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O Brasil está pronto para lidar com a exploração do pré-sal?

29/11/2011 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=80273
Coluna Tendências & Debates da Folha de São Paulo de sábado (26).
NÃO - Longo caminho a percorrer
Resposta de José Goldemberg.
 
Ainda é cedo para uma completa avaliação da gravidade do acidente que
ocorreu num poço perfurado pela Chevron na bacia de Campos, que lançou
no mar cerca de 3.000 barris de petróleo, afetando 160 km² do oceano. O
problema desses acidentes não é apenas a proteção do ambiente, mas a
segurança física das plataformas e a proteção dos trabalhadores:
segurança e proteção do ambiente andam juntos.
 
O acidente da Chevron não tem a gravidade do acidente no golfo do
México, em 2010, que lançou 5 milhões de barris de petróleo no mar e
destruiu a plataforma de perfuração (a um custo de US$ 1 bilhão),
causando 11 mortes e 17 feridos. O custo da recuperação das áreas
litorâneas degradadas, a compensação pelos prejuízos causados à
indústria da pesca e os dispêndios no fechamento do poço são estimados
em cerca de US$ 20 bilhões.
 
Há, porém, várias similaridades entre os dois acidentes: a Chevron,
como a British Petroleum (BP) no caso do golfo do México, demorou a dar
explicações claras e transparentes e aparentemente ocultou informações,
como fizera a BP. A Agência Nacional de Petróleo (ANP), contudo, deu
sinais de vitalidade - o que não é usual - e multou a empresa em R$ 50
milhões, com insinuações de suspender suas atividades no Brasil,
esquecendo talvez que a Petrobras é associada à Chevron nessa área. Por
sua vez, o Ibama - só após o acidente - deu-se conta de que deixou de
fazer importantes exigências por ocasião do licenciamento.
 
O problema, na realidade, é mais profundo: as empresas que operam no
setor petrolífero no Brasil, incluindo a Petrobras, não têm uma cultura
empresarial que priorize a proteção ambiental, vista, em geral, como um
estorvo às atividades de perfuração e produção. Essa conduta é um
aspecto do problema geral de escolher entre desenvolvimento e
preservação ambiental, um fantasma que persegue o atual governo, que não
consegue perceber que é possível conciliar as duas opções.
 
Exemplo desses problemas é a euforia com a exploração do pré-sal, que
inclusive já levou à aprovação de leis para dividir os royalties de
petróleo que eventualmente só será produzido daqui a cinco ou dez anos.
Até chegarmos lá, porém, há um longo caminho a percorrer.
 
O que aconteceu com o poço da Chevron é apenas um aviso, que talvez
seja bem-vindo, porque acordará as autoridades para a necessidade de
mais transparência na exploração do pré-sal. Não é preciso entrar em
depressão, mas reduzir a euforia em relação ao pré-sal, que lembra os
tempos do "Brasil Grande".
 
Tem sido argumentado, por exemplo, que os poços de pré-sal estão a
cerca de 300 quilômetros da costa e que, se houver derramamento de
petróleo, ele se dispersará antes de atingir a costa - o que não
significa que a vida marinha deverá deixar de ser seriamente afetada.
 
Outro argumento usado por técnicos da Petrobras é o de que a "melhor
tecnologia disponível" está sendo usada na exploração, o que pode até
ser verdade. Contudo não existe experiência para retirar petróleo de
reservatório situado abaixo da camada de sal de mais de três
quilômetros, o que não foi feito ainda em outros países.
 
Estamos realmente entrando numa área nova, em que problemas
inesperados podem ocorrer. Podemos liderar essa área ou comprometer
seriamente seu futuro.
 
José Goldemberg, doutor em ciências físicas pela USP, é professor do
Instituto de Eletrotécnica e Energia da mesma universidade. Foi reitor
da USP (1986-89), secretário da Ciência e Tecnologia da Presidência da
República e ministro da Educação (governo Collor) e secretário de Meio
Ambiente do Estado de São Paulo (2002-2006).
 
SIM - Desafio necessário e possível
Resposta de Edmar de Almeida.
 
Os recentes acidentes com derramamento de petróleo no golfo do México
e agora na bacia de Campos colocam em tela dois tipos de
questionamentos à exploração do pré-sal brasileiro: não estaria o Brasil
entrando numa aventura desnecessária, com a iminência da substituição
do petróleo por fontes de energia renováveis? Estaria o Brasil preparado
para enfrentar os desafios econômicos, tecnológicos e ambientais do
pré-sal?
 
O primeiro questionamento está ligado à ideia de que o petróleo é uma
energia do passado e que não vale a pena mobilizar recursos da
sociedade em um negócio fadado a encolher e desaparecer rapidamente. Tal
ideia não tem sustentação na realidade dos fatos.
Os estudos de previsão da matriz energética mundial apontam para um
papel do petróleo e do gás natural ainda dominante no horizonte de longo
prazo. Segundo a Agência Internacional de Energia, essas fontes deverão
representar 75% da matriz energética mundial em 2035, no cenário mais
otimista para as energias renováveis.
 
Esse tipo de previsão é confirmado por outras agências governamentais
e pelas principais empresas energéticas mundiais. Podemos dizer que o
petróleo e o gás conservarão um papel destacado na longa transição para
uma economia descarbonizada. Nesse sentido, o pré-sal constitui uma
expressiva vantagem comparativa para o Brasil. Nosso país poderá assumir
papel de destaque na transição energética, não só devido à sua grande
dotação de petróleo e gás, mas também em função do seu potencial
significativo de recursos renováveis.
 
Com relação ao segundo questionamento, é importante ressaltar que o
Brasil é um grande caso de sucesso na exploração "offshore" em águas
profundas. A partir dos anos 1980, o País fez um enorme esforço
econômico e tecnológico no campo da exploração "offshore" na busca da
autossuficiência em petróleo. Como resultado desse esforço, a Petrobras
tornou-se empresa líder nessa tecnologia e hoje é a maior operadora
mundial na produção de petróleo em águas profundas.
 
O País vem, até o momento, equacionando com sucesso outro grande
desafio: o financiamento do expressivo volume de investimentos
necessários para o aproveitamento do petróleo do pré-sal. Grande parte
dos recursos para financiar tais investimentos vem do próprio fluxo de
caixa da Petrobras. Em 2010, os lucros e os investimentos da empresa
atingiram R$ 35,2 bilhões e R$76,4 bilhões, respectivamente. Isso
significa que o sistema Petrobras investiu o equivalente a R$ 210
milhões de reais por dia.
 
Esse esforço está, em grande medida, associado à política de alinhar
os preços dos combustíveis no Brasil aos do mercado internacional. Tal
estratégia garantiu uma forte elevação dos ganhos da Petrobras em função
do crescimento do preço do barril do petróleo. A política de preços
adotada gerou confiança para que grandes "players" da indústria mundial
do petróleo, assim como novas empresas brasileiras, apostassem no futuro
do petróleo e do gás no País.
 
Por fim, vale dizer que o desenvolvimento do pré-sal não representa
necessariamente um obstáculo para as energias renováveis. Pelo
contrário, o Brasil tem a oportunidade de se apoiar nos benefícios
econômicos do pré-sal para desempenhar um papel-chave nas energias do
futuro. Esse é um desafio ambicioso, que deve ser enfrentado no âmbito
de uma estratégia de longo prazo.
 
Edmar de Almeida, professor e diretor de pesquisas do Instituto de
Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é vice-presidente da
International Association for Energy Economics (Associação
Internacional de Economia da Energia) e presidente da Associação
Brasileira de Estudos em Energia.
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