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Fantasma da fome
03/11/2011
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=79936
Artigo de Xico Graziano publicado no jornal O Estado de São Paulo de hoje (1º).
Segundo as contas da ONU, o mundo acaba de
completar 7 bilhões de habitantes. "Hoje à noite precisamos abrir espaço
para 219 mil pessoas na mesa do jantar". Curiosa e dramática, a frase
de Lester Brown instiga o pensamento. Haverá comida para tanta gente?
A população humana atingiu seu primeiro bilhão em 1800. Naquela época
Thomas Malthus fez uma das previsões mais famosas da História,
afirmando que a população humana crescia em progressão geométrica
enquanto a produção de alimentos aumentava em progressão aritmética. A
tragédia da fome aproximava-se.
Demorou 130 anos para dobrar a população humana. E, ao contrário do
que se previra, a produção agrícola, impulsionada pela tecnologia, deu
conta do recado. A expansão das áreas cultivadas e o aumento da
produtividade por hectare afastou o temor do colapso alimentar. Somado
aos extraordinários avanços na medicina, que favoreceram a saúde
pública, o estouro demográfico na Terra acelerou-se. Em 1960 já éramos 3
bilhões de almas.
Os neomalthusianos se eriçaram. O intenso crescimento populacional no
chamado Terceiro Mundo levaria à catástrofe famélica. Novamente, porém,
a agronomia ajudou a derrotar o pessimismo, graças à força produtiva do
pacote tecnológico, assentado em quatro pilares: melhoramento genético,
mecanização, irrigação e quimificação (fertilizantes e defensivos). Em
1970, o Nobel da Paz laureou o agrônomo norte-americano Norman Borlaug,
pai da Revolução Verde.
Nos últimos 40 anos a produção rural saltou 150%, ante metade disso
na população. O processo da Revolução Verde deixou claro que a fome,
persistente em várias regiões do mundo, não se deve às deficiências da
produção, mas, sim, às dificuldades de sua distribuição na sociedade.
Quer dizer, uma culpa das desigualdades na renda. Sem dinheiro no bolso
falta comida na mesa. Malthus parecia esquecido definitivamente.
Ledo engano. Um temor pela escassez varre o mundo. Mesmo atenuado
pela queda da natalidade, o crescimento populacional está recebendo a
contribuição de novos fenômenos para pressionar a demanda alimentar.
Trata-se dos ganhos de renda da população nos países em desenvolvimento,
em sintonia com a urbanização, verificada na Ásia, especialmente.
Nesse contexto, a Agência das Nações Unidas para Agricultura e
Alimentação (FAO) estima que até 2050 a produção de alimentos - grãos e
carnes - precisará crescer entre 70% e 100% para atender à procura das
famílias. Não ocorrendo, haverá tendência global a majorar o preço médio
dos alimentos, afetando imensos contingentes populacionais. O fantasma
da fome ronda perigosamente a civilização.
O raciocínio antigo, viciado e simplista, logo pensa: bobagem, esse
assunto já se resolveu antes. Há coisas mais relevantes para preocupar a
humanidade, como, por exemplo, a devastação ambiental. Aqui, sim, o
panorama futuro surge assustador.
Confesso que ando meio desorientado, refletindo sobre essa matéria.
Não sou o único. A ameaça da fome coletiva, que angustia os estudiosos
há séculos, parece retomar uma espiral ascendente. Desta vez, porém,
vestiu uma nova complexidade. É como se a ecologia estivesse elevando ao
quadrado o problema resolvido até então pela agronomia. Explico-me.
A gradativa tomada de consciência pública sobre os problemas
ambientais estipula limites crescentes à expansão da agropecuária. A
sociedade não tolera mais o desmatamento. Antigamente a ocupação do
oeste norte-americano ou a mais recente derrubada da mata atlântica eram
sinônimos de progresso. Agora representam uma tragédia contra a
biodiversidade.
Basta ver, por aqui, a polêmica sobre o Código Florestal. Certos
ambientalistas combatem radicalmente as mudanças propostas, recebendo
enorme respaldo de mídia. Venerado na velha sociedade, o ruralismo
periga transformar-se em palavrão. Os esverdeados tempos modernos
azucrinam a agricultura.
Existem, ademais, limitações físicas à expansão dos cultivos. Nos
EUA, na Europa, na Austrália, no Oriente Médio e na China as terras
aráveis encontram-se totalmente ocupadas. Sofrem, ao contrário,
prejuízos trazidos pela desertificação de territórios e pelo
rebaixamento de lençóis freáticos. Encolhendo a irrigação, cai junto a
produção.
Grosso modo, o homem apropriou-se produtivamente de dois terços da
Terra. No terço restante localizam-se a Amazônia, as savanas africanas,
as florestas asiáticas, as tundras geladas, áreas preservadas. Explorar
tais espaços em nome da segurança alimentar vai dar encrenca, agravando a
crise ecológica.
O preocupante cenário indica que entre preservar e produzir é preciso
fazer as duas coisas. Só que ninguém sabe direito como. Alguns
vislumbram que os produtos transgênicos venham a ser a solução do
dilema, elevando a produtividade das áreas já exploradas. Aos
ambientalistas soa como uma ironia da História.
Tudo anda contraditório. O aquecimento global, por um lado,
compromete a produção tropical de alimentos e, por outro, vai liberar
terras geladas para o plantio. O confinamento de animais dispensa
pastagens, mas exige rações processadas com grãos, cujo cultivo aumenta.
Energia renovável da biomassa pode roubar terra do alimento.
Engana-se redondamente quem pensa ser fácil vencer o moderno desafio
da fome. Há quem sugira a dieta vegetariana obrigatória - falta
convencer quem começou agora a comer picanha. Combater o desperdício -
incluindo a gula da obesidade. Ingerir proteicos insetos - basta
esquecer o nojo. Soluções ousadas, não impossíveis.
O caminho da sabedoria passa pela humildade. Se vencer a arrogância
típica da humanidade, enterra Malthus de vez. Senão virá a crise.
Xico Graziano é agrônomo e foi secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo.
Segundo as contas da ONU, o mundo acaba de
completar 7 bilhões de habitantes. "Hoje à noite precisamos abrir espaço
para 219 mil pessoas na mesa do jantar". Curiosa e dramática, a frase
de Lester Brown instiga o pensamento. Haverá comida para tanta gente?
A população humana atingiu seu primeiro bilhão em 1800. Naquela época
Thomas Malthus fez uma das previsões mais famosas da História,
afirmando que a população humana crescia em progressão geométrica
enquanto a produção de alimentos aumentava em progressão aritmética. A
tragédia da fome aproximava-se.
Demorou 130 anos para dobrar a população humana. E, ao contrário do
que se previra, a produção agrícola, impulsionada pela tecnologia, deu
conta do recado. A expansão das áreas cultivadas e o aumento da
produtividade por hectare afastou o temor do colapso alimentar. Somado
aos extraordinários avanços na medicina, que favoreceram a saúde
pública, o estouro demográfico na Terra acelerou-se. Em 1960 já éramos 3
bilhões de almas.
Os neomalthusianos se eriçaram. O intenso crescimento populacional no
chamado Terceiro Mundo levaria à catástrofe famélica. Novamente, porém,
a agronomia ajudou a derrotar o pessimismo, graças à força produtiva do
pacote tecnológico, assentado em quatro pilares: melhoramento genético,
mecanização, irrigação e quimificação (fertilizantes e defensivos). Em
1970, o Nobel da Paz laureou o agrônomo norte-americano Norman Borlaug,
pai da Revolução Verde.
Nos últimos 40 anos a produção rural saltou 150%, ante metade disso
na população. O processo da Revolução Verde deixou claro que a fome,
persistente em várias regiões do mundo, não se deve às deficiências da
produção, mas, sim, às dificuldades de sua distribuição na sociedade.
Quer dizer, uma culpa das desigualdades na renda. Sem dinheiro no bolso
falta comida na mesa. Malthus parecia esquecido definitivamente.
Ledo engano. Um temor pela escassez varre o mundo. Mesmo atenuado
pela queda da natalidade, o crescimento populacional está recebendo a
contribuição de novos fenômenos para pressionar a demanda alimentar.
Trata-se dos ganhos de renda da população nos países em desenvolvimento,
em sintonia com a urbanização, verificada na Ásia, especialmente.
Nesse contexto, a Agência das Nações Unidas para Agricultura e
Alimentação (FAO) estima que até 2050 a produção de alimentos - grãos e
carnes - precisará crescer entre 70% e 100% para atender à procura das
famílias. Não ocorrendo, haverá tendência global a majorar o preço médio
dos alimentos, afetando imensos contingentes populacionais. O fantasma
da fome ronda perigosamente a civilização.
O raciocínio antigo, viciado e simplista, logo pensa: bobagem, esse
assunto já se resolveu antes. Há coisas mais relevantes para preocupar a
humanidade, como, por exemplo, a devastação ambiental. Aqui, sim, o
panorama futuro surge assustador.
Confesso que ando meio desorientado, refletindo sobre essa matéria.
Não sou o único. A ameaça da fome coletiva, que angustia os estudiosos
há séculos, parece retomar uma espiral ascendente. Desta vez, porém,
vestiu uma nova complexidade. É como se a ecologia estivesse elevando ao
quadrado o problema resolvido até então pela agronomia. Explico-me.
A gradativa tomada de consciência pública sobre os problemas
ambientais estipula limites crescentes à expansão da agropecuária. A
sociedade não tolera mais o desmatamento. Antigamente a ocupação do
oeste norte-americano ou a mais recente derrubada da mata atlântica eram
sinônimos de progresso. Agora representam uma tragédia contra a
biodiversidade.
Basta ver, por aqui, a polêmica sobre o Código Florestal. Certos
ambientalistas combatem radicalmente as mudanças propostas, recebendo
enorme respaldo de mídia. Venerado na velha sociedade, o ruralismo
periga transformar-se em palavrão. Os esverdeados tempos modernos
azucrinam a agricultura.
Existem, ademais, limitações físicas à expansão dos cultivos. Nos
EUA, na Europa, na Austrália, no Oriente Médio e na China as terras
aráveis encontram-se totalmente ocupadas. Sofrem, ao contrário,
prejuízos trazidos pela desertificação de territórios e pelo
rebaixamento de lençóis freáticos. Encolhendo a irrigação, cai junto a
produção.
Grosso modo, o homem apropriou-se produtivamente de dois terços da
Terra. No terço restante localizam-se a Amazônia, as savanas africanas,
as florestas asiáticas, as tundras geladas, áreas preservadas. Explorar
tais espaços em nome da segurança alimentar vai dar encrenca, agravando a
crise ecológica.
O preocupante cenário indica que entre preservar e produzir é preciso
fazer as duas coisas. Só que ninguém sabe direito como. Alguns
vislumbram que os produtos transgênicos venham a ser a solução do
dilema, elevando a produtividade das áreas já exploradas. Aos
ambientalistas soa como uma ironia da História.
Tudo anda contraditório. O aquecimento global, por um lado,
compromete a produção tropical de alimentos e, por outro, vai liberar
terras geladas para o plantio. O confinamento de animais dispensa
pastagens, mas exige rações processadas com grãos, cujo cultivo aumenta.
Energia renovável da biomassa pode roubar terra do alimento.
Engana-se redondamente quem pensa ser fácil vencer o moderno desafio
da fome. Há quem sugira a dieta vegetariana obrigatória - falta
convencer quem começou agora a comer picanha. Combater o desperdício -
incluindo a gula da obesidade. Ingerir proteicos insetos - basta
esquecer o nojo. Soluções ousadas, não impossíveis.
O caminho da sabedoria passa pela humildade. Se vencer a arrogância
típica da humanidade, enterra Malthus de vez. Senão virá a crise.
Xico Graziano é agrônomo e foi secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo.