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Um grito de socorro
25/11/2011
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=80236
Artigo de Wanda Engel no Correio Braziliense de hoje (24).
Aconteceu num seminário sobre formação inicial de
professores, frente a um painel reunindo grandes expoentes na área de
educação, quando se franqueou a palavra ao público. A primeira
manifestação, vinda de uma jovem professora, fazia um apelo aos
especialistas para que lhe dessem uma luz, antes que tomasse a decisão
eminente de largar o magistério. Em seu relato emocionado, destacava
que, mesmo após cinco anos de magistério, ainda se considerava carente
de instrumentos metodológicos para realizar um bom trabalho. Seu
cotidiano era um verdadeiro inferno: sofria bullying por parte dos
alunos, não conseguia resultados e não sabia o que fazer. Como forma de
diminuir a tensão, faltava no limite de suas possibilidades.
Esse pedido de socorro possivelmente retrata a realidade de grande
número de professores que, em sua formação inicial, não adquiriram os
instrumentos mínimos para o exercício do magistério. Perdidos num cipoal
de teorias, em grande parte estéreis e mal interpretadas, os cursos de
formação acabam passando ao largo do desenvolvimento das competências
básicas de um professor. Os jovens educadores saem das faculdades sem
dominar o conteúdo que vão ensinar, os melhores métodos para o trabalho
com esses conteúdos, e sem desenvolver as habilidades de organização do
tempo e do espaço, bem como aquelas referentes às relações interpessoais
e às dinâmicas de funcionamento de grupos.
O mais grave parece ser o total divórcio entre teoria e prática, bem
como a inexistência de uma prática consistente. Em geral, a experiência
se resume a algumas "aulas", em situações totalmente artificiais. Assim,
as habilidades básicas da prática docente acabam sendo desenvolvidas na
dura experiência inicial que, quando muito traumáticas, provocam o
abandono do magistério, ou uma prática de absenteísmo desregrado.
Baseados nessa constatação, alguns programas propõem a
institucionalização da figura de um professor, com mais experiência, que
possa atuar como mentor dos mais jovens.
Se quisermos, entretanto, enfrentar o problema em sua raiz, urge
repensar os currículos de formação de professores. Pessoalmente, devo
muito ao trabalho desenvolvido como "professoranda". Aluna do Instituto
de Educação do Rio de Janeiro, numa época de grande carência de
professores na rede pública, participei de uma experiência em que o
conteúdo previsto para o último ano foi condensado num curso de férias,
para que assumíssemos uma turma durante todo o ano letivo. Um dia por
semana, tínhamos aulas de didática em que discutíamos os desafios,
trocávamos experiências e recebíamos orientações. Funcionava como uma
"residência", típica da área de saúde. Uma possibilidade de incluir a
experiência de residência em educação seria utilizar o período
probatório para o desenvolvimento de um programa estruturado para esse
fim.
Urgentíssima, porém, seria uma total reformulação do chamado estágio
curricular. Temos aí um grande campo de oportunidades. A experiência do
Projeto Entre Jovens, proposto pelo Instituto Unibanco, mostra-nos que
um programa de tutoria, desenvolvido como forma de estágio curricular,
pode se constituir num verdadeiro jogo de ganha-ganha. O projeto,
voltado para o desenvolvimento de pré-requisitos considerados
indispensáveis para o prosseguimento dos estudos, e que poderia ser
aplicado ao final de cada uma das etapas em que ocorre uma mudança de
estrutura curricular (quinta série, nona série e terceira série do
ensino médio), vem demonstrando impactos bastante consistentes.
Numa proposta de dar conta das lacunas de aprendizagem antes que se
avolumem, ganhariam os alunos, os professores, que não necessitariam
voltar a conceitos anteriores, e os futuros educadores, com uma efetiva
prática docente.
Assim é que uma situação de crise, que vem à tona por intermédio de
gritos de socorro de professores que se sentem despreparados para a
nobre missão de educar as novas gerações, pode representar uma
oportunidade de se repensar o processo de formação inicial e o desafio
de gargalos de aprendizagem que acabam determinando o abandono da
escola, tanto por parte de professores quanto de alunos.
Wanda Engel é superintendente-executiva do Instituto Unibanco.
Aconteceu num seminário sobre formação inicial de
professores, frente a um painel reunindo grandes expoentes na área de
educação, quando se franqueou a palavra ao público. A primeira
manifestação, vinda de uma jovem professora, fazia um apelo aos
especialistas para que lhe dessem uma luz, antes que tomasse a decisão
eminente de largar o magistério. Em seu relato emocionado, destacava
que, mesmo após cinco anos de magistério, ainda se considerava carente
de instrumentos metodológicos para realizar um bom trabalho. Seu
cotidiano era um verdadeiro inferno: sofria bullying por parte dos
alunos, não conseguia resultados e não sabia o que fazer. Como forma de
diminuir a tensão, faltava no limite de suas possibilidades.
Esse pedido de socorro possivelmente retrata a realidade de grande
número de professores que, em sua formação inicial, não adquiriram os
instrumentos mínimos para o exercício do magistério. Perdidos num cipoal
de teorias, em grande parte estéreis e mal interpretadas, os cursos de
formação acabam passando ao largo do desenvolvimento das competências
básicas de um professor. Os jovens educadores saem das faculdades sem
dominar o conteúdo que vão ensinar, os melhores métodos para o trabalho
com esses conteúdos, e sem desenvolver as habilidades de organização do
tempo e do espaço, bem como aquelas referentes às relações interpessoais
e às dinâmicas de funcionamento de grupos.
O mais grave parece ser o total divórcio entre teoria e prática, bem
como a inexistência de uma prática consistente. Em geral, a experiência
se resume a algumas "aulas", em situações totalmente artificiais. Assim,
as habilidades básicas da prática docente acabam sendo desenvolvidas na
dura experiência inicial que, quando muito traumáticas, provocam o
abandono do magistério, ou uma prática de absenteísmo desregrado.
Baseados nessa constatação, alguns programas propõem a
institucionalização da figura de um professor, com mais experiência, que
possa atuar como mentor dos mais jovens.
Se quisermos, entretanto, enfrentar o problema em sua raiz, urge
repensar os currículos de formação de professores. Pessoalmente, devo
muito ao trabalho desenvolvido como "professoranda". Aluna do Instituto
de Educação do Rio de Janeiro, numa época de grande carência de
professores na rede pública, participei de uma experiência em que o
conteúdo previsto para o último ano foi condensado num curso de férias,
para que assumíssemos uma turma durante todo o ano letivo. Um dia por
semana, tínhamos aulas de didática em que discutíamos os desafios,
trocávamos experiências e recebíamos orientações. Funcionava como uma
"residência", típica da área de saúde. Uma possibilidade de incluir a
experiência de residência em educação seria utilizar o período
probatório para o desenvolvimento de um programa estruturado para esse
fim.
Urgentíssima, porém, seria uma total reformulação do chamado estágio
curricular. Temos aí um grande campo de oportunidades. A experiência do
Projeto Entre Jovens, proposto pelo Instituto Unibanco, mostra-nos que
um programa de tutoria, desenvolvido como forma de estágio curricular,
pode se constituir num verdadeiro jogo de ganha-ganha. O projeto,
voltado para o desenvolvimento de pré-requisitos considerados
indispensáveis para o prosseguimento dos estudos, e que poderia ser
aplicado ao final de cada uma das etapas em que ocorre uma mudança de
estrutura curricular (quinta série, nona série e terceira série do
ensino médio), vem demonstrando impactos bastante consistentes.
Numa proposta de dar conta das lacunas de aprendizagem antes que se
avolumem, ganhariam os alunos, os professores, que não necessitariam
voltar a conceitos anteriores, e os futuros educadores, com uma efetiva
prática docente.
Assim é que uma situação de crise, que vem à tona por intermédio de
gritos de socorro de professores que se sentem despreparados para a
nobre missão de educar as novas gerações, pode representar uma
oportunidade de se repensar o processo de formação inicial e o desafio
de gargalos de aprendizagem que acabam determinando o abandono da
escola, tanto por parte de professores quanto de alunos.
Wanda Engel é superintendente-executiva do Instituto Unibanco.