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O Butantan desafia o cartel das vacinas

20/12/2011 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=80581
Artigo de Isaias Raw publicado na Folha de São Paulo de domingo (18).
A empresa Sanofi propôs ao governador de São Paulo a
compra da divisão bioindustrial do Instituto Butantan. O Brasil está
sendo loteado: um grande volume de vacinas de Biomanguinhos é importado a
granel de uma multinacional; a Funed (Fundação Ezequiel Dias), que
nunca produziu vacinas, passará a envasar a vacina contra meningite C de
outra multinacional, que se propõe a construir a sua "fábrica" na
região Nordeste, oferecendo cem empregos!
 
Voluntários são recrutados no Brasil para testar as vacinas,
anunciadas como brasileiras, que serão produzidas no exterior. Querem
que voltemos a ser o consumidor de vacinas importadas. Não basta o uso
das patentes para bloquear a produção, como mostrou o professor Rogério
Cezar de Cerqueira Leite em artigo neste espaço ("Patentes, pirataria e
servilismo", 7/11) e a venda do produto a granel.
 
É preciso liquidar o Butantan, porque nós ousamos desenvolver novas
vacinas e a tecnologia para sua produção! Voltaríamos a ser mais um
enorme mercado, num país sem desenvolvimento. Aceitaremos ser colônia?
Cinco empresas fornecem 80% das vacinas para o mundo! Durante a ameaça
da pandemia da influenza AH1, aproveitando o pânico criado, as empresas
venderam para os países médios e pobres vacinas por preços entre seis e
sete euros.
 
Para atender o Ministério da Saúde, fomos obrigados a importar,
usando um contrato provisório, 40 milhões de doses da vacina AH1. Em
2011, como a pandemia não matou mais do que a influenza sazonal,
passaram a oferecer a mesma vacina (com mais dois sorotipos) por 0,60
euro!
 
Desenvolvemos um adjuvante e uma vacina mais eficaz, aumentando a
capacidade de produção anual, com os mesmos ovos, de 20 milhões para 150
milhões de doses, atendendo até o ano de 2013 toda a demanda nacional.
 
Cometemos o "pecado" de desenvolver uma nova vacina de
tétano-difteria-pertussis, mais eficaz e segura, por R$ 0,30, contra a
vacina que as multinacionais copiaram do Japão e que custa 50 vezes mais
-vacina esta que a Organização Mundial da Saúde e a Organização
Pan-Americana da Saúde, pelo custo e eficácia, não recomendam.
 
Com o adjuvante, aumentaremos a produção das vacinas de hepatite B,
raiva humana e leishmaniose canina (que evita a vacinação de crianças).
Com o surfactante pulmonar, apoiado pela Brasil Foods, evitaremos 30 mil
mortes de bebês por ano, minutos após o parto. A vacina contra dengue
já foi produzida no Butantan e poderá ser fornecida ao ministério por
cerca de R$ 2. Tentam bloquear o ensaio clínico, que começa em poucos
meses.
 
Demonstramos o óbvio: quem não desenvolve e produz é uma subsidiária
da "matriz"! Sem confiança de que podem controlar o Butantan, tentam
comprá-lo.
 
Isaias Raw é professor emérito da Faculdade de Medicina da USP e
presidente do conselho científico e tecnológico da Fundação Butantan.
Foi diretor do Instituto Butantan, fundador da Funbec (Fundação
Brasileira para o Desenvolvimento do Ensino de Ciências) e da Fundação
Carlos Chagas.
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