Voltar para Notícias
O desafio de enxergar a química como instrumento cultural
18/12/2011
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=80561
Pesquisador
em aprendizagem lamenta o preconceito em relação à disciplina, diz que
ela é fundamental para preservar o meio ambiente e aponta novas
tendências de ensino.
A química ainda não goza de boa imagem na
sociedade. A constatação, cada vez mais combatida, é feita por Guilherme
Andrade Marson, professor do Instituto de Química da Universidade de
São Paulo (USP) e editor do portal Química Nova Interativa. "Se alguém
tem problemas com drogas, tem dependência química. Se algo é
extremamente poluente, é associado à química. Existe um valor na
sociedade de que o artificial é ruim. E o que é natural é
necessariamente bom", relata Marson.
O professor ressalta que essa visão negativa em relação à disciplina é
intensificada também por acidentes que envolvem indústrias químicas
("acontecem acidentes em qualquer setor, mas no caso da química ele
ganha alta divulgação na mídia") e pelo grau de dificuldade da matéria
("explica o que você vê com o que você não vê"), que muitas vezes
dispersa o interesse dos alunos.
"Mas o que as pessoas não se dão conta é que a química é muito
presente na forma com que a gente vive. Há cem anos, eram conhecidas
cerca de 400 substâncias. Hoje, conhecemos 65 milhões de substâncias
químicas. Boa parte delas não existia antes e foi criada com
conhecimento químico. Incluem desde materiais, como plástico, corante,
fibra têxtil, medicamentos e até elementos associados com a saúde, como
instrumentos tecnológicos da sociedade", pondera.
Química, cultura e meio ambiente - Marson desfia uma
lista de atuações da área química, mas destaca a disciplina como um
instrumento cultural, citando como exemplos mais contundentes a invenção
da pílula anticoncepcional e a criação de medicamentos que fizeram com
que fosse possível viver mais tempo e melhor. "Já saímos da barriga da
mãe envoltos em química, com o pano esterilizado, e em seguida passamos
por procedimentos como o teste do pezinho, que existe graças à
compreensão molecular", exemplifica.
Para o pesquisador, desde o século 18 a química vem se consolidando
como um instrumento poderoso que aparece em várias áreas na ciência
moderna e aumenta o poder de transformação da sociedade. "Qualquer
possibilidade de existência harmônica com o meio ambiente também
necessita de conhecimento químico, para que possamos entender as
transformações da matéria na natureza, de modo que a possamos avaliar o
impacto das novas ações e criar alternativas para que continuemos a
fazer o que nós fazemos, mas com impacto reduzido", destaca.
Ensino da química - Marson, que é mestre em química
orgânica e PhD em bioquímica pela USP, identifica três focos de atenção
no ensino da disciplina hoje, que são aplicáveis ao ensino médio,
superior e à formação de professores. O primeiro é a contextualização,
chamado de Ciência, Tecnologia e Sociedade, "um foco importante para
mostrar a química como instrumento de modificação social e mudança das
relações humanas".
Outro foco é o de uma ciência que traz um conhecimento de múltiplas
dimensões, "que ao mesmo tempo é macro ou concreta, simbólica (com
linguagem própria) e microscópica (de explicação)". Por último, o
terceiro foco traz a ideia de que as pessoas têm concepções não
cientificas sobre o mundo e que as concepções químicas devem fazer parte
de seu processo cultural. "Não como algo que vai solapar as concepções
prévias, mas algo que vai se integrar a um todo que permita a pessoa
optar pela explicação científica", esclarece Marson. "(Esses focos) têm
gerado várias propostas inovadoras e interessantes de apresentar e
introduzir a química aos alunos", revela.
Apesar de alguns materiais didáticos já seguirem essa linha, ainda há
resistência. Há diversos obstáculos, tanto econômicos, que envolvem a
baixa remuneração dos professores, quanto de concepção, certa
resistência à ideia. "O professor tende a ensinar da forma como ele foi
ensinado, mesmo que a experiência não tenha agradado", explica.
Para Marson, o movimento em torno à inovação e as novas oportunidades
para químicos ainda não tiveram um grande efeito na procura pelo curso
nas universidades. "Saímos agora do Ano Internacional da Química e se os
esforços de divulgar química e ciência não forem mantidos, não vamos
mudar esse quadro, o que significa que o País pode brecar o
desenvolvimento tecnológico por falta de profissionais capacitados de
tecnologia", conclui.
(Clarissa Vasconcellos - Jornal da Ciência)
em aprendizagem lamenta o preconceito em relação à disciplina, diz que
ela é fundamental para preservar o meio ambiente e aponta novas
tendências de ensino.
A química ainda não goza de boa imagem na
sociedade. A constatação, cada vez mais combatida, é feita por Guilherme
Andrade Marson, professor do Instituto de Química da Universidade de
São Paulo (USP) e editor do portal Química Nova Interativa. "Se alguém
tem problemas com drogas, tem dependência química. Se algo é
extremamente poluente, é associado à química. Existe um valor na
sociedade de que o artificial é ruim. E o que é natural é
necessariamente bom", relata Marson.
O professor ressalta que essa visão negativa em relação à disciplina é
intensificada também por acidentes que envolvem indústrias químicas
("acontecem acidentes em qualquer setor, mas no caso da química ele
ganha alta divulgação na mídia") e pelo grau de dificuldade da matéria
("explica o que você vê com o que você não vê"), que muitas vezes
dispersa o interesse dos alunos.
"Mas o que as pessoas não se dão conta é que a química é muito
presente na forma com que a gente vive. Há cem anos, eram conhecidas
cerca de 400 substâncias. Hoje, conhecemos 65 milhões de substâncias
químicas. Boa parte delas não existia antes e foi criada com
conhecimento químico. Incluem desde materiais, como plástico, corante,
fibra têxtil, medicamentos e até elementos associados com a saúde, como
instrumentos tecnológicos da sociedade", pondera.
Química, cultura e meio ambiente - Marson desfia uma
lista de atuações da área química, mas destaca a disciplina como um
instrumento cultural, citando como exemplos mais contundentes a invenção
da pílula anticoncepcional e a criação de medicamentos que fizeram com
que fosse possível viver mais tempo e melhor. "Já saímos da barriga da
mãe envoltos em química, com o pano esterilizado, e em seguida passamos
por procedimentos como o teste do pezinho, que existe graças à
compreensão molecular", exemplifica.
Para o pesquisador, desde o século 18 a química vem se consolidando
como um instrumento poderoso que aparece em várias áreas na ciência
moderna e aumenta o poder de transformação da sociedade. "Qualquer
possibilidade de existência harmônica com o meio ambiente também
necessita de conhecimento químico, para que possamos entender as
transformações da matéria na natureza, de modo que a possamos avaliar o
impacto das novas ações e criar alternativas para que continuemos a
fazer o que nós fazemos, mas com impacto reduzido", destaca.
Ensino da química - Marson, que é mestre em química
orgânica e PhD em bioquímica pela USP, identifica três focos de atenção
no ensino da disciplina hoje, que são aplicáveis ao ensino médio,
superior e à formação de professores. O primeiro é a contextualização,
chamado de Ciência, Tecnologia e Sociedade, "um foco importante para
mostrar a química como instrumento de modificação social e mudança das
relações humanas".
Outro foco é o de uma ciência que traz um conhecimento de múltiplas
dimensões, "que ao mesmo tempo é macro ou concreta, simbólica (com
linguagem própria) e microscópica (de explicação)". Por último, o
terceiro foco traz a ideia de que as pessoas têm concepções não
cientificas sobre o mundo e que as concepções químicas devem fazer parte
de seu processo cultural. "Não como algo que vai solapar as concepções
prévias, mas algo que vai se integrar a um todo que permita a pessoa
optar pela explicação científica", esclarece Marson. "(Esses focos) têm
gerado várias propostas inovadoras e interessantes de apresentar e
introduzir a química aos alunos", revela.
Apesar de alguns materiais didáticos já seguirem essa linha, ainda há
resistência. Há diversos obstáculos, tanto econômicos, que envolvem a
baixa remuneração dos professores, quanto de concepção, certa
resistência à ideia. "O professor tende a ensinar da forma como ele foi
ensinado, mesmo que a experiência não tenha agradado", explica.
Para Marson, o movimento em torno à inovação e as novas oportunidades
para químicos ainda não tiveram um grande efeito na procura pelo curso
nas universidades. "Saímos agora do Ano Internacional da Química e se os
esforços de divulgar química e ciência não forem mantidos, não vamos
mudar esse quadro, o que significa que o País pode brecar o
desenvolvimento tecnológico por falta de profissionais capacitados de
tecnologia", conclui.
(Clarissa Vasconcellos - Jornal da Ciência)