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Para tempo integral, faltam 300 mil professores

11/01/2011 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=75774
Déficit no nível profissionalizante pode prejudicar ampliação do ensino médio pelo MEC. Medida deve custar pelo menos R$ 21 bi<BR><BR>
<P>O governo terá obstáculos na hora de implantar o ensino médio em tempo integral, como anunciou o ministro da Educação, Fernando Haddad. O principal deles: o fato de que o déficit estimado de professores no ensino profissionalizante, que responderia por metade desse tempo integral, é de 300 mil no país - 10% a 20% maior do que o déficit de professores da 5ª série do fundamental ao 3º do ensino médio na formação geral.</P>
<P>A estimativa é da Câmara de Educação Básica, parte do Conselho Nacional de Educação (CNE). Outra dificuldade é o custo de implantação da medida em toda a rede pública de ensino médio: um valor mínimo estimado em R$ 21 bilhões - e que pode chegar a R$ 49 bilhões, caso o foco seja em áreas de ponta, como petróleo.</P>
<P>Esse cálculo considera o custo médio anual por aluno no ensino profissionalizante, que é de R$ 3 mil (em cursos como secretariado) a R$ 7 mil (em setores como o naval), segundo a Câmara de Educação Básica.</P>
<P>Já se a conta for feita usando-se a média de investimento/aluno nos institutos federais informada pelo MEC (R$ 8 mil), o custo vai para R$ 56 bilhões. Segundo pesquisadores da área, a estimativa do custo de implantação pode ser tirada da multiplicação do custo/aluno pelo número de matriculados no ensino médio formação geral (no Censo de 2009, eram 7.023.940 alunos na rede pública).</P>
<P>O custo/aluno inclui, por exemplo, despesas com salários dos professores. A melhoria dos salários com a maior carga horária exigida pelo ensino integral, apontam profissionais do setor, pode ser um modo de atrair professores para o modelo.</P>
<P>- Estimamos em 300 mil a carência de professores em cursos profissionalizantes. É cerca de 10% a 20% maior que o déficit no ensino médio comum. As universidades não têm se dedicado à formação de professores para isso; ela tem se dado na própria rede técnica pública e no sistema S - diz Francisco Cordão, presidente da Câmara de Educação Básica e conselheiro do CNE, que até março deve lançar diretrizes de formação de docentes do ensino profissionalizante.</P>
<P>As áreas no nível técnico com maior déficit de professores são cursos estratégicos como petróleo e gás, mecânica naval e mecatrônica. Esse déficit pode afetar ainda uma medida anunciada pela presidente Dilma Rousseff no discurso de posse: a criação, para o ensino médio, de bolsas nos moldes do Prouni - que, diz o conselheiro do CNE, serão para o ensino profissionalizante.</P>
<P>- Só nos Senai do Rio, e só em petróleo e gás, faltam 50 professores - diz Maurício Bastos, coordenador de educação profissional do Centro de Tecnologia Senai Automação e Simulação. - O professor que temos ou é um ex-técnico da Petrobras, ou alguém que trabalha em empresa e, à noite, dá aula. Também há alunos que viram professores. Mas professor de nível profissionalizante com curso superior, por exemplo, e também com experiência técnica, é raro.</P>
<P>Para Almério Melquíades, coordenador de Ensino Médio e Técnico do Centro Paula Souza (órgão de ensino profissionalizante de São Paulo), outro entrave num modelo de tempo integral será o horário das aulas:</P>
<P>- Como 60% das nossas turmas são noturnas, então, conseguimos como professores quem trabalha numa empresa de dia e dá aula à noite. As aulas profissionalizantes de manhã ou de tarde serão um gargalo. - O grande desafio para se implantar tempo integral não é dinheiro, mas gente - resume Mozart Neves Ramos, do Movimento Todos pela Educação.</P>
<P>Segundo Cordão, um programa federal sob análise do ministro Fernando Haddad para servir como uma das bases do tempo integral é o Ensino Médio Inovador. Em funcionamento desde 2009, o programa hoje está em 18 estados, em 357 escolas.</P>
<P>- Esse programa dará subsídios para o tempo integral. É um ponto de partida, que está sendo discutido com o ministro - diz Cordão, relator do Ensino Médio Inovador no CNE. - Ele amplia o currículo por quatro vertentes: trabalho (a mais próxima do profissionalizante), desenvolvimento científico, desenvolvimento tecnológico, e cultural.</P>
<P>- O Ensino Médio Inovador é uma referência que pode ser usada (no tempo integral) - conclui Carlos Artexes, diretor de Concepções e Orientações Curriculares da Secretaria de Educação Básica do MEC, setor na secretaria para o ensino médio.</P>
<P>- O programa pode se articular com o tempo integral, mas continua em paralelo. Outro que pode se articular com a medida é o Brasil Profissionalizado (de investimento em obras, gestão e professores de escolas técnicas e ensino integrado à educação profissional).</P>
<P>Na escola das 7h30m às 17h</P>
<P>Carlos Romário de França Santos, de 16 anos, e Ketuly Stefane Chaves dos Santos, de 15, têm origens diferentes. Ele estudou em escola particular; ela, na rede pública. Encontraram-se na Escola Técnica Estadual Maximiano Accioly Campos, que funciona em regime integral integrado.</P>
<P>A escola é parte de um modelo que começou a ser implementado em 2007 em Pernambuco, e que traz exemplos dos programas Ensino Médio Inovador e Brasil Profissionalizado, que o Ministério da Educação analisa como opções para basear a implantação do tempo integral.</P>
<P>Secretário de Educação de Pernambuco, Anderson Leônidas Gomes diz que a experiência inclui 13 escolas técnicas (ligadas ao Brasil Profissionalizado) e 160 de ensino médio com período integral ou semi-integral (onde entra o Ensino Médio Inovador). Segundo Gomes, nesse modelo, uma escola de ensino médio tradicional leva no mínimo três anos para ser de tempo integral.</P>
<P>- Fazemos de modo gradual: primeiro, só o 1º ano vira tempo integral; no ano seguinte, o 2º; até chegar ao 3º ano - explica o secretário, destacando que outra medida foi aumentar o piso salarial dos professores em até 2,5 vezes o piso em um colégio comum. - E eles passaram a trabalhar em dedicação exclusiva de cada escola, como numa universidade.</P>
<P>Carlos Romário e Ketuly Stefane cursam o 2º ano do médio e um técnico em computação. Chegam às 7h30m e só deixam a escola às 17h.</P>
<P>- Pode até cansar um pouco, mas é construtivo. A escola não está nos preparando só para o vestibular, mas para a vida - afirma Carlos Romário.</P>
<P><FONT size=1>(Alessandra Duarte e Letícia Lins)</FONT></P>
<P><FONT size=1>(O Globo, 9/1)</FONT></P>
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