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Uma nova concepção para ensinar exatas

27/09/2011 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=79424
Artigo de Paulo Blikstein publicado na Folha de São Paulo de domingo (25).
Nos Estados Unidos, dos 3,7 milhões que entraram na
primeira série em 1984, só 20% declararam interesse em carreiras em
ciências exatas na sétima série, e 4,5% se formaram nessa área. Agora, o
governo americano percebeu o óbvio e tenta remediá-lo: a escola afasta
os jovens das carreiras científicas. O ensino de ciências exatas nos
EUA, como no Brasil, é uma longa preparação para a graduação nessas
áreas, ignorando que só 5% vão cursá-las. Fazemos dele uma aborrecida
sequência de tópicos sem utilidade ou função cognitiva.
 
Os alunos nunca fazem ciência ou engenharia de verdade, nunca se
aventuram em descobrir algo novo ou resolver um problema real; aprendem
só o "básico", que, em grande parte, ignora os avanços científicos dos
últimos 50 anos. O resultado é que 80% não se identificam com as
ciências exatas já na sétima série - época em que se forma a identidade
intelectual da criança.
 
Um novo tipo de currículo ao mesmo tempo beneficiaria os que não
serão engenheiros, já que terão uma experiência positiva com as exatas e
não serão adultos com medo de matemática, e aumentaria o número de
crianças interessadas em carreiras nos campos da ciência e da
engenharia.
 
O erro é achar que a ciência e a matemática são pré-requisitos para a
invenção; na verdade, histórica e cognitivamente, essas disciplinas são
simultâneas à invenção. A história da ciência mostra que ela não avança
no vácuo, mas sim para resolver problemas reais. É esse o motor
cognitivo e motivacional que move o inventor, o cientista e, é claro, o
aluno.
 
Além disso, mesmo um "mau" aluno em matemática pode ser um ótimo
engenheiro. A engenharia está cada vez mais próxima do design e mais
longe do modelo calculista. Os computadores fazem a "matemática" da
engenharia, deixando para o profissional o trabalho criativo. Os
currículos mais avançados do mundo estão substituindo habilidades
aritméticas e memorização por modelagem matemática e resolução de
problemas complexos.
 
Nossas escolas têm quadras para as aulas de educação física e
bibliotecas para estimular a leitura, mas não instituímos um lugar para
ensinar invenção, tecnologia e criatividade. É preciso um espaço
apropriado para tanto. Em Stanford, criei o projeto FabLab@School: são
laboratórios de invenção nas escolas, espaços permanentes, com
professores especialmente treinados e materiais didáticos
especializados.
 
Esses laboratórios contam com equipamentos de última geração, com a
ajuda dos quais alunos criam projetos de engenharia e teorias
científicas, colaborando com colegas espalhados pelo planeta. São
lugares projetados para atrair todos os alunos, não exclusivamente os
que já nutrem um pendor pelas ciências exatas.
 
O que escolhemos ensinar nas escolas é só uma parte do conhecimento
existente. Teoricamente, ensina-se o que a sociedade acha mais
importante, mas o que de fato sobrevive no currículo é o que é fácil de
ser medido com provas e o que funciona com aula expositiva. As vítimas
são a ciência e a tecnologia, que só são devidamente aprendidas quando
os alunos trabalham em projetos, fora da aula tradicional.
 
Se não percebermos que o que precisamos ensinar no século 21 não se
encaixa nesse modelo, ficaremos prisioneiros dos conteúdos que são
ensináveis dentro dos limites dele - como algoritmos de aritmética hoje
tão úteis como saber ler um relógio de sol. Sem um lugar e alguns cursos
especiais para a invenção e a criatividade, não se desenvolve o
entusiasmo pela engenharia. E sem ele, há pouca esperança de que
tenhamos mais engenheiros no século 21.
 
Paulo Blikstein é professor na Universidade Stanford.
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