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Longe do dia seguinte

14/03/2012 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=81531
Editorial da Folha de São Paulo de hoje (13).
Enquanto se finge discutir a questão do aborto no
País, alternativas anticoncepcionais simples, baratas e menos
traumáticas são cotidianamente subutilizadas. É o caso da pílula do dia
seguinte. Foi o que mostrou reportagem desta Folha no domingo (11). De
acordo com uma política iniciada há quase dez anos, o medicamento seria,
em tese, distribuído gratuitamente à população. Na prática, as
dificuldades se multiplicam e assumem aspectos quase surreais.
 
Como é necessário apresentar receita médica para receber o
contraceptivo, as pacientes do sistema público precisam marcar consulta
com um ginecologista, o qual, em certos postos de saúde, só tem horário
disponível para dali a dois meses. Como o próprio nome sugere, a pílula
deve ser tomada logo após o ato sexual para ter eficácia (prazo máximo
de 72 horas).
 
Ainda mais absurda é a praxe, comum em alguns postos de atendimento,
de exigir a presença de pais ou responsáveis quando a paciente é menor
de idade. Evidentemente, muitas adolescentes grávidas prefeririam o
sigilo. Faltam medicamentos, como constatou a reportagem, em postos
municipais da Grande São Paulo. Faltam médicos que os prescrevam. Faltam
informações sobre seu uso.
 
O resultado, especialmente entre os pobres (a pílula pode ser
adquirida sem problemas nas farmácias particulares), é o agravamento de
um problema de saúde pública, hoje apontado como quinto maior fator de
mortalidade materna no País: o dos abortos clandestinos.
 
Para o cúmulo da hipocrisia, é comum ver candidatos a cargos eletivos
tentando tirar votos de adversários com a sugestão de que são "a favor
do aborto" por defender medidas como a pílula do dia seguinte. A
resposta dos acusados, no temor de desagradar a conservadores
organizados, é em geral vaga.
 
Ocorre que, do ponto de vista de algumas religiões - que cumpre
respeitar individualmente, mas que não deve servir de base para
políticas públicas -, a pílula do dia seguinte é tão condenável quanto o
aborto. Autoridades de saúde tiveram o bom-senso, contudo, de admitir
esse recurso na rede oficial.
 
O que grupos contrários ao aborto não conseguiram impor, entretanto,
conseguem os adversários habituais de um serviço de saúde de qualidade: a
burocracia, a falta de recursos e a indiferença pelas necessidades da
população.
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