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Apelo por uma Nova Era da Ciência Global

15/12/2011 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=80520
Artigo de José Monserrat Filho sobre as discussões do Fórum Mundial da Ciência. Enviado ao JC Email pelo autor.
O 5º Fórum Mundial da Ciência, promovido em
Budapeste, Hungria, de 17 a 19 de novembro, pela Academia de Ciências da
Hungria, com o apoio da Unesco e do ICSO (Conselho Internacional para a
Ciência), sobre o tema "As Mudanças no Panorama da Ciência: Desafios e
Oportunidades", finalizou com o lançamento da "Declaração sobre uma Nova
Era da Ciência Global".
 
Foi a primeira vez que o Fórum Mundial da Ciência - criado a partir
da Conferência Mundial da Ciência, que teve lugar também em Budapeste em
1999 - publicou um documento dessa natureza. O evento contou com 700
participantes de 108 países. Na delegação do Brasil destacou-se a
presença do presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Jacob
Palis, que já tinha conseguido em 2009 trazer para o Rio de Janeiro o 6º
Fórum, a realizar-se em 2013, e do ministro da Ciência, Tecnologia e
Inovação, Aloizio Mercadante, que, em sua intervenção, propôs para o 6º
Fórum, o primeiro fora da Europa, o tema "Ciência para o Desenvolvimento
Global".
 
Como o próprio tema 5º Fórum indica, a Declaração enfatiza as rápidas
mudanças ocorridas no quadro mundial da ciência e frisa: "Mais que
nunca, o mundo será moldado pela ciência".
 
Recomendações
 
Com base no novo contexto, a Declaração formula cinco recomendações:
 
1) Conduta responsável e ética da pesquisa e da inovação: "É
responsabilidade de quem promove a ciência e dos cientistas manter a
primazia das preocupações morais e sociais sobre os interesses
econômicos de curto prazo na seleção e execução de projetos de pesquisa
industrializados";
 
2) Um diálogo melhor com a sociedade sobre questões científicas: "A
sociedade deve estar preparada para discutir com conhecimento de causa
os efeitos morais e éticos da ciência e tecnologia, fortalecendo as
políticas dirigidas a aumentar a consciência e a compreensão da ciência
pelo público, e ampliando o alcance da educação";
 
3) Há que promover a colaboração internacional em ciência: "O
cooperação livre e a mobilidade dos cientistas devem ser promovidos
eliminando-se a burocracia perniciosa e a falsa regulamentação, bem como
assegurando recursos para ampliar a cooperação internacional";
 
4) Políticas de colaboração para superar a brecha de conhecimento no
mundo: "O rápido desenvolvimento e o custo crescente da ciência,
combinados com a expansão das políticas e da regulamentação sobre
patentes, têm ampliado ainda mais o fosso econômico e de conhecimento
entre os países desenvolvidos e os em desenvolvimento. Num mundo em que a
melhor ciência e os melhores pesquisadores são atraídos apenas por
excelentes infraestruturas de pesquisa, os países em desenvolvimento
devem ser apoiados em seus esforços para construir sua capacidade de
pesquisa";
 
5) É preciso fortalecer a formação de competências para a ciência:
"Os governos são os primeiros responsáveis pelo aumento do apoio à
ciência e pelo desenvolvimento de políticas eficazes para a tecnologia e
a inovação. Ações abrangentes devem ser empreendidas para fortalecer o
papel das mulheres na ciência e na inovação e ampliar sua participação
na ciência e na elaboração de políticas científicas. (...) Há
necessidade urgente de elaborar políticas científicas novas e mais
eficazes nos níveis nacional, regional e global, para melhor coordenar e
monitorar a pesquisa científica em todo o mundo, para harmonizar os
sistemas de ensino universitário, e para facilitar a cooperação
científica regional e global com base na equidade e na participação".
 
A Declaração ressalta que "O antigo domínio tripartite da América do
Norte, Europa e Japão na produção do conhecimento global tem sido
seriamente desafiado; novo mundo multipolar da ciência emergiu
acompanhado pelo surgimento de novas potências científicas, que são
agora não apenas atores de destaque na economia mundial, mas também se
tornaram protagonistas-chave nas pesquisas de ponta e nas atividades de
desenvolvimento". E que "neste novo contexto da ciência global, a
diplomacia científica é hoje ferramenta reconhecida para promover
parcerias entre as nações, fomentando a cooperação científica".
 
Repercussão
 
Que repercussão teve o 5º Fórum Mundial da Ciência e sua "Declaração
sobre uma Nova Era da Ciência Global"? No Brasil, não parece ter havido
comentários. A ABC acompanhou as discussões em Budapeste e publicou em
seu site o texto em inglês da Declaração, mas, curiosamente, não se
pronunciou a respeito.
 
O portal SciDev.Net divulgou estes dados e opiniões sobre o histórico encontro:
 
Yuan Tseh Lee, presidente do ICSU, afirmou que "Fórum foi muito bem
sucedido em muitos aspectos". A seu ver, "apesar de inúmeras
apresentações, discussões e pontos de vista diferentes, chegamos a
alguns acordos e pontos de vista comuns". Para ele, a Declaração "tocou
em muitas coisas relevantes, mas o mais importante é que todos parecem
estar dispostos e comprometidos em estabelecer uma civilização
sustentável, equitativa e simplesmente humana", naquele que é descrito
como um "tempo muito difícil".
 
Alice Abreu, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ) considerou este Fórum melhor que o anterior, mas notou que ainda
faltou tempo para discussões. A falta de tempo para debate, aliás,
apareceu como sentimento geral entre os participantes. Zaid Naffa,
cônsul honorário da Jordânia, observou que o formato que juntou cinco ou
seis oradores em blocos de duas horas não foi simpático para políticos e
diplomatas, que precisam de apresentações mais curtas e mais
oportunidade de fazer perguntas.
 
Sir Christopher Llewellyn Smith, presidente do Grupo de Consultores
da Royal Society do Reino Unido, que proferiu palestra no Fórum sobre
cooperação internacional, definiu a Declaração como "boa". "Tem todas as
coisas certas, a necessidade de cooperar e trabalhar melhor através de
fronteiras e trabalhando juntos podemos resolver melhor os problemas".
Mas alguns cientistas entenderam que as recomendações não eram
suficientemente fortes.
 
Comentários (críticos) da Nature
 
O correspondente da Nature, Colin Macilwain, por seu turno, escreveu
na coluna Visão de Mundo (edição de 23/11/2011) um interessante artigo
sobre o que viu e ouviu no Fórum - "As atitudes da ciência devem
refletir um mundo em crise". Eis suas principais anotações:
 
- "Os envolvidos nas políticas científicas me parecem, por vezes,
sonâmbulos cruzando a maior crise a afligir o Ocidente desde a Segunda
Guerra Mundial. É verdade que, do ponto de vista do cientista de
bancada, os subsídios continuam a fluir e os resultados continuam a ser
publicados. Talvez por isso, o mais amplo discurso sobre o papel da
ciência na sociedade praticamente não se moveu uma polegada. Nos últimos
três anos, minha impaciência tem crescido cada vez mais diante desse
enfoque do tipo "business as usual". Quando o presidente ou chefe de
pesquisa da academia se levanta para falar em público, eu sempre espero
que ele vá explicar como fará as coisas de modo diferente. Isso nunca
ocorre."
 
- "No Fórum Mundial de Ciência em Budapeste, alguns líderes
científicos finalmente reconheceram a nova realidade. Em particular, os
representantes dos países em desenvolvimento - que respondem por parcela
do rápido crescimento da ciência global - falaram de uma reorientação
radical das prioridades da pesquisa para melhor atender às necessidades
prementes de suas populações. E nos bastidores, analistas mapeiam
cenários possíveis - fascinante e, por vezes, alarmantes - para a
ciência mundial após o desastre [que já está aí]."
 
- "Desafiados pelo Primeiro-Ministro da Hungria, Viktor Orbán, a
encararem as implicações da crise econômica, proeminentes representantes
ocidentais presentes no Fórum, como William Colglazier, assessor
científico da Secretária de Estado Hillary Clinton, e Llewellyn Chris
Smith, ex-chefe do Laboratório de Física de Partículas da Europa (CERN) -
não lograram enfrentá-las em suas palestras plenárias. E alguns
conferencistas sentiram-se bem mais à vontade para discutir as crises
ecológicas do planeta do que crises econômicas que hoje alarmam a
população em geral.
 
- "... a Princesa Sumaya bint el Hassan, da Royal Scientific Society
da Jordânia, captou o clima reinante no mundo em desenvolvimento.
"Devemos nos perguntar por que tanta pesquisa científica é orientada
para atender necessidades de consumo de uma pequena elite", disse ela.
"Nós seremos ingênuos se olharmos a ciência no novo século com a visão
rotineira."
 
- "Algumas coisas não ditas em Budapeste permanecem: ninguém criticou
o fracasso da ciência em reunir grupos de engenharia para esclarecer a
falta de bases sólidas e produtivas para o longo boom de duas décadas,
abruptamente encerrado em 2008. Tão pouco houve críticas à falta de
denúncia da pseudociência sustentada em meios financeiros exóticos que
desempenharam papel central tanto no seu crescimento como no seu
surgimento."
 
- "Mas o fórum revelou o início de uma série de resposta dos líderes
científicos ao tumulto que vem por aí. Apesar da retórica muita
acolhedora em defensa do financiamento da pesquisa, um cenário
desconfortável, mas realista, é de queda, talvez de um terço nos EUA e
Reino Unido, esse tipo de mudança vai causar estragos."
 
- "O grande perigo é que o financiamento escasso irá consolidar a
pesquisa em torno de uma única disciplina, embora todos saibam que o
trabalho mais valioso hoje em dia é multidisciplinar. O perigo
associado, já revelado no Congresso dos EUA, é que as ciências sociais
serão expulsas do templo - exatamente quando, conforme Llewellyn Smith
apontou em Budapeste, as ciências exatas necessitam convidá-las para
ajudar no engajamento do público."  
 
Conclusão
 
A Declaração deveria ser amplamente debatida pelas ABC, SBPC, SBF
(Sociedade Brasileira de Física), FESB, ANPOCS e outras importantes
sociedades científicas brasileiras. Caberia também às Comissões de
Ciência e Tecnologia do Senado e da Câmara dos Deputados promoverem
audiências públicas a respeito, com a participação das lideranças
científicas e tecnológicas de todo o País, inclusive da área
empresarial, pública e privada.
 
A Declaração ganha especial dimensão e relevância no momento em que
atividade científica, tecnológica e de inovação brasileira pode, deve,
precisa e busca cada vez mais se internacionalizar.
 
José Monserrat Filho é chefe da Assessoria de Cooperação Internacional da Agência Espacial Brasileira (AEB).
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