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Eficiência vegetal

17/08/2011 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=78874
Etanol brasileiro ainda é a mais promissora forma de uso da bioenergia.
As constantes disparadas no preço do petróleo e a
crescente preocupação com o meio ambiente fizeram muitos países voltarem
seus olhos para a bioenergia como alternativa tanto para movimentar
suas frotas de veículos quanto para gerar eletricidade. E o Brasil tem
todas as condições de manter a liderança na área. Segundo Carlos
Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o álcool de cana-de-açúcar
brasileiro continuará sendo a mais promissora tecnologia de bioenergia
disponível no planeta, não devendo ser superada tão cedo.
 
Milho modificado para produzir mais álcool gera polêmica nos EUA - Atualmente,
cientistas estudam desde microalgas e bactérias geneticamente
modificadas até o sorgo sacarino e plantas suculentas do gênero Jatropha
- que inclui a brasileiríssima mamona - como fontes potenciais para a
produção de biocombustíveis. Nenhuma destas opções, no entanto, está
perto da economia, produtividade e escala já alcançados pela cana.
 
"Todas as outras alternativas apresentadas até agora têm um custo
econômico e/ou ecológico maior que o sistema brasileiro de fermentar a
sacarose da cana" conta Cruz, que participa da 1ª Conferência Brasileira
de Ciência e Tecnologia em Bioenergia, evento que reúne esta semana
especialistas, pesquisadores e empreendedores em discussões sobre os
avanços na área.
 
De acordo com Cruz, o pioneirismo no uso do álcool faz com que o
Brasil tenha uma rara liderança em uma questão que envolve ciência e
tecnologia. Ele lembra que, ao contrário do que se pensa, essa vantagem
não começou a ser construída só com o Pró-Álcool, nos anos 70, mas muito
antes, em 1929, quando foi publicada a primeira lei que determinava a
adição de álcool à gasolina.
 
"Essa liderança na bioenergia aconteceu porque entramos neste ramo
bem antes dos demais países. Nossa relação com cana, álcool e açúcar é
bem antiga e vem desde os tempos de colônia", avalia.
 
O diretor da Fapesp destaca, no entanto, que a cana não pode ser
usada por todos os países, já que a planta não se adapta a climas mais
frios. A aposta dos EUA no etanol de milho, no entanto, é considerada
"uma tragédia" por Cruz. Segundo ele, enquanto a cana gasta uma unidade
de energia de combustíveis fósseis para gerar nove novas unidades, no
milho essa proporção fica entre 0,8 e 1,3 unidade de energia geradas a
partir de cada uma gasta.
 
"Ou seja, no etanol de milho, ou se perde ou se ganha muito pouco" afirma.
 
Para tentar melhorar essa conta, agricultores americanos começaram a
plantar recentemente a primeira cultura de milho geneticamente
modificado para produzir mais etanol. O milho, desenvolvido pela empresa
suíça de pesticidas Syngenta, contém um gene a mais para que produza a
enzima amilase, que acelera a quebra de seus carboidratos em etanol. As
usinas de álcool geralmente têm que adicionar a enzima ao milho para
fabricar o etanol.
 
Chamado Enogen, o milho modificado está sendo plantado comercialmente
pela primeira vez em cerca de 5 mil acres de terra nos limites do
chamado "cinturão do milho americano" no estado de Kansas.
 
Para Cruz, o etanol de celulose é a melhor e mais promissora aposta
para o futuro, além da cana, apesar de admitir que ele só deve atingir o
custo competitivo do álcool de cana daqui a 15 anos ou mais. Isso
porque ainda há muitos problemas técnicos para que os resíduos de
plantas sejam usados em grande escala.
 
"O etanol de celulose ainda requer que alguns obstáculos tecnológicos
sejam vencidos para se tornar comercialmente viável", aponta Cruz,
lembrando que a concorrência dos biocombustíveis não é entre si, mas com
o petróleo, cujo preço é que determina sua viabilidade.
 
Diante disso, o diretor científico da Fapesp indica o aumento da
produtividade da cana como principal desafio do Brasil. Embora a
produtividade já tenha crescido muito - de menos de 50 toneladas por
hectare em meados dos anos 70 para mais de 80 toneladas hoje -, ele
afirma que é preciso investir mais no seu melhoramento genético, até
agora feito apenas por métodos tradicionais.
 
"Está na hora de introduzir a biologia molecular e a genômica na cana para a produtividade aumentar", defende.
 
Segundo Cruz, se a cana fosse uma planta "perfeita", isto é,
convertesse toda energia do Sol absorvida pelas folhas, o gás carbônico
do ar e os nutrientes do solo em biomassa, sua produtividade máxima
alcançaria 318 toneladas por hectare plantado.
 
"Assim, ir para umas 200 toneladas por hectare já estaria muito bom",
disse, acrescentando que, para isso, a Fapesp e empresas parceiras
estão investindo mais de R$ 80 milhões na área de bioenergia, grande
parte dos recursos em engenharia genética.
 
Quanto às críticas de que a bioenergia vai piorar a segurança
alimentar do mundo ao deslocar parte da produção agrícola e terras
férteis para a geração de energia, Cruz argumenta que isso depende muito
de como e onde isso acontecerá. De acordo com ele, nos EUA e na Europa o
maior uso de bioenergia realmente significará a substituição de uma
colheita por outra, pois não há muitas terras ociosas. Já em África,
Brasil e restante da América Latina a realidade é diferente, com
produção podendo ser expandida tanto para terras ainda não usadas quanto
para áreas que serviram de pasto no passado e hoje estão abandonadas.
 
"O Brasil usa atualmente 4 milhões de hectares para a produção de
álcool e poderia elevar esse número para 20 milhões de hectares sem
deslocar nenhuma cultura de alimento" contabiliza. Some-se ainda a isso
os esperados ganhos de produtividade e o resultado é que o Brasil,
sozinho, poderia facilmente fornecer álcool para o mundo substituir 5%
da gasolina que consome hoje.
(O Globo)
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