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ITA busca voltar às origens e prioriza pesquisa e inovação

27/12/2011 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=80639
Novo reitor,
Carlos Américo Pacheco quer retomar o projeto que tinha o MIT, dos EUA,
como modelo. Leia a entrevista concedida à Folha de São Paulo.
Ao ser criado, em 1950, o Instituto Tecnológico de
Aeronáutica (ITA) não se limitou a seguir o modelo do Massachusetts
Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos. Importou seus
professores, tornou um deles reitor, Richard Smith, e nasceu como parte
de uma visão maior que envolvia centro de pesquisas e fomento à
indústria.
 
Agora um novo reitor, recém-empossado, Carlos Américo Pacheco, quer
retomar o caminho aberto pelo chamado Relatório Smith. "Ele desenha o
que se chama de 'cluster', de arranjo produtivo local. Isso nos anos 40,
é uma coisa impressionante", diz. "Admira-se o que Taiwan fez no Itri
(Industrial Technology Research Institute), mas aqui, nos anos 40,
desenhou-se algo agressivo: não só uma escola de excelência, mas uma
indústria."
 
Pacheco falou à Folha no intervalo de uma série de encontros com
grandes empresas, privadas e públicas, que quer levar como parceiras
para o ITA, a exemplo do que fazem MIT, Stanford e outras instituições.
Entre elas, Vale, Petrobras, Embraer, Odebrecht Defesa e Braskem. E
sonha com "um passo além", um laboratório multiusual, não didático por
disciplina como os atuais, mas um "innovation center", como fez o MIT
com o Media Lab. Ainda não tem arquiteto, mas o ITA original foi
projetado por Oscar Niemeyer.
 
Ele quer "despertar a paixão nos alunos pelos grandes desafios
tecnológicos que o País vai enfrentar", quer "mover o imaginário, para
desenvolverem novas empresas, projetos". Prevê "engajar os alunos logo
no início da graduação em equipes que envolvam diversos anos,
pós-graduandos, professores, gente da indústria".
 
Aos 20, André Luiz Costa Pereira Filho acaba de passar do segundo
para o terceiro ano no ITA. Ele relata a ansiedade dos colegas pelo
contato com tecnologia, "que é ciência em prática", e diz que "essa
vertente do reitor, de tornar a inovar, faz com que tenha apoio dos
alunos", até "causa euforia". O estudante repete uma expressão corrente
no campus, de que "o ITA foi fundado em 1950 com uma visão de 1980, mas
em 2011 a visão é de 2000". O MIT "está anos-luz na nossa frente".
 
Burocracia e cortes - Mas o novo reitor não
encontrou só boas-vindas. Sua prioridade inicial é dobrar o número de
alunos por ano, de 120 para 240, e contratar 200 professores
-estrangeiros inclusive, como parte de um projeto de
"internacionalização" da escola. Para tanto, o ITA terá de construir
novos laboratórios didáticos, salas de aula, alojamentos. E Pereira
Filho critica que a simples reforma do alojamento atual atravessou 2011
parada, perdida na burocracia e nos cortes de verba. O ITA é ligado ao
Ministério da Aeronáutica.
 
A própria contratação de professores no exterior, embora a escola
tenha nascido com americanos e até chineses, enfrenta hoje obstáculos,
por exemplo, na restrição do acesso ao campus.
 
Por outro lado, o ITA é saudado pela excelência na graduação, mas vê a
pós-graduação ficar para trás. Hudson Alberto Bode, recém-doutorado e
no fim do mandato como presidente da Associação de Pós-Graduandos, cita a
baixa publicação. "Espero que o reitor olhe mais, realmente, para
inovação, pesquisa e desenvolvimento. Quem é que faz pesquisa? É a
pós-graduação." Diz que o discurso indica mais atenção, "mas será
preciso botar na prática".
 
Carlos Américo Pacheco - Formado em engenharia
eletrônica pelo ITA, com doutorado em economia pela Unicamp, onde era
professor até ser escolhido em seleção pública como novo reitor, Carlos
Américo Pacheco, 54, foi secretário-executivo do Ministério da Ciência e
Tecnologia (1999-2002) e participou da elaboração dos projetos que
resultaram na criação de 14 fundos setoriais e na Lei da Inovação, de
2004.
 
Folha - Inovação é a área a que o sr. mais se dedica. Qual a visão que tem dela?
Carlos Américo Pacheco - Inovação passou a ser uma palavra que
responde a coisas diferentes, na cabeça de cada um. Vou me restringir ao
sentido econômico. É o que as empresas fazem de modificação de produto,
processo etc. Entre as várias formas de inovação que as empresas usam
está a tecnológica. Ela é fundamental para o desenvolvimento porque
grande parte do aumento de produtividade vem daí. E você não consegue
crescimento sustentável sem crescimento de produtividade. O mundo vai
andar problemático, mas o Brasil vai crescer pelo mercado interno, pelos
recursos naturais. Mas o perfil do crescimento pode ser melhor ou pior,
se a gente introduzir a inovação tecnológica nas agendas pública e
privada.
 
Fala-se em divisão dos modelos de inovação, com maior e menor presença estatal.
No mundo inteiro não há desenvolvimento tecnológico que não tenha
amparo do Estado. Recentemente, numa visita, o presidente da Boeing
disse que não entendia a Embraer, porque a Boeing não sobrevive sem as
encomendas do Estado americano. Eu vejo dois modelos que funcionam. Nos
EUA, o Estado faz isso com encomendas e atua também na pesquisa básica,
com uma estrutura ímpar. O modelo europeu é feito mais sob a forma de
editais, pesquisa cooperativa universidade-empresa.
 
O que o sr. recomenda?
O que se recomenda no mundo é um "blend" dos dois. A gente construiu
um sistema parecido com o europeu. Agora, sobretudo depois da Estratégia
Nacional de Defesa, a gente se aproxima de um "blend", um pouco por
causa das encomendas de submarinos, do cargueiro da Embraer, do
satélite.
(Folha de São Paulo)
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