usada para a fabricação de adubo. Café anti-seca e teia de aranha sintética - Outro estudo avançado diz respeito a uma variedade de café resistente a estresses abióticos, mais especificamente ao déficit hídrico, ou seca. O coordenador do Laboratório de Integração Planta-Praga da Embrapa, Eduardo Romano, lembra que a ONU estimou a necessidade de aumentar em até 50% da produção de alimentos até 2030 e que é fundamental reduzir as perdas das áreas já utilizadas para agricultura para evitar a expansão do cultivo. Ele destaca que, dentro do Projeto Genoma Café, que já identificou cerca de 30 mil genes da planta, descobriu-se que cinco desses genes se adaptam a condições de seca. E as plantas descendentes dos exemplares que receberam o gene também são resistentes a esse tipo de estresse. O estudo, iniciado em 2007, comparou a resistência do grão de café GM com o natural (mais resistente que outras espécies de grãos em geral) e o resultado mostra que o que recebeu genes sobreviveu o dobro de dias (cerca de 40) à seca do que o que não recebeu. Também está em processo de aprovação pelo CTNBio. Elíbio Rech, pesquisador da unidade, lembra que o Brasil hoje tem cerca de 30% de sua pauta de exportação baseada em matérias-primas e questiona a ideia de que o País precisa abandonar a exportação de commodities para crescer. "O Brasil é um importante produtor de alimentos, e seremos, junto com países como Estados Unidos e Índia, os responsáveis por duplicar a produção de alimentos do mundo. Temos uma relutância filosófica em aceitar isso e imaginamos que estamos caminhando para sermos produtores de derivados de alto valor agregado, mas isso é ilusão. Essa mudança de matriz não vai acontecer em 50 anos", acredita. Rech apresentou algumas das pesquisas do Laboratório de Biologia Sintética da Embrapa, que buscam soluções sustentáveis para as áreas de saúde e indústria. Entre elas, o isolamento de genes de aranhas brasileiras para desenvolver novos biopolímeros, produzidos a partir da criação de teias sintéticas que poderiam ser usadas, por exemplo, na construção de aviões mais leves, que emitiriam menos carbono. Outro destaque é a introdução de cianovirina - proteína capaz de impedir a multiplicação do HIV no corpo - em soja, milho ou tabaco para sua produção em larga escala. A soja também serve de base para aumentar a produção do hormônio de crescimento humano, o que poderia reduzir seu custo de aquisição em até 1/40, de acordo com o pesquisador. (Clarissa Vasconcellos - Jornal da Ciência)
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