Voltar para Notícias

A "desagropecuarização" silenciosa do Brasil

01/11/2011 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=79911
Artigo de Roberto Simões publicado no Valor Econômico de hoje (31).
A evolução das condições macroeconômicas do Brasil
fez surgir, nos últimos meses, a discussão sobre uma iminente
"desindustrialização" do País, ou seja, a perda de competitividade da
indústria nacional frente a similares importados, levando ao fechamento
de empresas, mudança ou terceirização da produção em outros países e,
consequentemente, à perda de postos de trabalho. As justificativas
principais são a valorização do real frente ao dólar e a falta de uma
política de apoio à indústria nacional.
 
A sombra do mesmo processo paira sobre a agropecuária brasileira. No
nosso caso, há um fator agravante às questões econômicas e estruturais: a
diplomacia brasileira e as negociações comerciais danosas envolvendo
alguns produtos agropecuários, a maioria sensível à concorrência
desigual entre países, cuja importação, consequentemente, tem crescido
em detrimento da produção nacional.
 
Silenciosa e continuamente, o governo federal vem normatizando a
importação de produtos de diversos países. Somente entre 2008 até os
primeiros oito meses de 2011, considerando-se apenas os produtos
agrícolas nos quais o Brasil é autossuficiente, foi normatizada pelo
Ministério da Agricultura a importação de 21 itens, entre eles café,
cebola, cenoura, castanha de caju, laranja, mandioca, vagem, pimentão e
folhas de fumo. A banana e outros hortícolas provenientes do Equador
estão na fila de espera para regulamentação.
 
A origem desses produtos inclui países de duvidosa importância
comercial para o Brasil, como os africanos Guiné Bissau, Nigéria, Benin,
Gana e Costa do Marfim; países latino-americanos, como México, Bolívia e
Peru; europeus, como Portugal e Itália; além dos parceiros do Mercosul.
 
O caso mais recente dessa política brasileira foi a negociação
comercial com o Uruguai, no final do governo Lula, que abriu o mercado
brasileiro à importação de lácteos provenientes daquele país, em troca
de uma cota de exportação de 150 mil toneladas anuais de carne de
frango.
 
A primeira pergunta é: se nos foi imposta uma cota, por que a
reciprocidade brasileira é ilimitada? Os impactos já são sentidos no
mercado interno e a produção uruguaia cresce à taxa superior a 15% em um
ano. Já a produção brasileira deve crescer menos do que em 2010, quando
aumentou cerca de 7%.
 
Nos primeiros sete meses deste ano já entraram no Brasil 50 mil
toneladas de leite em pó, aumento de quase 70% em relação a 2010. Se o
ritmo permanecer o mesmo até o final deste ano, as importações
alcançarão mais de 85 mil toneladas. Este volume equivale a cerca de 880
milhões de litros de leite in natura, o correspondente ao processamento
anual da quarta maior empresa de laticínios instalada no País.
 
Também preocupa os nossos produtores a recente promessa brasileira em
reabrir o mercado para a banana equatoriana, fechado desde o início dos
anos 90 por questões sanitárias. A cadeia produtiva da banana no
Equador, totalmente voltada para exportação, é controlada por
multinacionais norte-americanas, que têm pesada estrutura para
distribuir em todo o mundo as frutas que produzem no Equador e em outros
países da América Latina. Com essas "gigantes" na coordenação da cadeia
produtiva local, é significativamente restringida a participação dos
produtores locais na cadeia de valor da banana. No Brasil, a presença da
banana importada nas grandes redes de varejo pode levar um grande
número de produtores a abandonar a atividade.
 
Um exemplo claro de substituição da produção interna pela importação
em condições desiguais de competitividade foi a abertura do mercado
brasileiro ao alho chinês, na década de 90. Até então, a produção
nacional de alho abastecia 90% da demanda interna. Em 2010, de um
consumo estimado de 240 mil toneladas do bulbo no País, 63% foram
importados, segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Alho. Até
agosto de 2011, o Brasil já gastou R$ 417 milhões em compras de alho e
também de cebola. Como consequência, a produção nacional de cebola deve
cair 7% em relação a 2010, conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística).
 
Os produtores brasileiros já são diuturnamente desafiados a
sobreviverem em condições as mais adversas, com logística cara e
ineficiente, carga tributária proibitiva, taxas de juros e prazos de
pagamento incompatíveis com a atividade, frágil política de seguro rural
e falta de assistência técnica, dentre inúmeros outros entraves. Mesmo
assim, fazemos a mais importante e eficiente agropecuária tropical do
planeta. Dentro da porteira vimos demonstrando nossa capacidade e
aprendemos a lidar com a competição das commodities nos principais
mercados do mundo.
 
Mas, os pequenos e médios produtores voltados para o abastecimento
interno não estão preparados para uma competição internacional sob
condições desiguais. Não se trata de pedir protecionismo, contra o qual
lutamos nos principais mercados para os quais exportamos. Trata-se de
pedir condições iguais de competição, sob pena de termos à mesa apenas
alho chinês, banana equatoriana e leite argentino e uruguaio.
 
Roberto Simões é presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do
Estado de Minas Gerais (FAEMG) e do Conselho Deliberativo do Sebrae
Nacional (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).
Menu Principal

Minha Conta

Seu Carrinho

0 item(s)

Faça login para ver seu carrinho.

Entrar
Subtotal R$ 0,00

Frete e descontos calculados no checkout.

Finalizar Compra