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Amazônia, energia elétrica e sustentabilidade

05/10/2011 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=79548
Artigo de Joaquim Francisco de Carvalho e Ildo Luís Sauer publicado no Valor Econômico de hoje (4).
Imagens colhidas de satélites meteorológicos
mostram que o clima da Amazônia exerce forte influência sobre os regimes
hidrológicos e pluviométricos de toda a América do Sul, e garante a
estabilidade climática, fluvial e pluviométrica - portanto, a
sustentabilidade da agricultura - de todo o Brasil.
 
Assim, a Amazônia vale pela importância de seus próprios
ecossistemas. Enquanto não se acumularem e testarem suficientes
conhecimentos científicos e técnicos sobre os intrincados ecossistemas
regionais, a Amazônia deve ser mantida em sua integridade, evitando-se,
principalmente, a pecuária extensiva, a ampliação de monoculturas de
exportação (soja, milho etc.), a exploração madeireira e a implantação
de novos projetos de mineração.
 
Apesar da polêmica desencadeada pelas organizações ambientalistas, a
alternativa mais interessante para se desenvolver a Amazônia, mantendo a
sua integridade, seria a de aproveitar o potencial dos recursos
naturais renováveis da região, com projetos de turismo ecológico,
extrativismo e geração de energia elétrica. Além de serem excelentes
geradores de empregos e uniformizarem a distribuição de renda na região,
o turismo ecológico e o extrativismo dependem da integridade do
ecossistema.
 
Quanto è geração de energia elétrica, a Amazônia tem um dos maiores
potenciais do mundo e, mediante políticas inteligentes e rigorosamente
aplicadas, as empresas públicas e o empresariado do setor de geração
elétrica deverão se transformar nas maiores defensoras do ecossistema
amazônico. Alterações causadas por desmatamentos para abrir terrenos
para plantações de soja e milho, criação de gado, projetos de exploração
mineral e outros comprometerão o potencial hidrelétrico, inviabilizando
as próprias usinas.
Admitamos que, por motivos de caráter social e ambiental, os planos
de expansão do sistema elétrico sejam reformulados, para se limitar em
80% o potencial hidrelétrico a aproveitar na Amazônia - e que as
hidrelétricas a serem implantadas naquela região alaguem 0,2 km2 /MW. O
que é uma hipótese conservadora, pois a maioria dos aproveitamentos
existentes em outras regiões e em construção, na própria Amazônia,
apresenta uma relação bem menor entre área inundada e potência
instalada. Neste caso o aproveitamento do potencial hidrelétrico
amazônico ocuparia cerca de 0,4% da área da região, ou seja, menos do
que os grandes projetos agrícolas ou de pecuária.
 
Mesmo assim o Brasil poderá adicionar uma capacidade hidrelétrica de
148,7 GW aos 79,3 GW já instalados. Somando-se a isto os 17 GW das
pequenas hidrelétricas, teremos uma capacidade hidrelétrica total de 245
GW.
 
No entanto, as ONGs ambientalistas optam por uma posição
fundamentalista, baseada no dogma de que a Amazônia é intocável. É certo
que os ecossistemas amazônicos são delicados, mas isso não significa
que ficarão estacionados em sua condição primordial, se é que se possa
falar em condição primordial de sistemas que se vêm alterando desde a
origem, como todos os ecossistemas terrestres.
 
Com ou sem hidrelétricas, os povos indígenas (que fazem parte do
ecossistema amazônico) vão continuar com as derrubadas e queimadas de
matas, tradicionais em sua agricultura. E ainda há as mineradoras, o
agronegócio e os pecuaristas, sobre os quais as ONGs ambientalistas
ficam silenciosas, preferindo vociferar contra o aproveitamento do
potencial hidrelétrico, que poderá dar ao Brasil um sistema elétrico
limpo e sustentável.
 
A interligação do sistema hidrelétrico com o sistema eólico
permitiria que parte da energia gerada pelas centrais eólicas ficasse
"armazenada", na forma de água acumulada nos reservatórios hidrelétricos
- de maneira semelhante às malhas termo-eólicas de alguns países
europeus, nas quais a energia dos parques eólicos permite que se
economize gás natural ou óleo combustível. Segundo o Centro de Pesquisas
em Energia Elétrica da Eletrobras, o potencial eólico brasileiro (com
turbinas em torres de 50 metros) é de 143 GW. Note-se que, com torres
mais altas, o potencial é maior.
 
O sistema hidroeólico poderia operar em sinergia com usinas
termelétricas a biomassa, pois a frota automotiva brasileira é em grande
parte alimentada com etanol, forçando a produção do bagaço de cana em
escala suficiente para alimentar termelétricas de pequeno e médio porte,
totalizando, em conjunto, uma capacidade da ordem de 15 GW, segundo a
União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).
 
Assim, aproveitando apenas fontes primárias limpas e renováveis, o
sistema interligado hidroeólicobiotérmico teria uma capacidade conjunta
de 403 GW, podendo gerar 1.589 GW por hora firmes por ano, admitindo-se,
conservadoramente, que o fator de capacidade do sistema integrado será
igual à média ponderada dos fatores de capacidade de cada sistema
isoladamente, que é 0,45.
 
Por outro lado, de acordo com o IBGE, a população brasileira deverá
se estabilizar em 215 milhões de habitantes, por volta do ano 2040, de
modo que o sistema integrado hidroeólicobiotérmico teria um potencial
suficiente para oferecer à população 7.390 kWh por habitante por ano,
equiparando o Brasil a países de alto nível de qualidade de vida, tais
como a França, a Alemanha e a Grã-Bretanha.
 
A reserva de segurança do sistema hidroeólicobiotérmico seria
constituída pelas termelétricas a gás já existentes nas diversas regiões
do país. Portanto, ao contrário de alguns países europeus e do Japão
que, em médio prazo, não têm melhor alternativa, o Brasil não precisa
correr o risco de gerar em centrais nucleares a energia elétrica de que
precisa ou precisará.
 
Joaquim Francisco de Carvalho é pesquisador associado ao IEE/USP e
ex-diretor industrial da Nuclen (atual Eletronuclear). Ildo Luís Sauer é
diretor do IEE/USP e ex-diretor de energia e gás da Petrobras.
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