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Choque de eficiência

25/08/2011 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=78996
Um plano
nacional de eficiência energética recebe os últimos ajustes do
Ministério de Minas e Energia (MME) para lançamento nas próximas
semanas, prevendo incentivos financeiros e outros subsídios para o setor
sair da inércia.
Poupar energia não costuma ser o ponto forte de um
país como o Brasil, com economia em crescimento e fartura de rios para
hidrelétricas. O padrão começou a mudar quando a crise gerada pelo
apagão de 2001, resultado da seca que esvaziou reservatórios, acendeu a
luz vermelha para os riscos do consumo desmedido. O alerta, hoje
estratégico para a competitividade no cenário de mudanças climáticas,
mobiliza governo e empresas.
 
Um plano nacional de eficiência energética recebe os últimos ajustes
do Ministério de Minas e Energia (MME) para lançamento nas próximas
semanas, prevendo incentivos financeiros e outros subsídios para o setor
sair da inércia. "A meta é atingir em 2030 economia de 106 Twh/ano,
equivalente à geração de uma usina de Itaipu", anuncia Hamilton Moss de
Souza, diretor do Departamento de Desenvolvimento Energético do MME.
 
"A partir das diretrizes do documento, o próximo passo é o
detalhamento de ações e responsabilidades", acrescenta Souza. Ele avalia
que o processo de consulta pública, concluído em janeiro, gerou alto
grau de comprometimento. "O plano integrará esforços já existentes para
priorizar atividades, alocar recursos e abrir novas janelas de
oportunidades", explica o diretor. Deverão ser ampliadas iniciativas que
nos últimos anos surtiram efeito positivo, como o Procel (Programa
Nacional de Conservação de Energia Elétrica), que diferencia
eletrodomésticos mais eficientes. "Com planejamento, os recursos podem
vir com maior velocidade e abrangência."
 
"Medidas são urgentes contra o desperdício de eletricidade,
responsável por perdas de R$ 12 bilhões por ano no Brasil", adverte José
Starosta, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Serviços
de Conservação de Energia (Abesco). A entidade reclama do governo metas
mais ambiciosas. A economia projetada no plano em fase final de redação é
quatro vezes inferior ao que as empresas se propõem a realizar. "O
atual prejuízo resulta da falta de legislação e incentivo", afirma
Starosta, acrescentando que "é necessário criar mecanismos para aumentar
a eficiência na prática e definir como a conta será paga".
 
A contar pelos empreendimentos já implantados no país, há viabilidade
para uma economia energética de 11%, o que significa 46 Twh por ano,
igual ao consumo anual da capital paulista. Com base em dados da Abesco,
esse nível de economia seria alcançado mediante investimento de R$ 60
bilhões em três anos. "No entanto, faltam modelos de crédito compatíveis
com o setor", afirma Armando Ricardi presidente do conselho da
entidade. O BNDES reconhece que o volume de financiamento já liberado
para projetos de eficiência energética, no total de R$ 33,4 milhões,
está abaixo das expectativas. A linha de apoio está sendo reformulada
para ter maior capilaridade e agilidade.
 
No conceito de "geração virtual", a economia no uso permite "sobras"
de energia que podem ser incorporadas por outras atividades. "Falta
suprimento para bancar o crescimento econômico e não dá para contar
apenas com hidrelétricas", enfatiza Ricardi. No caso das fontes
tradicionais, o custo para se colocar 1 MWh a mais no mercado é de R$
138 - o dobro do necessário para mesma geração via eficiência
energética, que deixa de ser algo periférico e tende a incorporar os
benefícios já existentes no mercado de energia eólica e biomassa.
 
O plano do governo prevê medidas de economia no setor público, hoje
responsável por cerca de 40% do desperdício de energia no país - espaço a
ser explorado pelo negócio da eficiência energética, que movimenta R$
1,5 bilhão por ano. As empresas do segmento faturam conforme a economia
que proporcionam no consumo dos clientes.
 
"A principal barreira é a Lei Federal 8666, sobre licitações, que
precisa ser revisada para permitir contratos remunerados por
desempenho", afirma o deputado federal Arnaldo Jardim (PPS-SP), que
lidera o debate sobre o tema no Congresso Nacional. "O novo plano do
governo deve ser descentralizado nos municípios e nas ações locais das
concessionárias de energia", propõe. Hoje as distribuidoras são
obrigadas por lei a aplicar 1% do faturamento líquido no uso racional.
"A redução do desperdício poderá chegar a R$ 83 bilhões até 2030, com
corte de 25 milhões de toneladas de carbono", diz Jardim, citando estudo
da Confederação Nacional da Indústria.
 
O setor industrial absorve 43,7% da energia elétrica brasileira e
medidas regulatórias estão por vir. A Cetesb, agência ambiental
paulista, estuda exigir projetos de eficiência para renovação das
licenças. "O item já entra na classificação de risco dos bancos", revela
Rodrigo Aguiar, da AGES Consultoria, que pilota um programa nacional
para modernização e melhoria do consumo em redes hoteleiras, envolvendo
investimentos de R$ 500 milhões.
 
"Se o Brasil relegar o assunto a segundo plano, acomodando-se com a
disponibilidade hídrica, perderá oportunidades, com risco de problemas
no futuro", adverte Marco Antonio Saidel, da Escola Politécnica da USP,
um dos especialistas que contribuíram para elaborar o plano nacional.
(Valor Econômico)
 
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