Voltar para Notícias
Um Nobel no fim do túnel?, artigo de Flávio de Carvalho Serpa
05/10/2010
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=73858
"A ciência brasileira já é reconhecida no exterior mas paradoxalmente ainda não é parte do dia a dia da cultura nacional"<BR><BR>
<P>Flávio de Carvalho Serpa é jornalista. Artigo publicado na revista "Retrato do Brasil" e no "Observatório da Imprensa":</P>
<P>Argentina cinco a zero no Brasil. Esse desastre não é um placar de futebol, a profunda paixão da cultura brasileira. É a contabilidade de prêmios Nobel já conquistados pelo nosso vizinho.</P>
<P>A aversão ao conhecimento científico parece ser um traço importante da chamada "cultura brasileira", no sentido antropológico do termo, como o conjunto de hábitos, costumes e resultados cristalizados da formação histórica do país.</P>
<P>É claro que o problema não é exclusivamente brasileiro. Há quase 50 anos, o inglês Charles Percy Snow lançou um alerta que vale até hoje no seu clássico livro Duas Culturas, onde discorre sobre a cisão da cultura letrada e as ciências. C.P. Snow advertiu para o fato dos humanistas serem praticamente analfabetos nos conceitos mais rudimentares da ciência e os cientistas não se importarem com dimensões psicológicas, sociais e éticas dos problemas científicos.</P>
<P>Esse é um debate que muitos pensadores discretamente varrem para em baixo do tapete, mas na última reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), em julho, o tema aflorou quando o ganhador do Prêmio José Reis de divulgação de ciências, o neurocientista Roberto Lent, um dos fundadores da revista Ciência Hoje da SBPC, afirmou: "A ciência ainda não faz parte da Cultura do Brasil".</P>
<P>E explica: "A sociedade de modo geral separa fortemente a sabedoria letrada da ciência", diz. Até mesmo nos detalhes mais irrisórios. "Se você pegar os editais dos Ministérios da Cultura e da Educação, que lançam os livros para as escolas públicas, raramente aparecem obras cientificas. É mais fácil encontrar na escola Machado de Assis e Dante Alighieri do que Darwin ou Newton. Simplesmente não se compram esses livros", lamenta Lent.</P>
<P>Roberto Lent acha que uma das razões desse desconhecimento está na formação histórica do país desde a época colonial. "Tivemos um predomínio cultural daquele academicismo lusitano, onde o que vale mais é a literatura, as letras. Na classe média o que aparecia valorizado era a cultura formalista. E a influencia francesa posterior, também acentuou essa tendência. As elites só mudam nas preferências quando os EUA, Alemanha e Inglaterra passam a disputar a liderança cientifica", explica.</P>
<P>"Vivemos agora um paradoxo, já que temos uma produção cientifica que é a 13ª do mundo, mas o desempenho dos alunos brasileiros em ciências é o último entre os países não africanos"diz Lent. O perigo, diz, é que "corremos o risco em ter um desenvolvimento científico que não seja sustentável. Defendo, portanto, uma agressividade maior em ações de divulgação cientifica".</P>
<P>O matemático Jacob Palis, 70 anos, presidente da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências dos Países em Desenvolvimento (TWAS) é mais otimista. Reconhecido em nível internacional, Palis presidiu a União Internacional da Matemática entre 1999 e 2002.</P>
<P>O matemático afirma que não colocaria, ao contrário de Lent, a questão de forma tão radical. "A ciência brasileira é muito jovem. A UFRJ foi criada em 1920 e a USP, que vai buscar a excelência de professores europeus, é de 1934. As universidades européias têm vários séculos de existência e experiência. Somente na década de 1950, com a criação do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e depois da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) é que começamos a moldar o futuro", exemplifica.</P>
<P>"A Argentina, por exemplo, já era uma potência econômica na virada do século XIX para o XX e durante as guerras mundiais atraiu muitos pesquisadores europeus para suas universidades", explica Jacob.</P>
<P>Mas o Brasil que o professor Jacob Palis vê no futuro ainda é nebuloso. Numa década, entre 1998 e 2008, a quantidade de doutores no país cresceu 270%. Mas a comparação com outros países é triste. Temos apenas 1,4 doutores por mil habitantes, enquanto a Suíça e a Alemanha contam, respectivamente, com 23 e 15,4 por mil habitantes.</P>
<P>Em vários países europeus 4% da população detêm o título, no Brasil somente 0,7%. Até mesmo dentro das universidades a carência é grande, já que nas escolas de ensino superior, particulares e públicas, 24% dos professores são doutores. Das 55 universidades federais existentes no país, nove estão abaixo do nível mínimo exigido pela lei para serem consideradas como tal, pois não possuem o mínimo de 25% de doutores contratados.</P>
<P>A própria construção de um perfil cultural brasileiro, comparado com outros países ainda está longe de ser satisfatório e todas as obras ignoram essa participação da ciência. No Brasil a ciência nem mesmo faz parte dos desejos e do imaginário popular. O distanciamento cultural do brasileiro até mesmo com o sonho de um prêmio Nobel é tão gritante que até episódios que poderiam ser considerados dignos do orgulho nacional são raramente lembrados.</P>
<P>Poucos sabem que Albert Einstein, depois de sua passagem pelo Brasil, indicou o brasileiro Cândido Rondon para o Nobel da Paz ou que a italiana Rita Levy-Montalcini, fugida da perseguição nazista, fez parte substancial de suas pesquisas que lhe valeram o Nobel de Fisiologia em 1960 no Rio de Janeiro.</P>
<P>O mais espantoso é que um brasileiro nato já ganhou um prêmio Nobel. Peter Brian Medawar, Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em 1960 era brasileiro, nascido no hospital Santa Tereza, em Petrópolis, onde viveu até os 14 anos de idade antes de mudar para a Inglaterra e se naturalizar e, com justiça, os britânicos o arrolam como um Nobel inglês.</P>
<P>"Sem dúvida faz falta ao Brasil um prêmio assim. Considero isso muito importante", argumenta Palis. "Acho que representaria um estímulo tremendo para a comunidade científica, para o governo, e para a sociedade, para que, inclusive, se invista mais em ciências. Fazendo as contas, o premiado matemático garante que "até 2020 teremos um Nobel ou uma Medalha Fields, que é o Nobel da Matemática".</P>
<P>Essa motivação no imaginário já funcionou no passado brasileiro. "Na década de 1960, quando eu estava no colégio havia uma grande efervescência por causa do lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik", lembra Belita Koiler, física da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ganhadora do Prêmio Unesco/L'Oréal para Mulheres na Ciência, em 2005, e da Ordem Nacional do Mérito Científico, do Ministério da Ciência e Tecnologia e da Presidência da República em 2006.</P>
<P>"Naquela época tinha muita ênfase no ensino da ciência, era uma atividade muito valorizada e empolgante. Até as séries de filmes do Walt Disney tinham grandes audiências na TV com aqueles capítulos de 'Mundo da Amanhã'. Isso dava uma motivação muito grande. Atualmente tem muito filme de ficção científica que apenas diverte e não motiva", pondera.</P>
<P>E a imprensa, que em muitos países é aliada da educação e da divulgação da ciência, com raras exceções, não dá muito espaço para o assunto. "A imprensa escreve o que o povo quer ler. Durante a Copa do Mundo tudo bem, mas fora disso é uma desproporção o que se fala de futebol e tragédia, por exemplo. E se a imprensa não divulga mais o povo não fica instruído".</P>
<P>Um gritante exemplo do desinteresse da imprensa com assuntos da ciência: quando o professor Jacob Palis ganhou recentemente o importante e internacional Prêmio Balzan por sua carreira acadêmica, todos os jornais brasileiros deram apenas um modesto resumo de despacho de agências de notícias.</P>
<P>O traço de carência no interesse na ciência pode ser notada também nas prateleiras das livrarias. Livros de divulgação científica ocupam espaço exíguo e com poucos títulos. A editora Vieira&Lent, onde Roberto Lent é sócio, tem catálogo com 70 títulos e o maior sucesso é "O cérebro nosso de cada dia", com 30 mil exemplares vendidos, um ótimo número para os padrões nacionais.</P>
<P>Na Argentina, por exemplo, uma coleção de 32 títulos de divulgação científica chamada "Ciência que Ladra", tem tiragem de mais de 1 milhão de exemplares.</P>
<P>A íntegra do artigo pode ser lida em:</P>
<P><A href="http://flaviodecarvalho.multiply.com/journal/item/25/25">http://flaviodecarvalho.multiply.com/journal/item/25/25</A></P>
<P>Flávio de Carvalho Serpa é jornalista. Artigo publicado na revista "Retrato do Brasil" e no "Observatório da Imprensa":</P>
<P>Argentina cinco a zero no Brasil. Esse desastre não é um placar de futebol, a profunda paixão da cultura brasileira. É a contabilidade de prêmios Nobel já conquistados pelo nosso vizinho.</P>
<P>A aversão ao conhecimento científico parece ser um traço importante da chamada "cultura brasileira", no sentido antropológico do termo, como o conjunto de hábitos, costumes e resultados cristalizados da formação histórica do país.</P>
<P>É claro que o problema não é exclusivamente brasileiro. Há quase 50 anos, o inglês Charles Percy Snow lançou um alerta que vale até hoje no seu clássico livro Duas Culturas, onde discorre sobre a cisão da cultura letrada e as ciências. C.P. Snow advertiu para o fato dos humanistas serem praticamente analfabetos nos conceitos mais rudimentares da ciência e os cientistas não se importarem com dimensões psicológicas, sociais e éticas dos problemas científicos.</P>
<P>Esse é um debate que muitos pensadores discretamente varrem para em baixo do tapete, mas na última reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), em julho, o tema aflorou quando o ganhador do Prêmio José Reis de divulgação de ciências, o neurocientista Roberto Lent, um dos fundadores da revista Ciência Hoje da SBPC, afirmou: "A ciência ainda não faz parte da Cultura do Brasil".</P>
<P>E explica: "A sociedade de modo geral separa fortemente a sabedoria letrada da ciência", diz. Até mesmo nos detalhes mais irrisórios. "Se você pegar os editais dos Ministérios da Cultura e da Educação, que lançam os livros para as escolas públicas, raramente aparecem obras cientificas. É mais fácil encontrar na escola Machado de Assis e Dante Alighieri do que Darwin ou Newton. Simplesmente não se compram esses livros", lamenta Lent.</P>
<P>Roberto Lent acha que uma das razões desse desconhecimento está na formação histórica do país desde a época colonial. "Tivemos um predomínio cultural daquele academicismo lusitano, onde o que vale mais é a literatura, as letras. Na classe média o que aparecia valorizado era a cultura formalista. E a influencia francesa posterior, também acentuou essa tendência. As elites só mudam nas preferências quando os EUA, Alemanha e Inglaterra passam a disputar a liderança cientifica", explica.</P>
<P>"Vivemos agora um paradoxo, já que temos uma produção cientifica que é a 13ª do mundo, mas o desempenho dos alunos brasileiros em ciências é o último entre os países não africanos"diz Lent. O perigo, diz, é que "corremos o risco em ter um desenvolvimento científico que não seja sustentável. Defendo, portanto, uma agressividade maior em ações de divulgação cientifica".</P>
<P>O matemático Jacob Palis, 70 anos, presidente da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências dos Países em Desenvolvimento (TWAS) é mais otimista. Reconhecido em nível internacional, Palis presidiu a União Internacional da Matemática entre 1999 e 2002.</P>
<P>O matemático afirma que não colocaria, ao contrário de Lent, a questão de forma tão radical. "A ciência brasileira é muito jovem. A UFRJ foi criada em 1920 e a USP, que vai buscar a excelência de professores europeus, é de 1934. As universidades européias têm vários séculos de existência e experiência. Somente na década de 1950, com a criação do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e depois da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) é que começamos a moldar o futuro", exemplifica.</P>
<P>"A Argentina, por exemplo, já era uma potência econômica na virada do século XIX para o XX e durante as guerras mundiais atraiu muitos pesquisadores europeus para suas universidades", explica Jacob.</P>
<P>Mas o Brasil que o professor Jacob Palis vê no futuro ainda é nebuloso. Numa década, entre 1998 e 2008, a quantidade de doutores no país cresceu 270%. Mas a comparação com outros países é triste. Temos apenas 1,4 doutores por mil habitantes, enquanto a Suíça e a Alemanha contam, respectivamente, com 23 e 15,4 por mil habitantes.</P>
<P>Em vários países europeus 4% da população detêm o título, no Brasil somente 0,7%. Até mesmo dentro das universidades a carência é grande, já que nas escolas de ensino superior, particulares e públicas, 24% dos professores são doutores. Das 55 universidades federais existentes no país, nove estão abaixo do nível mínimo exigido pela lei para serem consideradas como tal, pois não possuem o mínimo de 25% de doutores contratados.</P>
<P>A própria construção de um perfil cultural brasileiro, comparado com outros países ainda está longe de ser satisfatório e todas as obras ignoram essa participação da ciência. No Brasil a ciência nem mesmo faz parte dos desejos e do imaginário popular. O distanciamento cultural do brasileiro até mesmo com o sonho de um prêmio Nobel é tão gritante que até episódios que poderiam ser considerados dignos do orgulho nacional são raramente lembrados.</P>
<P>Poucos sabem que Albert Einstein, depois de sua passagem pelo Brasil, indicou o brasileiro Cândido Rondon para o Nobel da Paz ou que a italiana Rita Levy-Montalcini, fugida da perseguição nazista, fez parte substancial de suas pesquisas que lhe valeram o Nobel de Fisiologia em 1960 no Rio de Janeiro.</P>
<P>O mais espantoso é que um brasileiro nato já ganhou um prêmio Nobel. Peter Brian Medawar, Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em 1960 era brasileiro, nascido no hospital Santa Tereza, em Petrópolis, onde viveu até os 14 anos de idade antes de mudar para a Inglaterra e se naturalizar e, com justiça, os britânicos o arrolam como um Nobel inglês.</P>
<P>"Sem dúvida faz falta ao Brasil um prêmio assim. Considero isso muito importante", argumenta Palis. "Acho que representaria um estímulo tremendo para a comunidade científica, para o governo, e para a sociedade, para que, inclusive, se invista mais em ciências. Fazendo as contas, o premiado matemático garante que "até 2020 teremos um Nobel ou uma Medalha Fields, que é o Nobel da Matemática".</P>
<P>Essa motivação no imaginário já funcionou no passado brasileiro. "Na década de 1960, quando eu estava no colégio havia uma grande efervescência por causa do lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik", lembra Belita Koiler, física da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ganhadora do Prêmio Unesco/L'Oréal para Mulheres na Ciência, em 2005, e da Ordem Nacional do Mérito Científico, do Ministério da Ciência e Tecnologia e da Presidência da República em 2006.</P>
<P>"Naquela época tinha muita ênfase no ensino da ciência, era uma atividade muito valorizada e empolgante. Até as séries de filmes do Walt Disney tinham grandes audiências na TV com aqueles capítulos de 'Mundo da Amanhã'. Isso dava uma motivação muito grande. Atualmente tem muito filme de ficção científica que apenas diverte e não motiva", pondera.</P>
<P>E a imprensa, que em muitos países é aliada da educação e da divulgação da ciência, com raras exceções, não dá muito espaço para o assunto. "A imprensa escreve o que o povo quer ler. Durante a Copa do Mundo tudo bem, mas fora disso é uma desproporção o que se fala de futebol e tragédia, por exemplo. E se a imprensa não divulga mais o povo não fica instruído".</P>
<P>Um gritante exemplo do desinteresse da imprensa com assuntos da ciência: quando o professor Jacob Palis ganhou recentemente o importante e internacional Prêmio Balzan por sua carreira acadêmica, todos os jornais brasileiros deram apenas um modesto resumo de despacho de agências de notícias.</P>
<P>O traço de carência no interesse na ciência pode ser notada também nas prateleiras das livrarias. Livros de divulgação científica ocupam espaço exíguo e com poucos títulos. A editora Vieira&Lent, onde Roberto Lent é sócio, tem catálogo com 70 títulos e o maior sucesso é "O cérebro nosso de cada dia", com 30 mil exemplares vendidos, um ótimo número para os padrões nacionais.</P>
<P>Na Argentina, por exemplo, uma coleção de 32 títulos de divulgação científica chamada "Ciência que Ladra", tem tiragem de mais de 1 milhão de exemplares.</P>
<P>A íntegra do artigo pode ser lida em:</P>
<P><A href="http://flaviodecarvalho.multiply.com/journal/item/25/25">http://flaviodecarvalho.multiply.com/journal/item/25/25</A></P>