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Na base do pinga-pinga
06/03/2012
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=81410
Governo
promete manter o Programa Antártico Brasileiro, mas faz estimativas
conflitantes sobre a reconstrução da Estação Comandante Ferraz. Raupp,
ministro de Ciência e Tecnologia, afirma que a obra deve levar um ano.
Amorim previu o dobro de tempo.
Perto de se aposentar, Ennio Candotti achou que
tinha 18 anos e foi para a Amazônia. Depois descobriu que não tinha isso
exatamente. Mas aí já havia conhecido o fantástico mundo dos
micro-organismos da floresta, que trabalham na surdina, e se deixou
ficar. Hoje é coordenador do Museu da Amazônia, na mata aberta, que
ocupa 100 hectares da Reserva Adolfo Ducke, área de terra firme em
Manaus e há mais de 30 anos estudada por cientistas.
Sendo um deles, e dos mais atuantes - físico formado na USP, quatro
vezes presidente da SBPC e o atual vice, professor da Universidade
Federal do Espírito Santo, um dos criadores da revista Ciência Hoje e da
argentina Ciencia Hoy e agraciado com o Prêmio Kalinga, concedido pela
Unesco -, sente-se à vontade para falar dos percalços da ciência no
País, abalada nessa semana por um incêndio na Estação Antártica
Comandante Ferraz. O fogo derreteu 70% das instalações da base e deixou
dois militares mortos e outro ferido. A hipótese é de pane elétrica no
gerador, mas logo se levantou o pavio da falta de investimento nas
pesquisas nacionais.
O orçamento do programa brasileiro na Antártida previa destinação de
R$ 18,3 milhões em 2011, e só R$ 9,2 milhões foram de fato executados.
Lembrou-se ainda de acidentes anteriores, como aquele no Centro de
Lançamento de Alcântara, em 2003, também um casamento com as Forças
Armadas, e muita gente chorou a perda de pesquisas de uma vida toda,
como no incêndio que dizimou grande parte do acervo do Instituto
Butantan, em 2010.
Numa sala no último andar do Instituto Socioambiental, em São Paulo,
onde apertava os nós de uma parceria para uma exposição sobre aparelhos
de pesca, Candotti falou ao caderno 'Aliás' dos tais percalços da
ciência no Brasil. "Muitas vezes se trabalha por soluços, uma época com
recursos, uma época sem, e o fluxo contínuo custa a ser explicado às
burocracias", diz. O físico também tratou da nossa escassez de patentes
("falta de horizonte da política industrial"), das intransigências do
Ibama ("o pesquisador é visto como devastador") e da necessidade de
importar cérebros ("100 mil não seria um número exagerado"). Não seria?
No ligeiro sotaque que lhe sobrou das origens, o ítalo-brasileiro Ennio
Candotti diz que não. Sicuramente no.
Há alguma coincidência entre a explosão em Alcântara em 2003,
o incêndio no Instituto Butantan em 2010 e a destruição de grande parte
da Comandante Ferraz? Os três seriam consequência da falta de
investimentos nesses centros de pesquisa?
Eu não associaria diretamente esses acidentes à falta de recursos.
Acompanhei o que ocorreu em Alcântara e as razões eram muito mais
estruturais e relacionadas ao modo como se organizavam os cuidados com a
segurança, por exemplo. A explosão poderia ter acontecido mesmo se
houvesse muitos recursos à disposição. No caso da Antártica, havia
também regras de segurança específicas, que podem não ter sido
devidamente obedecidas, ou a manutenção dos equipamentos pode não ter
sido feita.
Mas a base recebeu muitas críticas por sua estrutura em
módulos próximos, em que os geradores dividiam quase o mesmo espaço com
laboratórios, biblioteca, alojamentos. Não faltou investimento em
modernização?
Fazer ciência entre nós é uma batalha diária. Não basta dizer: "Temos
de fazer uma boa ciência na Antártica" para que isso aconteça. É uma
conquista passo a passo, ainda mais dentro das Forças Armadas. Se o
Ministério da Ciência e Tecnologia já é burocrático, as Forças Armadas
são ao quadrado. O ministro por vezes consegue, com um grito,
ultrapassar as resistências. Nas Forças Armadas, nenhum grito ultrapassa
as continências. Além disso, um militar, entre investir em ciência e
investir em mais corvetas, ele investe em mais corvetas. Entre a base da
Antártica e comprar dois novos navios de proteção das fronteiras,
compra os dois navios. A atividade de pesquisa é uma atividade nobre,
mas não é considerada essencial.
A próxima base brasileira na Antártida será desenhada por civis, e não mais construída como se fosse uma instalação militar.
É isso mesmo. Se os militares querem a colaboração com os cientistas,
essa colaboração não é apenas como usuários da infraestrutura.
Precisamos desenhar essa infraestrutura juntos, precisamos desenhar os
veículos espaciais juntos, precisamos pensar de comum acordo os
projetos. Isso vale para os navios oceanográficos também. De vez em
quando acontecem esses lamentáveis incidentes e todo mundo acorda.
Agora, a atividade científica é perigosa e suscetível a isso. É perigosa
com muitos recursos, imagine com recursos escassos.
Lamentou-se a perda de dados na Antártica, que alguns
afirmaram ser irrecuperável. Foi a mesma observação feita por
pesquisadores do Butantan na época do incêndio. Como dimensionar o
prejuízo à pesquisa?
As coletas de material, as amostras, cada peça de uma pesquisa
científica tem história. Se você queima a biblioteca que explica essa
história, os dados são em grande parte perdidos. Mas há muito material
que foi coletado e publicado. A base é um laboratório avançado.
Precisaria saber direito o que ainda não tinha sido analisado e
transformado em material compartilhado. Pode ser a coleta do último ano,
dos últimos seis meses... Não é um museu de história natural como o
Butantan, onde havia materiais que provavelmente estavam sendo
conservados há muitos anos. O Butantan é um acervo importante de
memória.
O setor privado investe muito pouco em pesquisa no Brasil, ao
contrário do que ocorre em países desenvolvidos, como os EUA. Setores
hipercapitalizados, como o da geração de açúcar e álcool, deveriam
continuar recebendo investimentos prioritários do setor público? Não
seria mais estratégico aplicar recursos públicos em novas descobertas,
como explorar a diversidade da Amazônia?
Não sei qual é a participação privada nos institutos que trabalham,
por exemplo, com a produção de álcool de segunda geração, na qual se
aproveita o bagaço. Sei que é alto o investimento público aí. Acho que o
sistema deveria crescer e ter uma coisa e outra. Investimentos privados
vão aumentar à medida que se tiver sucesso na implantação de
laboratórios básicos para a etapa aplicada. Mesmo os públicos ainda são
relativamente modestos perante o volume de interesse em jogo. São
dezenas de bilhões e nós estamos discutindo algumas centenas. O risco é
acreditar que investindo na busca de resultados industriais se consiga
aumento imediato desses resultados. Às vezes isso exige estudos básicos,
diversificação de pesquisas, laboratórios que aparentemente não têm
grande significado.
Pouquíssimos resultados de nossas pesquisas são convertidos em patentes. Como isso pode ser revertido?
Veja, ainda temos um perfil de exportador de matérias-primas. A China
nos manda produtos elaborados e nós mandamos matérias-primas. Ela vem
fazendo isso nos últimos cinco, oito anos. Há dez anos, portanto, a
China não era exportadora de matérias elaboradas. Ou seja, em uma
década, o perfil da economia de um país pode mudar, mas isso exige
planejamento, esforço concentrado. Temos uma pauta de exportações em que
o valor agregado é ainda muito modesto. O fato de termos poucas
patentes reflete isso. Discutíamos isso 30, 20 anos atrás, no início da
industrialização da Coreia, e ainda não produzimos um carro nacional. A
Índia está fabricando um carro de US$ 2 mil, a China vende automóveis
muito baratos. Não saberíamos fazer coisa semelhante? Saberíamos, sim.
Talvez o fato de exportarmos grãos e minérios nos dê uma situação cômoda
de poder gerar riqueza sem investir muito em inteligência.
Acentua essa situação cômoda o fato de a população continuar comprando os carros ao preço que estão?
O grande desafio é atender essas faixas de população que estão
ascendendo ao mercado de consumo. Isso deveria ser acompanhado de uma
produção de tecnologias sociais. Não no sentido de tecnologias pobres,
mas de tecnologias voltadas às demandas desse novo interlocutor.
Produzir um carro muito barato deveria estar no horizonte da nossa
política industrial. Se nos dedicássemos, na tecnologia e na ciência, a
esse novo mundo de consumo daríamos uma revigorada no sistema de
tecnologias aplicadas e inovativas que, sem dúvida, traria uma vida
nova. E, com uma vida nova, as patentes. Mas não vejo que essas questões
possam ser resolvidas por apelos de "patenteiem mais". Queremos é mais
quadros técnicos. Apesar dos 10 mil doutores, uma fração pequena deles
participa do esforço produtivo. Não quero dizer que se deva formar menos
doutores nas áreas não produtivas. Apenas que se deve formar mais
doutores nas produtivas, aumentar, por exemplo, o número de médicos
dedicados à malária, produzir gente preocupada com doenças
negligenciadas.
Como o senhor vê a decisão do Conselho Nacional de Educação,
nesta semana, de invalidar a redução de vagas em cursos de medicina
considerados ruins pelo próprio MEC?
Os institutos universitários capazes de preparar com razoável
qualidade os jovens ainda são poucos. Precisamos de bons médicos, e nas
áreas mais complexas precisamos de mais médicos ainda. Na Amazônia é
dificílimo encontrar jovens que exercitem a profissão, mesmo com a
promessa de ganhar mais. Não é uma aventura, não é chegar numa
cidadezinha sem comunicação, sem transporte, sem apoio nenhum e fazer
milagres para salvar ou curar. Tem que se fazer um programa articulado.
Estamos longe disso. A Amazônia não está na pauta das políticas
nacionais de atendimento aos direitos da cidadania, especialmente nas
suas populações do interior.
Quais são os desafios de fazer ciência lá?
Primeiro, a Amazônia é vista pelo resto do Brasil como um depósito de
matérias-primas, um depósito de água que pode gerar energia, um grande
sorvedouro de carbono ou um enorme depósito de biodiversidade. Mas o
conhecimento da biodiversidade é objeto de políticas muito modestas,
incipientes e descontínuas. Para você ter uma ideia, qual e o maior
patrimônio da Amazônia? Sua microbiologia. São os micro-organismos que
transitam pela floresta que fazem dessa floresta a maravilha que é. Pois
existem apenas dois laboratórios de microbiologia em toda a Amazônia. O
centro de microbiologia da Amazônia, que deveria ter se dedicado nos
últimos dez anos ao desenvolvimento de pesquisas em biotecnologia e
produtos naturais, ainda não resolveu o seu estatuto jurídico. Isso é um
crime, mas típico de tudo o que acontece por ali. Estamos em uma
colônia do próprio Brasil, de onde se extrai muito mais do que se
coloca. Fazemos um esforço danado para formar as pessoas em biologia,
ecologia. Os jovens ficam dois, três anos e vão embora. A burocracia é
lenta, é tudo muito incipiente.
A SBPC está presente no Congresso para reivindicar mais atenção à ciência?
Temos uma pessoa específica, dedicada aos contatos com o Congresso.
Mas obviamente a SBPC e a Academia de Ciências precisam dar um salto,
precisam dar informações ao público. Eu fui diretor da Ciência Hoje por
muito tempo, mas sinto na pele que falhamos em não explicar, no devido
tempo, dez anos atrás, em palavras simples, o valor das florestas. Há
incêndios na Amazônia de proporções semelhantes aos de Alcântara e da
Antártida. Mas hoje perdemos para uma discussão que envolve duas cabeças
de boi.
Qual o papel dos ambientalistas nessa explicação?
A maior parte dos movimentos ambientalistas vai no sentido de "não
corte as árvores", conserve, preserve, mantenha, em vez de estude,
entenda, mostre que isso vale mais do que a árvore derrubada. O que os
movimentos ambientalistas pedem é mais polícia, não mais pesquisadores.
Hoje, o pesquisador, do ponto de vista do Ibama, é uma ameaça ao meio
ambiente. É semelhante ao devastador porque, ao catar algumas formigas,
as perturba, estressa. Eu trocaria todas as polícias por mais
pesquisadores, mostraria a quem tem a motosserra que é melhor ter um
microscópio, enfim, educaria as pessoas para extrair dos
micro-organismos produtos que têm um valor de mercado mil vezes mais
elevado. Agora, para isso, é preciso conhecer a água, o clima. Há uma
falta de dimensões e de bom senso nessa discussão, que interessa apenas
aos que querem preservar a Amazônia como um grande depósito de
matérias-primas.
Uma das propostas da SBPC é corrigir a assimetria na produção
científica brasileira, ainda centrada nos estados do Sul e Sudeste.
Isso tem sido feito?
A SBPC não conseguiu isso. Levantamos a discussão, mas precisaríamos
de uma política nacional. A questão amazônica é de interesse nacional,
mas você acha que as lideranças políticas estão dispostas a deslocar o
pagamento dos royalties pela água que gera energia elétrica para os
locais onde acontece essa geração? A produção de Belo Monte dará lucro
onde a energia será consumida. As hidroelétricas vão deixar uma
contribuição local, mas é um favor! R$ 0,50 para um hospital, R$ 200
reais para ambulâncias, R$ 400 para construir um chafariz, um campo de
futebol.
Quando da viagem do tenente-coronel Marcos Cesar Pontes à
Estação Espacial Internacional, em 2006, o senhor afirmou que era
"carona paga", referindo-se ao fato de que a empreitada não gerou
demandas à tecnologia nacional. Que outras "caronas pagas" o senhor
identifica no cenário científico brasileiro?
Não tenho dúvida de que minha observação foi correta. Aqueles R$ 30
milhões que foram pagos fizeram falta ao programa especial. Acho que,
nesse sentido, voltando à questão da Amazônia, precisamos de um número
muito grande de pesquisadores se quisermos maior conhecimento em tempo
hábil para fortalecer nossa capacidade de presença na região. Poderíamos
explorar a crise internacional, que tem tornado as condições de
pesquisa bastante difíceis na Europa e mesmo nos EUA. E importar gente,
em grande número. No mercado nacional, não teremos condições de formar
em menos de dez anos o tanto de pesquisadores que precisamos para a
Amazônia.
E a volta dos brasileiros que foram estudar e trabalhar fora?
Eles são poucos. Precisamos de 10 mil, 20 mil. Se eu dissesse 100
mil, não seria um número exagerado. Trabalhariam em climas, águas,
florestas, microbiologia, biotecnologia. Seria uma grande importação de
cérebros. Não é trivial. Precisa de infraestrutura, os investimentos são
escassos. Há quem ache que é preciso investir mais ciência na
indústria. Eu acho que o BNDES pode cuidar disso. Deveríamos atentar
para a infraestrutura para que mais competências se dediquem aos
desafios nacionais.
Literalmente, o senhor sugere dar uma "carona paga" para eles virem trabalhar aqui.
Sim, sem dúvida. Eu traria do "espaço" as forças de que precisamos. A
USP foi feita com gente de fora e fez sucesso, não houve nenhuma perda
de soberania nisso. Mas há perda de soberania quando 70% das pesquisas
na Amazônia são feitas fora do país e com pessoas que muitas vezes não
colocam os pés aqui. Trabalham com dados indiretos. Isso revela que há
uma fragilidade muito grande no nosso sistema de ciência e tecnologia, e
não só a respeito da Amazônia. Vale para oceanos e até para a
Antártida. Não posso dizer que a importação de cérebros é uma ideia
representativa da SBPC, mas há forte simpatia por isso. É uma
provocação, e eu sei que tenho aliados.
(O Estado de São Paulo - Caderno Aliás - 4/03)
promete manter o Programa Antártico Brasileiro, mas faz estimativas
conflitantes sobre a reconstrução da Estação Comandante Ferraz. Raupp,
ministro de Ciência e Tecnologia, afirma que a obra deve levar um ano.
Amorim previu o dobro de tempo.
Perto de se aposentar, Ennio Candotti achou que
tinha 18 anos e foi para a Amazônia. Depois descobriu que não tinha isso
exatamente. Mas aí já havia conhecido o fantástico mundo dos
micro-organismos da floresta, que trabalham na surdina, e se deixou
ficar. Hoje é coordenador do Museu da Amazônia, na mata aberta, que
ocupa 100 hectares da Reserva Adolfo Ducke, área de terra firme em
Manaus e há mais de 30 anos estudada por cientistas.
Sendo um deles, e dos mais atuantes - físico formado na USP, quatro
vezes presidente da SBPC e o atual vice, professor da Universidade
Federal do Espírito Santo, um dos criadores da revista Ciência Hoje e da
argentina Ciencia Hoy e agraciado com o Prêmio Kalinga, concedido pela
Unesco -, sente-se à vontade para falar dos percalços da ciência no
País, abalada nessa semana por um incêndio na Estação Antártica
Comandante Ferraz. O fogo derreteu 70% das instalações da base e deixou
dois militares mortos e outro ferido. A hipótese é de pane elétrica no
gerador, mas logo se levantou o pavio da falta de investimento nas
pesquisas nacionais.
O orçamento do programa brasileiro na Antártida previa destinação de
R$ 18,3 milhões em 2011, e só R$ 9,2 milhões foram de fato executados.
Lembrou-se ainda de acidentes anteriores, como aquele no Centro de
Lançamento de Alcântara, em 2003, também um casamento com as Forças
Armadas, e muita gente chorou a perda de pesquisas de uma vida toda,
como no incêndio que dizimou grande parte do acervo do Instituto
Butantan, em 2010.
Numa sala no último andar do Instituto Socioambiental, em São Paulo,
onde apertava os nós de uma parceria para uma exposição sobre aparelhos
de pesca, Candotti falou ao caderno 'Aliás' dos tais percalços da
ciência no Brasil. "Muitas vezes se trabalha por soluços, uma época com
recursos, uma época sem, e o fluxo contínuo custa a ser explicado às
burocracias", diz. O físico também tratou da nossa escassez de patentes
("falta de horizonte da política industrial"), das intransigências do
Ibama ("o pesquisador é visto como devastador") e da necessidade de
importar cérebros ("100 mil não seria um número exagerado"). Não seria?
No ligeiro sotaque que lhe sobrou das origens, o ítalo-brasileiro Ennio
Candotti diz que não. Sicuramente no.
Há alguma coincidência entre a explosão em Alcântara em 2003,
o incêndio no Instituto Butantan em 2010 e a destruição de grande parte
da Comandante Ferraz? Os três seriam consequência da falta de
investimentos nesses centros de pesquisa?
Eu não associaria diretamente esses acidentes à falta de recursos.
Acompanhei o que ocorreu em Alcântara e as razões eram muito mais
estruturais e relacionadas ao modo como se organizavam os cuidados com a
segurança, por exemplo. A explosão poderia ter acontecido mesmo se
houvesse muitos recursos à disposição. No caso da Antártica, havia
também regras de segurança específicas, que podem não ter sido
devidamente obedecidas, ou a manutenção dos equipamentos pode não ter
sido feita.
Mas a base recebeu muitas críticas por sua estrutura em
módulos próximos, em que os geradores dividiam quase o mesmo espaço com
laboratórios, biblioteca, alojamentos. Não faltou investimento em
modernização?
Fazer ciência entre nós é uma batalha diária. Não basta dizer: "Temos
de fazer uma boa ciência na Antártica" para que isso aconteça. É uma
conquista passo a passo, ainda mais dentro das Forças Armadas. Se o
Ministério da Ciência e Tecnologia já é burocrático, as Forças Armadas
são ao quadrado. O ministro por vezes consegue, com um grito,
ultrapassar as resistências. Nas Forças Armadas, nenhum grito ultrapassa
as continências. Além disso, um militar, entre investir em ciência e
investir em mais corvetas, ele investe em mais corvetas. Entre a base da
Antártica e comprar dois novos navios de proteção das fronteiras,
compra os dois navios. A atividade de pesquisa é uma atividade nobre,
mas não é considerada essencial.
A próxima base brasileira na Antártida será desenhada por civis, e não mais construída como se fosse uma instalação militar.
É isso mesmo. Se os militares querem a colaboração com os cientistas,
essa colaboração não é apenas como usuários da infraestrutura.
Precisamos desenhar essa infraestrutura juntos, precisamos desenhar os
veículos espaciais juntos, precisamos pensar de comum acordo os
projetos. Isso vale para os navios oceanográficos também. De vez em
quando acontecem esses lamentáveis incidentes e todo mundo acorda.
Agora, a atividade científica é perigosa e suscetível a isso. É perigosa
com muitos recursos, imagine com recursos escassos.
Lamentou-se a perda de dados na Antártica, que alguns
afirmaram ser irrecuperável. Foi a mesma observação feita por
pesquisadores do Butantan na época do incêndio. Como dimensionar o
prejuízo à pesquisa?
As coletas de material, as amostras, cada peça de uma pesquisa
científica tem história. Se você queima a biblioteca que explica essa
história, os dados são em grande parte perdidos. Mas há muito material
que foi coletado e publicado. A base é um laboratório avançado.
Precisaria saber direito o que ainda não tinha sido analisado e
transformado em material compartilhado. Pode ser a coleta do último ano,
dos últimos seis meses... Não é um museu de história natural como o
Butantan, onde havia materiais que provavelmente estavam sendo
conservados há muitos anos. O Butantan é um acervo importante de
memória.
O setor privado investe muito pouco em pesquisa no Brasil, ao
contrário do que ocorre em países desenvolvidos, como os EUA. Setores
hipercapitalizados, como o da geração de açúcar e álcool, deveriam
continuar recebendo investimentos prioritários do setor público? Não
seria mais estratégico aplicar recursos públicos em novas descobertas,
como explorar a diversidade da Amazônia?
Não sei qual é a participação privada nos institutos que trabalham,
por exemplo, com a produção de álcool de segunda geração, na qual se
aproveita o bagaço. Sei que é alto o investimento público aí. Acho que o
sistema deveria crescer e ter uma coisa e outra. Investimentos privados
vão aumentar à medida que se tiver sucesso na implantação de
laboratórios básicos para a etapa aplicada. Mesmo os públicos ainda são
relativamente modestos perante o volume de interesse em jogo. São
dezenas de bilhões e nós estamos discutindo algumas centenas. O risco é
acreditar que investindo na busca de resultados industriais se consiga
aumento imediato desses resultados. Às vezes isso exige estudos básicos,
diversificação de pesquisas, laboratórios que aparentemente não têm
grande significado.
Pouquíssimos resultados de nossas pesquisas são convertidos em patentes. Como isso pode ser revertido?
Veja, ainda temos um perfil de exportador de matérias-primas. A China
nos manda produtos elaborados e nós mandamos matérias-primas. Ela vem
fazendo isso nos últimos cinco, oito anos. Há dez anos, portanto, a
China não era exportadora de matérias elaboradas. Ou seja, em uma
década, o perfil da economia de um país pode mudar, mas isso exige
planejamento, esforço concentrado. Temos uma pauta de exportações em que
o valor agregado é ainda muito modesto. O fato de termos poucas
patentes reflete isso. Discutíamos isso 30, 20 anos atrás, no início da
industrialização da Coreia, e ainda não produzimos um carro nacional. A
Índia está fabricando um carro de US$ 2 mil, a China vende automóveis
muito baratos. Não saberíamos fazer coisa semelhante? Saberíamos, sim.
Talvez o fato de exportarmos grãos e minérios nos dê uma situação cômoda
de poder gerar riqueza sem investir muito em inteligência.
Acentua essa situação cômoda o fato de a população continuar comprando os carros ao preço que estão?
O grande desafio é atender essas faixas de população que estão
ascendendo ao mercado de consumo. Isso deveria ser acompanhado de uma
produção de tecnologias sociais. Não no sentido de tecnologias pobres,
mas de tecnologias voltadas às demandas desse novo interlocutor.
Produzir um carro muito barato deveria estar no horizonte da nossa
política industrial. Se nos dedicássemos, na tecnologia e na ciência, a
esse novo mundo de consumo daríamos uma revigorada no sistema de
tecnologias aplicadas e inovativas que, sem dúvida, traria uma vida
nova. E, com uma vida nova, as patentes. Mas não vejo que essas questões
possam ser resolvidas por apelos de "patenteiem mais". Queremos é mais
quadros técnicos. Apesar dos 10 mil doutores, uma fração pequena deles
participa do esforço produtivo. Não quero dizer que se deva formar menos
doutores nas áreas não produtivas. Apenas que se deve formar mais
doutores nas produtivas, aumentar, por exemplo, o número de médicos
dedicados à malária, produzir gente preocupada com doenças
negligenciadas.
Como o senhor vê a decisão do Conselho Nacional de Educação,
nesta semana, de invalidar a redução de vagas em cursos de medicina
considerados ruins pelo próprio MEC?
Os institutos universitários capazes de preparar com razoável
qualidade os jovens ainda são poucos. Precisamos de bons médicos, e nas
áreas mais complexas precisamos de mais médicos ainda. Na Amazônia é
dificílimo encontrar jovens que exercitem a profissão, mesmo com a
promessa de ganhar mais. Não é uma aventura, não é chegar numa
cidadezinha sem comunicação, sem transporte, sem apoio nenhum e fazer
milagres para salvar ou curar. Tem que se fazer um programa articulado.
Estamos longe disso. A Amazônia não está na pauta das políticas
nacionais de atendimento aos direitos da cidadania, especialmente nas
suas populações do interior.
Quais são os desafios de fazer ciência lá?
Primeiro, a Amazônia é vista pelo resto do Brasil como um depósito de
matérias-primas, um depósito de água que pode gerar energia, um grande
sorvedouro de carbono ou um enorme depósito de biodiversidade. Mas o
conhecimento da biodiversidade é objeto de políticas muito modestas,
incipientes e descontínuas. Para você ter uma ideia, qual e o maior
patrimônio da Amazônia? Sua microbiologia. São os micro-organismos que
transitam pela floresta que fazem dessa floresta a maravilha que é. Pois
existem apenas dois laboratórios de microbiologia em toda a Amazônia. O
centro de microbiologia da Amazônia, que deveria ter se dedicado nos
últimos dez anos ao desenvolvimento de pesquisas em biotecnologia e
produtos naturais, ainda não resolveu o seu estatuto jurídico. Isso é um
crime, mas típico de tudo o que acontece por ali. Estamos em uma
colônia do próprio Brasil, de onde se extrai muito mais do que se
coloca. Fazemos um esforço danado para formar as pessoas em biologia,
ecologia. Os jovens ficam dois, três anos e vão embora. A burocracia é
lenta, é tudo muito incipiente.
A SBPC está presente no Congresso para reivindicar mais atenção à ciência?
Temos uma pessoa específica, dedicada aos contatos com o Congresso.
Mas obviamente a SBPC e a Academia de Ciências precisam dar um salto,
precisam dar informações ao público. Eu fui diretor da Ciência Hoje por
muito tempo, mas sinto na pele que falhamos em não explicar, no devido
tempo, dez anos atrás, em palavras simples, o valor das florestas. Há
incêndios na Amazônia de proporções semelhantes aos de Alcântara e da
Antártida. Mas hoje perdemos para uma discussão que envolve duas cabeças
de boi.
Qual o papel dos ambientalistas nessa explicação?
A maior parte dos movimentos ambientalistas vai no sentido de "não
corte as árvores", conserve, preserve, mantenha, em vez de estude,
entenda, mostre que isso vale mais do que a árvore derrubada. O que os
movimentos ambientalistas pedem é mais polícia, não mais pesquisadores.
Hoje, o pesquisador, do ponto de vista do Ibama, é uma ameaça ao meio
ambiente. É semelhante ao devastador porque, ao catar algumas formigas,
as perturba, estressa. Eu trocaria todas as polícias por mais
pesquisadores, mostraria a quem tem a motosserra que é melhor ter um
microscópio, enfim, educaria as pessoas para extrair dos
micro-organismos produtos que têm um valor de mercado mil vezes mais
elevado. Agora, para isso, é preciso conhecer a água, o clima. Há uma
falta de dimensões e de bom senso nessa discussão, que interessa apenas
aos que querem preservar a Amazônia como um grande depósito de
matérias-primas.
Uma das propostas da SBPC é corrigir a assimetria na produção
científica brasileira, ainda centrada nos estados do Sul e Sudeste.
Isso tem sido feito?
A SBPC não conseguiu isso. Levantamos a discussão, mas precisaríamos
de uma política nacional. A questão amazônica é de interesse nacional,
mas você acha que as lideranças políticas estão dispostas a deslocar o
pagamento dos royalties pela água que gera energia elétrica para os
locais onde acontece essa geração? A produção de Belo Monte dará lucro
onde a energia será consumida. As hidroelétricas vão deixar uma
contribuição local, mas é um favor! R$ 0,50 para um hospital, R$ 200
reais para ambulâncias, R$ 400 para construir um chafariz, um campo de
futebol.
Quando da viagem do tenente-coronel Marcos Cesar Pontes à
Estação Espacial Internacional, em 2006, o senhor afirmou que era
"carona paga", referindo-se ao fato de que a empreitada não gerou
demandas à tecnologia nacional. Que outras "caronas pagas" o senhor
identifica no cenário científico brasileiro?
Não tenho dúvida de que minha observação foi correta. Aqueles R$ 30
milhões que foram pagos fizeram falta ao programa especial. Acho que,
nesse sentido, voltando à questão da Amazônia, precisamos de um número
muito grande de pesquisadores se quisermos maior conhecimento em tempo
hábil para fortalecer nossa capacidade de presença na região. Poderíamos
explorar a crise internacional, que tem tornado as condições de
pesquisa bastante difíceis na Europa e mesmo nos EUA. E importar gente,
em grande número. No mercado nacional, não teremos condições de formar
em menos de dez anos o tanto de pesquisadores que precisamos para a
Amazônia.
E a volta dos brasileiros que foram estudar e trabalhar fora?
Eles são poucos. Precisamos de 10 mil, 20 mil. Se eu dissesse 100
mil, não seria um número exagerado. Trabalhariam em climas, águas,
florestas, microbiologia, biotecnologia. Seria uma grande importação de
cérebros. Não é trivial. Precisa de infraestrutura, os investimentos são
escassos. Há quem ache que é preciso investir mais ciência na
indústria. Eu acho que o BNDES pode cuidar disso. Deveríamos atentar
para a infraestrutura para que mais competências se dediquem aos
desafios nacionais.
Literalmente, o senhor sugere dar uma "carona paga" para eles virem trabalhar aqui.
Sim, sem dúvida. Eu traria do "espaço" as forças de que precisamos. A
USP foi feita com gente de fora e fez sucesso, não houve nenhuma perda
de soberania nisso. Mas há perda de soberania quando 70% das pesquisas
na Amazônia são feitas fora do país e com pessoas que muitas vezes não
colocam os pés aqui. Trabalham com dados indiretos. Isso revela que há
uma fragilidade muito grande no nosso sistema de ciência e tecnologia, e
não só a respeito da Amazônia. Vale para oceanos e até para a
Antártida. Não posso dizer que a importação de cérebros é uma ideia
representativa da SBPC, mas há forte simpatia por isso. É uma
provocação, e eu sei que tenho aliados.
(O Estado de São Paulo - Caderno Aliás - 4/03)