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Tema em discussão - Balanço Rio+20
10/07/2012
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=83174
A edição do jornal O Globo de hoje (9) traz duas opiniões opostas sobre os resultados da Conferência as Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20).Visão realista, opinião do jornal Pressionada por demandas específicas, muitas inconciliáveis, de 191 países, e em meio a grave crise econômica mundial cujos efeitos sobre resultados e objetivos do encontro não poderiam ser ignorados, a Rio+20 produziu um documento final que deve ser julgado pelas intenções. Não é uma peça para embasar ações radicais e imediatas, como queriam militantes ambientalistas, organizações não governamentais, observadores, negociadores etc. Dentro das circunstâncias, o texto aprovado por chefes de Estado e de governo reunidos na capital fluminense é positivo. Chegou-se a um consenso possível numa conferência de cúpula que começou com uma pauta em que 70% do seu conteúdo estavam marcados por impasses. O documento, como já se esperava, não agradou aos grupos que viam na cúpula mais do que um momento extraordinário de reflexão, pela peculiaridade de reunir altos mandatários de todo o mundo. Tratava-se de avaliar até onde foi possível avançar, desde a Rio 92, em questões como sustentabilidade, ambientalismo, economia verde, e estabelecer passos a serem dados, daqui em diante, não só para equacionar demandas não resolvidas desde a primeira cúpula, na última década do século passado, e outras que inevitavelmente teriam de ter surgido pela dinâmica da ocupação do planeta e das relações políticas e econômicas entre as nações. O resultado mais significativo do encontro talvez não tenha sido a dimensão do que ficou consignado no texto final. Por óbvio, ao passar por crivos ideológicos, políticos ou econômicos, o documento produzirá mais ou menos entusiasmo, de acordo com a conveniência e a coloração política de quem o analisa. O que o torna altamente positivo é o fato de que o mundo se reuniu, discutiu demandas (algumas delas diretamente relacionadas com o futuro da Humanidade, como a utilização de recursos naturais não renováveis e o uso, em escala cada vez maior, de energia limpa) e, ao fim, admitiu a existência de problemas que reclamam ações urgentes. Nisto, a cúpula deu um salto: reconhecer erros e equívocos é o primeiro passo para buscar soluções. A Rio+20 teve o mérito de mostrar que se conseguiu sensibilizar os países no sentido de encontrar saídas para grande parte dos problemas da agenda da cúpula. Apararam-se arestas e suprimiram-se pontos de atrito para se elaborar um texto que consagra um conjunto de boas intenções. A desaprovação há de ter ficado restrita ao âmbito dos segmentos internacionais que esperavam, ao fim da conferência, estabelecer compromissos imediatos e resolver, por atos concretos, de resto quase sempre descoladas da realidade, os problemas do mundo. É fundamental avaliar o resultado da Rio+ 20, cujo nome remete a uma revisão e análise do legado da Rio 92, também à luz da conjuntura atual. Teria sido irreal, por exemplo, aprovar a constituição de um fundo internacional, sustentado pelas economias mais fortes do planeta, quando o mundo está às voltas com gravíssima crise. Também não pode deixar de ser visto como positivo o saldo de um encontro que se comprometeu com a manutenção de políticas para erradicar a fome, que manterá os países mobilizados na discussão de temas como sustentabilidade e saúde do planeta, e que consagrou o vigor do C40, o grupo que reúne 59 das maiores cidades do mundo em busca de soluções globais e regionais para melhorar a qualidade de vida de seus habitantes. O futuro que não queremos, opinião de Marcos Arruda, economista, educador e associado do Instituto Transnacional. Duas clivagens dividem hoje a humanidade: entre a classe dos donos do capital e as classes que só possuem sua força de trabalho; e entre o bloco dos que professam a fé na acumulação ilimitada de riqueza material, ignorando que os recursos do planeta são finitos, e o bloco dos que já praticam uma socioeconomia fundada na sobriedade feliz, conscientes de que podemos ser felizes consumindo menos bens materiais e vivendo em solidária harmonia entre humanos e com os outros seres da Terra. Apesar dos compromissos voluntários assumidos pelas elites nas Cúpulas oficiais (Rio92 e Rio+20), os indicadores de "desenvolvimento sustentável" dos últimos 20 anos são estarrecedores: PIB global, +75%; emissões de carbono,+36%; degelo da banquisa do Ártico, +35%; ritmo anual de degelo das geleiras, +100%; população mundial, +26%; produção de alimentos, +45%; 1/3 deste total (1,3 bilhões de toneladas) é desperdiçado; desnutridos: mais de 1 bilhão, obesos: mais de 1 bilhão; agricultura usa 70% da água consumida; crescente desigualdade de renda como fator de geração de pobreza: renda mundial detida pelos 20% mais ricos passou de 82,7% para 91,5%; a fração dos 20% mais pobres caiu 20 vezes, de 1,4% para 0,07%; crescente desigualdade de expectativa de vida: para os 20% mais ricos, de 77 para 79 anos; para os 20% mais pobres, de 46 para 44 anos de vida (PNUD). Estes indicadores comprovam o fracasso do "Desenvolvimento Sustentável". Mas a avaliação dos resultados de 20 anos de tratados internacionais sobre pobreza, clima, gênero, biodiversidade, desmatamento e desertificação, água, emissões de gases-estufa, acidificação dos oceanos, degelo das calotas e geleiras foi retirada da agenda da Rio+20. Por que? "Não devemos olhar para trás. É tempo de construir o futuro." Para disfarçar esse fracasso as grandes empresas lançaram a Economia Verde, não só para evitar a avaliação dos 20 anos de promessas vazias, mas para pintar de verde a economia 'de mercado', apresentada como 'o novo caminho' de salvação da vida e do planeta. Soluções efetivas além da retórica estão ausentes no documento oficial, O Futuro que Queremos. A Declaração da Cúpula dos Povos na Rio+20 é incisiva: "As instituições financeiras multilaterais, as coalizões a serviço do sistema financeiro, como o G8/G20, a captura corporativa da ONU e a maioria dos governos demonstraram irresponsabilidade com o futuro da humanidade e do planeta e promoveram os interesses das corporações na conferência oficial. Em contraste, a vitalidade e a força das mobilizações e dos debates na Cúpula dos Povos fortaleceram a nossa convicção de que só o povo organizado e mobilizado pode libertar o mundo do controle das corporações e do capital financeiro." As elites globais presentes na Cúpula oficial identificam o "desenvolvimento sustentável" com "o crescimento econômico sustentado". No mundo atual, quase 90% do consumo global é atribuído aos 20% mais ricos. Sem reduzir este consumo excessivo e planejar o crescimento econômico em prol dos necessitados não há solução para a crise social e ambiental. Sem compartilhar a riqueza, o saber e o poder a humanidade não sobreviverá. Só uma nova consciência e um novo paradigma de desenvolvimento podem responder a este desafio. * A equipe do Jornal da Ciência esclarece que o conteúdo e opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do jornal.