Voltar para Notícias
Pelo em ovo, artigo de Xico Graziano
07/03/2012
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=81430
Xico
Graziano é agrônomo e foi secretário do Meio Ambiente do estado de São
Paulo. Artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo de hoje (6).
O Código Florestal entrou novamente em votação na
Câmara dos Deputados. Deve ocorrer a batalha final entre a agricultura
sustentável e seus inimigos: o preservacionismo verde e o ruralismo
atrasado. Veremos quem vencerá.
Parece exagero, mas não é. Desde o início tenho defendido a ideia de
que a nova legislação florestal somente seria aprovada com a derrota dos
fundamentalistas. Quem convive com esse assunto sabe que duas posições
radicais se digladiam: de um lado, os ruralistas tacanhos, de outro, os
ambientalistas puros. Ambos utilizam argumentos exagerados, sectários,
para defender suas teses.
Os primeiros nunca engoliram os conceitos de reserva legal (RL) e de
área de preservação permanente (APP), armando-se para aniquilá-los.
Esses ruralistas pretendem continuar abrindo fronteiras como
antigamente, derrubando impiedosamente as florestas em nome do progresso
socioeconômico. Não aceitam que se limite o uso da propriedade e exigem
que o Estado os indenize, em dinheiro, pelas áreas ambientalmente
impedidas dentro das fazendas.
Os segundos querem fazer regredir áreas agrícolas ocupadas
historicamente. Esses ecologistas afirmam que inexiste direito adquirido
em matéria ambiental, querendo criminalizar os agricultores pelo
desmatamento realizado antanho. Consideram que o uso produtivo dos
brejos e das beiradas de córregos, das áreas inclinadas nas montanhas,
dos topos de morro constituem um "passivo ambiental" a ser resgatado
pelos produtores rurais.
Intolerâncias caracterizam os dois lados. Os ruralistas radicais
enxergam os verdes articulados com ONGs dos países desenvolvidos,
interessados em manter a supremacia no agronegócio mundial. "Por que
esses verdolengos não vão lá fora exigir a recuperação da biodiversidade
nos pântanos europeus, ou nas pradarias do Meio Oeste
norte-americano?", perguntam provocativamente.
Os ecologistas radicais mostram ojeriza ao ouvir o discurso em defesa
da produção rural. Julgam os agricultores sempre portadores de má-fé,
com a inata malandragem de depredar a natureza. "Por que os fazendeiros
insistem em cultivar soja e abrir pastagens, com tanta boiada aumentando
o efeito estufa da Terra?", questionam insistentemente.
Exageros são comuns. Os produtores rurais irão à falência com essa
proposta de lei ambiental e faltará comida na cidade, dizem uns. Vai
aumentar o desmatamento e vão piorar os desastres ecológicos, contrapõem
outros. Curioso, e sintomático nesse debate, é perceber que ambos,
embora ferrenhos adversários, criticam o mesmo texto, qual seja, a
última versão do Código Florestal aprovada pelo Senado. Amor e ódio,
como se sabe, se aproximam.
Nos últimos três anos a sociedade esteve sujeita à discussão
polarizada, e estéril, travada entre os radicais, sejam ruralistas,
sejam ambientalistas. A polêmica não esclareceu, ao contrário, confundiu
a opinião pública. O antagonismo criado tolheu a participação no debate
de quem oferecia moderação, conciliação de pensamento. As claques
valorizam o golpe na jugular, jamais o afago condescendente.
A despeito, porém, da gritaria dos donos da verdade, realizou-se no
Senado uma produtiva concentração sobre a matéria. Para o acordo de
votação convergiram 57 senadores, restando sete contrários. O texto
aprovado, agora retornado à Câmara, não representa o ideal, mas enseja o
possível. Esverdeou o projeto inicial sem agredir a produção no campo.
A versão sobre a mesa permite sair da problemática, entrando na
"solucionática". A nova proposta do Código Florestal amenizou a carga
contra os recentes desmatadores, trocando suas multas pela recuperação
ambiental das áreas degradadas. Trocou o incerto pelo resultado
positivo. Criou uma regra boa ao empurrar todos os produtores para o
novidadeiro Cadastro Ambiental Rural. Agenda positiva.
Pela primeira vez, ademais, a legislação trata da recuperação de
áreas degradadas, e não apenas da supressão vegetal. A boa prática
agrícola será valorizada e a mata virgem começa a receber valor no
mercado. Além dos clássicos, e repressivos, mecanismos de comando e
controle, finalmente a legislação florestal pensa em remunerar os
agricultores pelo serviço ambiental que podem prestar à sociedade. Isso é
sensacional.
Mas não pensam assim os radicais. Procuram pelo em ovo. Utilizam-se
de arrazoados cujas suposições se assemelham àquelas capazes de derrubar
grandes aviões, ou seja, se todas as combinações negativas ocorrerem ao
mesmo tempo, haverá uma catástrofe. Apostam no pior.
Os arautos do preservacionismo verde preferem salvar a biodiversidade
do planeta a investir na civilização humana. Predicam contra a
História. Já os paladinos do ruralismo atrasado querem que se dane a
ecologia. Pregam o inaceitável. Uns travestem a luta ambiental de
messianismo religioso, como se enviados do céu para salvar os pobres
mortais da barbárie ecológica. Outros, os reacionários do campo, se
disfarçam de redentores dos povos famintos, para lhes dar uma banana.
Desculpem-me o depoimento pessoal. Há 30 anos lancei meu primeiro
livro, Questão Agrária e Ecologia (Editora Brasiliense). Em São Paulo,
fui secretário de Agricultura de Mário Covas e secretário de Meio
Ambiente de José Serra. Navego, há tempos, com um pé em cada canoa,
subordinado à ideia do agroambientalismo, movimento que une, e não
separa, a produção rural e a preservação ambiental.
Somente uma aliança entre a produção rural e o meio ambiente será
capaz de resolver o terrível dilema da humanidade: garantir a segurança
alimentar sem destruir a natureza. Os radicais apostam no contrário,
fomentam a desavença. Dá até bom discurso, mas não projeta o futuro.
Graziano é agrônomo e foi secretário do Meio Ambiente do estado de São
Paulo. Artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo de hoje (6).
O Código Florestal entrou novamente em votação na
Câmara dos Deputados. Deve ocorrer a batalha final entre a agricultura
sustentável e seus inimigos: o preservacionismo verde e o ruralismo
atrasado. Veremos quem vencerá.
Parece exagero, mas não é. Desde o início tenho defendido a ideia de
que a nova legislação florestal somente seria aprovada com a derrota dos
fundamentalistas. Quem convive com esse assunto sabe que duas posições
radicais se digladiam: de um lado, os ruralistas tacanhos, de outro, os
ambientalistas puros. Ambos utilizam argumentos exagerados, sectários,
para defender suas teses.
Os primeiros nunca engoliram os conceitos de reserva legal (RL) e de
área de preservação permanente (APP), armando-se para aniquilá-los.
Esses ruralistas pretendem continuar abrindo fronteiras como
antigamente, derrubando impiedosamente as florestas em nome do progresso
socioeconômico. Não aceitam que se limite o uso da propriedade e exigem
que o Estado os indenize, em dinheiro, pelas áreas ambientalmente
impedidas dentro das fazendas.
Os segundos querem fazer regredir áreas agrícolas ocupadas
historicamente. Esses ecologistas afirmam que inexiste direito adquirido
em matéria ambiental, querendo criminalizar os agricultores pelo
desmatamento realizado antanho. Consideram que o uso produtivo dos
brejos e das beiradas de córregos, das áreas inclinadas nas montanhas,
dos topos de morro constituem um "passivo ambiental" a ser resgatado
pelos produtores rurais.
Intolerâncias caracterizam os dois lados. Os ruralistas radicais
enxergam os verdes articulados com ONGs dos países desenvolvidos,
interessados em manter a supremacia no agronegócio mundial. "Por que
esses verdolengos não vão lá fora exigir a recuperação da biodiversidade
nos pântanos europeus, ou nas pradarias do Meio Oeste
norte-americano?", perguntam provocativamente.
Os ecologistas radicais mostram ojeriza ao ouvir o discurso em defesa
da produção rural. Julgam os agricultores sempre portadores de má-fé,
com a inata malandragem de depredar a natureza. "Por que os fazendeiros
insistem em cultivar soja e abrir pastagens, com tanta boiada aumentando
o efeito estufa da Terra?", questionam insistentemente.
Exageros são comuns. Os produtores rurais irão à falência com essa
proposta de lei ambiental e faltará comida na cidade, dizem uns. Vai
aumentar o desmatamento e vão piorar os desastres ecológicos, contrapõem
outros. Curioso, e sintomático nesse debate, é perceber que ambos,
embora ferrenhos adversários, criticam o mesmo texto, qual seja, a
última versão do Código Florestal aprovada pelo Senado. Amor e ódio,
como se sabe, se aproximam.
Nos últimos três anos a sociedade esteve sujeita à discussão
polarizada, e estéril, travada entre os radicais, sejam ruralistas,
sejam ambientalistas. A polêmica não esclareceu, ao contrário, confundiu
a opinião pública. O antagonismo criado tolheu a participação no debate
de quem oferecia moderação, conciliação de pensamento. As claques
valorizam o golpe na jugular, jamais o afago condescendente.
A despeito, porém, da gritaria dos donos da verdade, realizou-se no
Senado uma produtiva concentração sobre a matéria. Para o acordo de
votação convergiram 57 senadores, restando sete contrários. O texto
aprovado, agora retornado à Câmara, não representa o ideal, mas enseja o
possível. Esverdeou o projeto inicial sem agredir a produção no campo.
A versão sobre a mesa permite sair da problemática, entrando na
"solucionática". A nova proposta do Código Florestal amenizou a carga
contra os recentes desmatadores, trocando suas multas pela recuperação
ambiental das áreas degradadas. Trocou o incerto pelo resultado
positivo. Criou uma regra boa ao empurrar todos os produtores para o
novidadeiro Cadastro Ambiental Rural. Agenda positiva.
Pela primeira vez, ademais, a legislação trata da recuperação de
áreas degradadas, e não apenas da supressão vegetal. A boa prática
agrícola será valorizada e a mata virgem começa a receber valor no
mercado. Além dos clássicos, e repressivos, mecanismos de comando e
controle, finalmente a legislação florestal pensa em remunerar os
agricultores pelo serviço ambiental que podem prestar à sociedade. Isso é
sensacional.
Mas não pensam assim os radicais. Procuram pelo em ovo. Utilizam-se
de arrazoados cujas suposições se assemelham àquelas capazes de derrubar
grandes aviões, ou seja, se todas as combinações negativas ocorrerem ao
mesmo tempo, haverá uma catástrofe. Apostam no pior.
Os arautos do preservacionismo verde preferem salvar a biodiversidade
do planeta a investir na civilização humana. Predicam contra a
História. Já os paladinos do ruralismo atrasado querem que se dane a
ecologia. Pregam o inaceitável. Uns travestem a luta ambiental de
messianismo religioso, como se enviados do céu para salvar os pobres
mortais da barbárie ecológica. Outros, os reacionários do campo, se
disfarçam de redentores dos povos famintos, para lhes dar uma banana.
Desculpem-me o depoimento pessoal. Há 30 anos lancei meu primeiro
livro, Questão Agrária e Ecologia (Editora Brasiliense). Em São Paulo,
fui secretário de Agricultura de Mário Covas e secretário de Meio
Ambiente de José Serra. Navego, há tempos, com um pé em cada canoa,
subordinado à ideia do agroambientalismo, movimento que une, e não
separa, a produção rural e a preservação ambiental.
Somente uma aliança entre a produção rural e o meio ambiente será
capaz de resolver o terrível dilema da humanidade: garantir a segurança
alimentar sem destruir a natureza. Os radicais apostam no contrário,
fomentam a desavença. Dá até bom discurso, mas não projeta o futuro.