Voltar para Notícias

Integrar instituições e criar caminhos para a inovação

27/10/211 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=79855
Artigo de Vanderléia Radaelli e Hérica Morais Righi publicado no Valor Econômico de hoje (26).
Poucos são os termos capazes de sintetizar de forma
simultânea o abstrato e o concreto para dar fuga ao que foi feito ou ao
que deveria ter sido como o da inovação. Não há um único jornal diário
ou revista de negócios que não traga diariamente o mantra da necessidade
de inovar para melhorar o que se faz ou para justificar o que foi feito
e cujos resultados não foram tão bons assim. Esse artigo não vai fugir a
essa regra.
 
Na indústria, a inovação passou a ser fim e meio na incessante busca
por melhores condições competitivas. O Brasil tem mostrado um
protagonismo importante na América Latina, desde o começo dos anos 2000,
ao criar e aperfeiçoar ações em prol da incorporação das atividades de
inovação entre os principais atores do chamado sistema nacional de
inovação.
 
Todo o arsenal disponibilizado nas economias avançadas foi criado
aqui tais como as leis de inovação e de incentivos fiscais, instrumentos
de apoio e fomento a empresas, universidades e centros de pesquisas a
partir de recursos públicos ou de iniciativas público-privadas. Do lado
do governo, o reconhecimento público da importância do tema vem sendo
confirmado pelas sucessivas edições da Conferência Nacional de Ciência e
Tecnologia. A indústria, por sua vez, firmou publicamente em 2009 o seu
compromisso com o lançamento do Manifesto pela Inovação nas Empresas
liderado pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI) em associação
com empresários industriais.
 
As condições institucionais, pelo menos em teoria, estão dadas, ainda
que ajustes pontuais sejam necessários como o número de empresas
beneficiadas pela Lei do Bem ou maior clareza e ciência dos instrumentos
já existentes. No entanto, a complexidade da economia brasileira aliada
às incertezas, custos e riscos em torno da inovação, que exigem a
priori uma mudança cultural no empresário e no empreendedor, tem
levantado dúvidas com relação à incorporação do tema na prática.
Informações da Pintec (Pesquisa de Inovação Tecnológica) mostram que a
maioria das empresas inovou internamente e não para o mercado nacional,
ressaltando pequeno esforço voltado para a geração de tecnologias
inéditas e a incessante corrida para alcançar os líderes do mercado.
 
Esse resultado é preocupante, e em certa medida desanimador. Mostra
que parte da indústria brasileira ainda elege como estratégia
competitiva a busca por conhecimentos e tecnologias produzidos por
outros agentes, negligenciando seu próprio papel na obtenção de
vantagens competitivas oriundas da capacidade de mesclar conhecimentos
complementares: aqueles gerados internamente, no âmbito da própria
empresa, com aqueles disponíveis no mercado e de apropriação econômica.
 
A persistência desse cenário se deve em parte à falta de um sistema
integrado que torne o ambiente mais favorável à inovação. Ainda que a
indústria se configure como o principal agente do processo inovativo,
este não é exequível sem o apoio de outras instituições que constituam
um sistema formado por produção de conhecimento, incentivos
institucionais e financiamento às atividades de pesquisa e
desenvolvimento (P&D).
 
Dentre os atores desse sistema destaca-se a universidade, responsável
pela produção de conhecimento científico e formação profissional. Em
países desenvolvidos como os Estados Unidos e Alemanha, observa-se uma
cumplicidade entre a esfera científica e a tecnológica. Grande parte das
universidades, desde sua fundação, prioriza em suas atividades a
economia local e atendem à necessidade do meio em que está inserida.
Desenvolveu-se um relacionamento de apoio mútuo entre universidade e
indústria que assegura a competitividade e forma grandes pólos de
produção de tecnologia, como o tão conhecido Silicon Valley na
Califórnia (berço da Apple, Google, Hewlett-Packard, Intel, dentre
outras).
 
No Brasil, por sua vez, ainda não há um relacionamento estreito entre
essas duas esferas institucionais. As relações existentes se mostram
imediatistas e esporádicas e não possuem lastro em um processo de
retroalimentação. A Pintec mostra que 10,4% das empresas que
implementaram inovações o fizeram em projetos cooperativos e 36,3%
desses foram com universidades e/ou institutos de pesquisa. A
fragilidade dessas conexões prejudica a consolidação do sistema e por
extensão compromete o desenvolvimento econômico e social, como já se
observa em algumas cidades que até poucos anos eram símbolo da
exuberância empresarial e hoje estão tentando encontrar sua identidade
frente à dinâmica imposta pelo vigor da concorrência global.
 
A grande lição é que o termo inovação, assim como sua própria
execução prática, pode traduzir fragilidades estruturais e uma
infinidade de relações indiretas que vão muito além da criação de
políticas e incentivos institucionais. A criação de ferramentas que
viabilizem na prática o diálogo entre as universidades e a indústria tem
se mostrado o pilar central do perfil e dos condicionantes do esforço
brasileiro numa perspectiva já no médio prazo. E, nesse contexto, evitar
a descontinuidade de políticas, que impedem o investimento contínuo e
deixam as empresas à mercê de interesses não econômicos, deve ser a
diretriz orientadora para os membros desse sistema.
 
A cooperação entre universidade e indústria não acontece
repentinamente, nem é imposta, é preciso criar uma relação de confiança,
formar competências, concentrar esforços em aprendizado nos agentes, e
acima de tudo, entender as necessidades e interesses de cada uma das
partes envolvidas nesse relacionamento. É um trabalho intenso, penoso e
de longo prazo!
 
Vanderléia Radaelli é especialista em Ciência e Tecnologia do Banco
Interamericano de Desenvolvimento (BID), economista e doutoranda em
Política Científica e Tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp). Hérica Morais Righi é professora assistente da Fundação Dom
Cabral, economista e doutoranda em Política Científica e Tecnológica
pela Unicamp.
Menu Principal

Minha Conta

Seu Carrinho

0 item(s)

Faça login para ver seu carrinho.

Entrar
Subtotal R$ 0,00

Frete e descontos calculados no checkout.

Finalizar Compra