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Alfabetização: MEC precisa definir parâmetros

07/08/2012 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=83576
Apesar de pacto nacional, educação de alunos de até oito anos precisa ser detalhada.Um mês após ter sido criado pelo Ministério da Educação, o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa já recebeu a adesão de 19 estados e 3.300 municípios brasileiros. O programa prevê que os governos assumam o compromisso de alfabetizar as crianças até os oito anos de idade, ao final do 3º ano do ensino fundamental (antiga 2ª série). Especialistas, porém, afirmam que falta definir melhor o nível de conhecimento esperado dos alunos em cada um dos três primeiros anos do ensino fundamental. E temem que, sem esta definição, alunos de escolas públicas sejam prejudicados. Tabulações feitas de acordo com dados do Censo do IBGE mostram que, entre as crianças mais ricas, de famílias com renda per capita superior a R$ 1.020, a imensa maioria (83%) já está alfabetizada aos seis anos. Entre as mais pobres (renda per capita inferior a R$ 128), são menos da metade (42%). Aos 10 anos, o analfabetismo entre as mais ricas é residual (1%), mas ainda é significativo entre as mais pobres, chegando a 14%. No total da população dessa idade, o analfabetismo atinge 6%. De acordo com o ex-secretário executivo do MEC e presidente da organização não governamental Instituto Alfa e Beto, João Batista Oliveira, crianças de seis anos já são capazes de entender o código alfabético e compreender como as letras transcrevem os sons da língua. Mas, para ele, o MEC precisa definir melhor o que entende como alfabetização, e isto não está explicitado no texto do pacto. "Alfabetizar é aprender como funciona o alfabeto. Não são necessários mais que alguns meses para aprender isso. Nas escolas particulares, a alfabetização ocorre aos seis anos. O MEC não define o que é alfabetizar". Compreensão - A professora do Programa de Pós-graduação em Distúrbios de Desenvolvimento da Universidade Mackenzie Alessandra Seabra teme que os professores responsáveis por alfabetizar as crianças fiquem perdidos sobre o que se espera dos alunos de oito anos. "Os professores podem pensar que apenas para dominar o código alfabético as crianças podem levar três anos. Ou seja, o professor pode ficar três anos fazendo o que poderia fazer em um ano", afirma. O secretário de Educação Básica do MEC, Antônio César Callegari, concorda que é possível fazer com que os alunos, aos seis anos, sejam capazes de compreender o código alfabético. Mas diz que o objetivo do ministério é que, aos oito anos, eles saibam mais do que isso, que consigam entender e construir textos e resolver questões matemáticas. De acordo com Callegari, as definições sobre o que se espera das crianças em cada etapa dos três primeiros anos do ensino fundamental em relação à alfabetização estarão expressas de forma clara em um programa, que está sendo finalizado pelo governo, de formação continuada para os 315 mil professores alfabetizadores. "Esse programa de formação continuada dos 315 mil professores alfabetizadores no Brasil contém os objetivos e direitos de aprendizagem durante o ciclo de alfabetização, esclarecendo quais são as habilidades, os conteúdos e direitos que qualquer criança tem que ter concretizado durante o ciclo de alfabetização. Estamos organizando quais são os objetivos intermediários ao final de cada uma das etapas dos três primeiros anos do ensino fundamental", afirma Callegari. Assim como o MEC, a ONG Todos pela Educação tem como meta lutar para que todas as crianças estejam plenamente alfabetizadas aos 8 anos, sejam capazes de interpretar um texto, compreender o contexto dele e tenham noções mínimas de matemática. Exame aplicado pela ONG em 2011 em escolas públicas e privadas concluiu que apenas 56% das crianças que terminaram o 3º ano do ensino fundamental compreenderam o que era esperado em leitura; e 43%, em matemática. "Se a criança não consolida a alfabetização na idade certa, ela compromete o seu desempenho nos anos seguintes", afirma a coordenadora-geral da ONG, Andrea Bergamaschi. Presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undimes), Cleuza Repulho lembra que cada criança tem um ritmo próprio e diz que apressar a escolaridade, fazendo com que os alunos pulem etapas, não é aconselhável. "Uma criança pode ser alfabetizada antes (dos oito anos), mas não queremos forçá-la a ter o mesmo ritmo. O aluno pode até entender o código alfabético aos cinco anos, mas o que não pode é ultrapassar os 8 anos sem estar alfabetizado", afirma Cleuza. Preparo - O Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa prevê que sejam feitas três avaliações para analisar se os estudantes sabem de fato ler e escrever: no início e no final do 2º ano do ensino fundamental, além de uma no final do 3º ano. E estão previstos ainda a formação continuada de professores alfabetizadores e o apoio do MEC com material didático. A maneira como as universidades e os cursos preparam os professores que vão ensinar as crianças a ler e escrever é alvo de críticas de especialistas. "A formação de professores está muito distante do que é necessário. Tem muito professor que chega com um conteúdo grande em sala, mas não sabe como gerir uma sala de aula, não está preparado para a prática", afirma Andrea Bergamaschi. 'Não existe método descartado' para a alfabetizaçãoCrianças com menos de seis anos incentivadas pelos pais desde cedo a aprender e com acesso a livros e revistas têm iniciado o 1º ano do ensino fundamental já com o processo de alfabetização iniciado. "Não é com a maioria que isso acontece, mas há crianças que chegam ao 1º ano sabendo identificar letras e palavras", afirma Isabel Cossalter, coordenadora pedagógica do ensino fundamental do colégio particular paulista I. L. Peretz. O I. L. Peretz tem como meta alfabetizar plenamente os seus alunos até o final do 2º ano do ensino fundamental. Um ano antes, portanto, da meta estabelecida pelo Ministério da Educação no pacto firmado com prefeituras e estados. Segundo a presidente da ONG Comunidade Educativa, Beatriz Cardoso, escolas particulares conseguem alfabetizar mais cedo que as públicas por vários fatores. "Seu contingente é constituído de alunos com background cultural mais rico, têm professores com melhor formação, alunos com maior poder aquisitivo e acesso a livros, materiais diversos e vida cultural, além de ajuda de pais letrados que estimulam e ajudam os filhos", afirma Beatriz. No Rio, o índice de faltas dos alunos do 1º ano do ensino fundamental nas escolas municipais preocupa a prefeitura. Segundo o município, são as crianças matriculadas no 1º ano - em que o processo de alfabetização é mais reforçado - as que mais faltam. "Se a criança não vai, não tem como alfabetizar. Vinte e quatro por cento dos alunos de 1º ano têm 12,5% de faltas. Nenhuma série tem tantas faltas como o 1º ano. A gente vai assinar um pacto com os pais para que eles se comprometam com a presença dos filhos na escola", afirma a secretária Claudia Costin. Professora do Ciep 1º de Maio, em Santa Cruz, no Rio, Vanda Regina Barbosa diz que um bom entrosamento entre os professores e os pais dos alunos é importante para ter sucesso na alfabetização das crianças. Segundo Vanda, que por dois anos consecutivos esteve entre as dez melhores alfabetizadoras da rede municipal carioca, é fundamental saber quais são as dificuldades e os problemas enfrentados pelos estudantes. O Ciep onde Vanda trabalha se destaca entre as escolas públicas da cidade, pois alunos do 3º ano do ensino fundamental conseguiram o melhor Índice de Desenvolvimento da Educação do Rio de Janeiro (IDE-Rio) de 2010. De acordo com Vanda, o segredo para conseguir alfabetizar é ter persistência. "No começo do 1º ano do ensino fundamental, os professores têm que fazer de tudo. Não existe método ultrapassado ou descartado. Você tenta um método, depois usa outros e depois outros. Tem que tentar de tudo e se esforçar", afirma a professora.(O Globo - 5/08)
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