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Mineração: até 2015, setor deve abrir 150 mil postos
02/04/2012
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=81815
Técnicos em mineração, geólogos e engenheiros de minas são os profissionais mais procurados no mercado.
Desde 2005, o produto que o Brasil mais exporta é o
minério de ferro. Os números do mercado são todos da ordem do bilhão:
nos dois primeiros meses deste ano, o País exportou US$ 4 bilhões; até
2015, devem ser investidos no setor US$ 68,5 bilhões; a Vale foi a
empresa latino-americana que teve o maior lucro em 2011 (US$ 20
bilhões). E por aí vai.
Para saciar a sede por minério, principalmente da China, empresas
brasileiras precisam contratar mais profissionais. A Rhio's, consultoria
de RH especializada nesse campo, estima que o setor deve abrir 150 mil
postos até 2015.
Só em 2012, a Vale planeja preencher 6.600 novas vagas. De acordo com
Carla Gama, diretora de educação da mineradora, o plano de contratações
para os próximos anos "não será um desafio menor".
Mesmo com a flutuação recente do preço do minério de ferro, a demanda
por trabalhadores já é maior do que a oferta. Elmer Salomão, dono da
consultoria Geos, que faz estudos sobre o segmento, resume: "Falta gente
com experiência no mercado. Sem experiência falta também".
Treinamento - Os profissionais mais procurados são
geólogos, engenheiros de minas e técnicos. Eles exercem atividades como
estudar os minérios, trabalhar na extração e apoiar as operações.
Segundo Denise Retamal, diretora-executiva da Rhio's, além da carência
de profissionais, os que existem precisam passar por cursos de
especialização nas empresas.
Foi o que aconteceu com Pedro Crispim, 24. Logo após se formar em
engenharia de minas pela Universidade Federal de Ouro Preto (MG), ele
fez um curso de três meses na Vale, onde estudou o minério "da
descoberta até a venda do produto".
Todos os 40 alunos que participaram desse curso, em 2011, foram
contratados. Crispim hoje trabalha com operação de minas em Itabira (a
106 km de Belo Horizonte). "Além de treinar, as empresas estão buscando
profissionais em outros países, principalmente nos que têm indústria de
extração, como o Chile", diz Retamal.
Salário de iniciante é de R$ 7.000 - Como todo
produto que se torna escasso, a mão de obra de profissionais da área de
mineração subiu de preço. Segundo informações de consultorias
especializadas no setor de mineração, o salário médio de um geólogo
júnior, formado há dois anos, é de aproximadamente R$ 7.000. Um pleno
(com cinco anos de mercado) recebe cerca de R$ 12 mil.
Os números para engenheiros de minas também funcionam como atrativo.
Um técnico na área ganha, em média, R$ 4.000. Ao graduar-se, o geólogo
Rafael Beruski, 24, pôde escolher uma entre três empresas interessadas
nele.
Depois de analisar remuneração e benefícios de cada uma das
companhias, optou pela multinacional AngloGold Ashanti. Ele trocou
Curitiba por Sabará (a 21 quilômetros de Belo Horizonte), onde
atualmente trabalha em uma mina de ouro - um tipo de commodity na qual
ele queria ter experiência. Ouro é o segundo minério mais importante
para as exportações do Brasil, atrás - bem atrás - do ferro.
Solidão - "O único aspecto negativo [da carreira] é
ter de ficar longe da família. Minha profissão exige que eu vá atrás do
minério", diz Beruski. Ele conta que vê os parentes a cada dois meses.
Beruski trabalha em uma mina subterrânea e precisa ter precauções ao
descer - o solo apresenta superfície irregular e há pedras que podem
cair, por exemplo. Devido ao ruído, à temperatura e à vibração a que
estão sujeitos os profissionais, todas as atividades de extração mineral
têm grau 4 de risco, o mais alto da Classificação Nacional de
Atividades Econômicas (CNAE).
Rogério José Guimarães Pinheiro, coordenador de segurança da
mineradora Codelco, explica que há riscos químicos, especialmente por
causa da poeira levantada nas minas. O grau de risco de uma atividade é
classificado de acordo com o tempo de exposição a esses fatores.
Ciclos - Como todo recurso natural é finito, e a
natureza desse setor, flutuante, o bom momento da mineração não deve
durar para sempre. O consultor Carlos Horádio Bertoni, 60, formado em
geologia em 1974, diz ter testemunhado muitos altos e baixos na
profissão. "Tratando-se de commodities, é natural que existam esses
ciclos", afirma.
Nos últimos seis meses, o preço do minério de ferro variou bastante.
De um pico de US$ 180 por tonelada, caiu para US$ 110 e atualmente está
na faixa de US$ 147. É impossível prever com exatidão como o mercado
estará em quatro anos, e quem entra na universidade em um bom momento
pode graduar-se em fase de baixa.
Da turma de 20 formados na Universidade de Brasília (UnB), apenas
seis ex-colegas de Bertoni ainda trabalham como geólogos - ele mesmo
teve de morar fora do Brasil durante 12 anos. Entre 1980 e 1992, ele
passou por Canadá, Guiana, Guiana Francesa e Suriname, porque o mercado
nacional vivia um período muito ruim.
A procura pelo curso de geologia na Universidade de São Paulo (USP)
aumentou 92% em cinco anos. Atualmente, são oferecidas 50 vagas. No
Brasil, 414 pessoas concluíram a graduação na área em 2010, mostram
dados do último censo universitário disponível do Instituto Nacional de
Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).
O número não é suficiente para atender à demanda, argumenta Marcelo
Ribeiro Tumes, diretor de assuntos minerários do Instituto Brasileiro de
Mineração (Ibram). Especialmente porque a extração mineral não é a
única opção dos geólogos.
Também há vagas em grandes obras de infraestrutura (principalmente em
barragens) e em prevenção de quedas de encostas, enumera Ideval Souza
Costa, 48, do Museu de Geociências da USP.
A turma de 33 alunos da Universidade Federal do Paraná, da qual
Rafael Beruski, 24, fez parte até o fim de 2010, está toda empregada e
ninguém teve que procurar outra ocupação, segundo ele.
Mulheres nas minas - "A maior carência do setor é de
engenheiros de minas", afirma Tumes. Em 2010, 218 pessoas concluíram o
curso no País inteiro. A expectativa é que esse número cresça nos
próximos anos, diz Carlos Alberto Pereira, professor e presidente do
colegiado do curso de engenharia de minas da Ufop (Universidade Federal
de Ouro Preto, em Minas Gerais). Na própria faculdade em que ele
trabalha há um esforço para ampliar a quantidade de formados em 50% (de
40 para 60 estudantes).
Segundo Pereira, a porcentagem de mulheres matriculadas vem
aumentando. "Na minha turma, que acabou o curso há 17 anos, era uma para
30 homens", contabiliza. Hoje, as mulheres ainda são minoria: do total
de 360 alunos, 82 são do sexo feminino, o equivalente a 23%.
Uma delas é Marina de Menezes Lopes, 24. O interesse pela carreira
surgiu durante uma visita a uma mina com a turma do colégio. Os riscos
de trabalho em extração mineral não a preocupam, pois "as empresas são
grandes e muito preparadas para responder às questões de segurança".
(Folha de São Paulo - 1/4)
Desde 2005, o produto que o Brasil mais exporta é o
minério de ferro. Os números do mercado são todos da ordem do bilhão:
nos dois primeiros meses deste ano, o País exportou US$ 4 bilhões; até
2015, devem ser investidos no setor US$ 68,5 bilhões; a Vale foi a
empresa latino-americana que teve o maior lucro em 2011 (US$ 20
bilhões). E por aí vai.
Para saciar a sede por minério, principalmente da China, empresas
brasileiras precisam contratar mais profissionais. A Rhio's, consultoria
de RH especializada nesse campo, estima que o setor deve abrir 150 mil
postos até 2015.
Só em 2012, a Vale planeja preencher 6.600 novas vagas. De acordo com
Carla Gama, diretora de educação da mineradora, o plano de contratações
para os próximos anos "não será um desafio menor".
Mesmo com a flutuação recente do preço do minério de ferro, a demanda
por trabalhadores já é maior do que a oferta. Elmer Salomão, dono da
consultoria Geos, que faz estudos sobre o segmento, resume: "Falta gente
com experiência no mercado. Sem experiência falta também".
Treinamento - Os profissionais mais procurados são
geólogos, engenheiros de minas e técnicos. Eles exercem atividades como
estudar os minérios, trabalhar na extração e apoiar as operações.
Segundo Denise Retamal, diretora-executiva da Rhio's, além da carência
de profissionais, os que existem precisam passar por cursos de
especialização nas empresas.
Foi o que aconteceu com Pedro Crispim, 24. Logo após se formar em
engenharia de minas pela Universidade Federal de Ouro Preto (MG), ele
fez um curso de três meses na Vale, onde estudou o minério "da
descoberta até a venda do produto".
Todos os 40 alunos que participaram desse curso, em 2011, foram
contratados. Crispim hoje trabalha com operação de minas em Itabira (a
106 km de Belo Horizonte). "Além de treinar, as empresas estão buscando
profissionais em outros países, principalmente nos que têm indústria de
extração, como o Chile", diz Retamal.
Salário de iniciante é de R$ 7.000 - Como todo
produto que se torna escasso, a mão de obra de profissionais da área de
mineração subiu de preço. Segundo informações de consultorias
especializadas no setor de mineração, o salário médio de um geólogo
júnior, formado há dois anos, é de aproximadamente R$ 7.000. Um pleno
(com cinco anos de mercado) recebe cerca de R$ 12 mil.
Os números para engenheiros de minas também funcionam como atrativo.
Um técnico na área ganha, em média, R$ 4.000. Ao graduar-se, o geólogo
Rafael Beruski, 24, pôde escolher uma entre três empresas interessadas
nele.
Depois de analisar remuneração e benefícios de cada uma das
companhias, optou pela multinacional AngloGold Ashanti. Ele trocou
Curitiba por Sabará (a 21 quilômetros de Belo Horizonte), onde
atualmente trabalha em uma mina de ouro - um tipo de commodity na qual
ele queria ter experiência. Ouro é o segundo minério mais importante
para as exportações do Brasil, atrás - bem atrás - do ferro.
Solidão - "O único aspecto negativo [da carreira] é
ter de ficar longe da família. Minha profissão exige que eu vá atrás do
minério", diz Beruski. Ele conta que vê os parentes a cada dois meses.
Beruski trabalha em uma mina subterrânea e precisa ter precauções ao
descer - o solo apresenta superfície irregular e há pedras que podem
cair, por exemplo. Devido ao ruído, à temperatura e à vibração a que
estão sujeitos os profissionais, todas as atividades de extração mineral
têm grau 4 de risco, o mais alto da Classificação Nacional de
Atividades Econômicas (CNAE).
Rogério José Guimarães Pinheiro, coordenador de segurança da
mineradora Codelco, explica que há riscos químicos, especialmente por
causa da poeira levantada nas minas. O grau de risco de uma atividade é
classificado de acordo com o tempo de exposição a esses fatores.
Ciclos - Como todo recurso natural é finito, e a
natureza desse setor, flutuante, o bom momento da mineração não deve
durar para sempre. O consultor Carlos Horádio Bertoni, 60, formado em
geologia em 1974, diz ter testemunhado muitos altos e baixos na
profissão. "Tratando-se de commodities, é natural que existam esses
ciclos", afirma.
Nos últimos seis meses, o preço do minério de ferro variou bastante.
De um pico de US$ 180 por tonelada, caiu para US$ 110 e atualmente está
na faixa de US$ 147. É impossível prever com exatidão como o mercado
estará em quatro anos, e quem entra na universidade em um bom momento
pode graduar-se em fase de baixa.
Da turma de 20 formados na Universidade de Brasília (UnB), apenas
seis ex-colegas de Bertoni ainda trabalham como geólogos - ele mesmo
teve de morar fora do Brasil durante 12 anos. Entre 1980 e 1992, ele
passou por Canadá, Guiana, Guiana Francesa e Suriname, porque o mercado
nacional vivia um período muito ruim.
A procura pelo curso de geologia na Universidade de São Paulo (USP)
aumentou 92% em cinco anos. Atualmente, são oferecidas 50 vagas. No
Brasil, 414 pessoas concluíram a graduação na área em 2010, mostram
dados do último censo universitário disponível do Instituto Nacional de
Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).
O número não é suficiente para atender à demanda, argumenta Marcelo
Ribeiro Tumes, diretor de assuntos minerários do Instituto Brasileiro de
Mineração (Ibram). Especialmente porque a extração mineral não é a
única opção dos geólogos.
Também há vagas em grandes obras de infraestrutura (principalmente em
barragens) e em prevenção de quedas de encostas, enumera Ideval Souza
Costa, 48, do Museu de Geociências da USP.
A turma de 33 alunos da Universidade Federal do Paraná, da qual
Rafael Beruski, 24, fez parte até o fim de 2010, está toda empregada e
ninguém teve que procurar outra ocupação, segundo ele.
Mulheres nas minas - "A maior carência do setor é de
engenheiros de minas", afirma Tumes. Em 2010, 218 pessoas concluíram o
curso no País inteiro. A expectativa é que esse número cresça nos
próximos anos, diz Carlos Alberto Pereira, professor e presidente do
colegiado do curso de engenharia de minas da Ufop (Universidade Federal
de Ouro Preto, em Minas Gerais). Na própria faculdade em que ele
trabalha há um esforço para ampliar a quantidade de formados em 50% (de
40 para 60 estudantes).
Segundo Pereira, a porcentagem de mulheres matriculadas vem
aumentando. "Na minha turma, que acabou o curso há 17 anos, era uma para
30 homens", contabiliza. Hoje, as mulheres ainda são minoria: do total
de 360 alunos, 82 são do sexo feminino, o equivalente a 23%.
Uma delas é Marina de Menezes Lopes, 24. O interesse pela carreira
surgiu durante uma visita a uma mina com a turma do colégio. Os riscos
de trabalho em extração mineral não a preocupam, pois "as empresas são
grandes e muito preparadas para responder às questões de segurança".
(Folha de São Paulo - 1/4)