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País precisa de mais fontes renováveis

27/05/2010 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=71126
<P>Governo e empresas investem no desenvolvimento de tecnologias de cana e de biocombustíveis<BR>Apesar da posição confortável de líder mundial no aproveitamento de biomassa para a geração de energia, o Brasil não está alheio ao desafio mundial de desenvolver novas fontes de energia sustentáveis para substituir os combustíveis fósseis.</P>
<P>Órgãos governamentais, instituições de pesquisa e empresas públicas e privadas desenvolvem atualmente uma série de projetos, parte deles para melhorar o desempenho e o aproveitamento da cana-de-açúcar e parte para encontrar alternativas a essa planta.</P>
<P>Segundos o Balanço Energético Nacional de 2008, do Ministério das Minas e Energia, o mais recente disponível, do total da energia primária produzida no país, 51,6% provém de fontes não renováveis, com destaque para petróleo (38,7%) e gás natural (9,0%). Das fontes renováveis (48,4%), a principal contribuição é da cana com 19%, seguida das hidrelétricas (13,4%) e da lenha (12,4%).</P>
<P>É justamente para melhorar esse quadro, aumentando a oferta de energia renovável, que o país vem investindo em pesquisa. Entre os gastos públicos estão os do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), que prevê, em quatro anos, R$ 304,47 milhões para apoio a pesquisas em biocombustíveis.</P>
<P>O MCT coordena ainda a Rede Brasileira de Tecnologia de Biodiesel (RBTB), que conta com cerca de 300 pesquisadores e 80 instituições. Entre as plantas estudadas, as mais promissoras para a produção desse tipo de combustível são a soja e a mamona.</P>
<P>O ministério também investe no desenvolvimento de novas fontes de energia a partir de biomassas alternativas. Para isso, criou, em 2003, a Rede de Tecnologias de Combustão (RNC), que recebeu nos últimos cinco anos cerca de R$ 15 milhões.</P>
<P>"Entre os seus projetos mais promissores está um combustor, criado na Universidade Federal do Pará (UFPA), para a geração de energia a partir da queima da serragem oriunda das madeireiras", diz Ronaldo Mota, secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do MCT.</P>
<P>Como não poderia deixar de ser no país maior produtor mundial de açúcar e álcool a partir de cana, é essa planta que recebe a maior atenção e sobre a qual existem mais projetos de pesquisa.</P>
<P>"A principal fonte de biomassa para a geração de energia no Brasil é a cana-de-açúcar, da qual são colhidas mais de 500 milhões de toneladas por ano, que é equivalente em termos de energia a cerca de 4 milhões de barris de petróleo por dia", diz o físico José Goldemberg. "Os grandes desafios para a pesquisa no momento são dois: modificar geneticamente a planta para produzir mais açúcar e álcool e desenvolver tecnologias de segunda geração, usando celulose no lugar dela para a produção de etanol."</P>
<P>Segundo Goldemberg, é esta segunda linha que os Estados Unidos estão explorando, mas com desvantagem em relação ao Brasil. "Se os problemas técnicos forem resolvidos, será possível usar o bagaço como fonte de celulose e no nosso país ele já está disponível nas usinas", explica. "Nos Estados Unidos, ele terá que ser produzido e recolhido nos campos para processamento."</P>
<P>Para Goldemberg, o Brasil tem boas chances de sucesso seguindo essa rota. "O governo federal está investindo pesado num centro dedicado à pesquisa tecnológica de segunda geração em Campinas."</P>
<P>Ele se refere ao Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), criado no início deste ano, com o objetivo de contribuir para a liderança brasileira no setor de fontes renováveis de energia e, principalmente, para o desenvolvimento da cadeia produtiva do álcool de cana-de-açúcar. "Os investimento iniciais no CTBE foram de R$ 69 milhões", informa seu diretor científico, o botânico Marcos Buckeridge. "Agora, ainda estamos investindo o dinheiro na contratação de pesquisadores."</P>
<P>As empresas também participam desse esforço em busca de energia renovável. Um exemplo é a Petrobras. A companhia vai investir, no período 2009-2013, US$ 530 milhões para pesquisas em biocombustíveis e o desenvolvimento de projetos para o aproveitamento de resíduos celulósicos agroindustriais, como o bagaço de cana. Para isso, já há uma planta piloto desde 2007.</P>
<P>Outra linha em desenvolvimento na empresa é a produção de biodiesel a partir de microalgas. Atualmente, seus técnicos estão trabalhando na identificação e cultivo daquelas que produzam óleo com qualidade adequada e em grande quantidade.</P>
<P>Apesar de todos esses investimentos, os primeiros resultados concretos e economicamente viáveis na produção de etanol de segunda geração, isto é, pela rota bioquímica, devem demorar dez anos ou mais. Por isso, há quem considere mais promissor o caminho termoquímico. Hoje, muitas usinas produzem energia dessa forma, queimando o bagaço para gerar eletricidade.</P>
<P>Segundo Zilmar José de Souza, assessor de bioenergia da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), das 437 usinas existentes no país, pelo menos 100 produzem energia elétrica excedente e exportam para a rede de transmissão do país. "Em 2009, foram 5,8 GW, o que representa 7% do que Itaipu produziu no mesmo ano", diz. "O potencial dos canaviais brasileiros para 2017/2018 chega 10 GW."</P>
<P>Isso poderá ocorrer porque hoje apenas um terço do potencial da cana-de-açúcar é aproveitado, que é a sacarose, da qual se faz o açúcar e o álcool. Do restante, um terço é bagaço, do qual é aproveitada uma fração mínima, e um terço é palha, que hoje é desperdiçada. Por isso, o pesquisador Luiz Augusto Barbosa Cortez, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), acredita que atualmente a melhor maneira de aproveitar a cana como fonte de energia é pela rota termoquímica.</P>
<P>"Por esse caminho, ela pode gerar energia de duas maneiras, pela pirólise (ou carvoamento) e pela gaseificação de sua biomassa", explica. "No primeiro caso, dá origem a um sólido, o carvão, ou a um líquido, o alcatrão, que é um bio-óleo. No segundo, pode se obter eletricidades e combustíveis líquidos, como biogasolina e biodiesel."</P>
<P>Projetos aumentam em todo o mundo</P>
<P>O Brasil, ao lado dos Estados Unidos, é um dos poucos países do mundo que já têm uma indústria consolidada de produção de energia a partir de biomassa derivada das usinas de etanol. Mas há várias outras nações investindo para atingir situação semelhança. Nem todas têm, no entanto, clima tropical e disponibilidade de água e terra para a cultura da cana-de-açúcar.</P>
<P>Por isso, apostam em outras plantas para a produção de álcool e outros combustíveis. Entre elas estão, por exemplo, o milho, o pinhão manso, o miscanthus (uma gramínea semelhante à cana) e o populus (uma espécie de álamo que produz madeira para papel).</P>
<P>Uma região que vem se destacando nesse cenário é o Sudeste Asiático. Segundo o pesquisador Ramlan Abd Aziz, professor da Universidade Tecnológica da Malásia, que esteve em São Paulo em março para participar da Convenção Latinoamericana do Global Sustainable Bioenergy Project (GSB), boa parte dos países de lá dispõe de projetos para produzir biocombustíveis.</P>
<P>O potencial de produção da região é de 14 milhões de barris por dia, mais do que os 11 milhões de barris de petróleo produzidos pela Arábia Saudita. A Tailândia, por exemplo, tem nove usinas para a produção de etanol de cana e nove de biodiesel de dendê. Mianmar também se destaca, com a produção de biocombustível de jatropha, uma planta conhecida no Brasil como pinhão manso - aquele país detém 90% das plantações mundiais desse vegetal.</P>
<P>O botânico e professor da Universidade de São Paulo (USP) Marcos Buckeridge cita o Japão como outro país da Ásia que merece atenção. "Um colega de lá conseguiu transformar geneticamente o populus, introduzindo nessa planta genes produtores de enzimas que degradam a parede celular, o que facilita a produção de etanol", explica. "Ele plantou as árvores transgênicas e agora, em relativamente pouco tempo, os japoneses poderão dispor de uma biomassa muito interessante para a produção de energia." Bélgica e Canadá estão realizando experiências semelhantes com a mesma espécie.</P>
<P>A Comunidade Europeia anunciou recentemente financiamento de ciência e tecnologia em bioenergia. "No edital, era obrigatório ter grupos brasileiros", diz Buckeridge. "Nós entramos com um projeto conjunto e aparentemente ganhamos, mas ainda não é oficial do lado brasileiro, só do europeu. São € 4 milhões para cada lado." O Reino Unido, por sua vez, montou o programa Renewall, com grupos de pesquisadores de elite, para trabalhar no etanol de segunda geração. As plantas de interesse dos britânicos são o miscanthus e o salgueiro (um arbusto de crescimento rápido em regiões temperadas).</P>
<P>Nesse panorama, os Estados Unidos são um caso à parte. Apesar de já produzir etanol a partir do milho, o país vem desenvolvendo vários projetos para a produção de energia a partir de outras plantas. Buckeridge destaca dois programas. "Um é o Energy Biosciences Institute (EBI), com investimento de cerca de US$ 500 milhões da British Petroleum (BP)", informa. "Eles escolheram as universidade de Illinois, em Indiana, e Berkeley, na Califórnia, para montar laboratórios para realizar as pesquisas."</P>
<P>Outro programa americano importante é o Joint Bioenergy Institute, que tem verba do Departamento de Energia (DOE). No caso americano, as estratégias são muito parecidas com as do Brasil, ou seja, os grupos de cientistas estão se agrupando em centros de pesquisa. "Uma grande vantagem deles é o investimento privado, que lá é maciço", diz Buckeridge. "Por exemplo, o Dumforth Institute, em Saint Louis, que se dedica à produção de tecnologia de biodiesel para usar em aviões a jato, é um investimento da Rent a Car."</P>
<P>Instituições pesquisam cana do futuro</P>
<P>Nos próximos oito anos, cientistas de 32 instituições de pesquisa de São Paulo vão se dedicar a estudar a fundo a cana-de-açúcar e outras espécies vegetais que podem ser usadas como fontes de biocombustíveis. Eles integram o Programa Fapesp de Bioenergia (Bioen), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, que tem como objetivo gerar novos conhecimentos sobre as plantas, sua produção e o processamento da biomassa para o desenvolvimento de biocombustíveis. Com isso, pretende-se ajudar a garantir a posição do Brasil entre os líderes na área de bioenergia.</P>
<P>O Bioen começou em 2008 e tem prazo previsto de duração de dez anos. O programa está estruturado em torno de cinco grandes áreas de pesquisa. Uma delas é sobre biomassa, principalmente no melhoramento da cana-de-açúcar, o que inclui genômica, bioquímica, biologia celular e fisiologia. As outras são o processo de fabricação de biocombustíveis; as aplicações do etanol para motores automotivos; estudos sobre biorrefinarias e alcoolquímica; e impactos sociais e ambientais do uso de biocombustíveis.</P>
<P>Os primeiros projetos de pesquisa do programa foram contratados pela Fapesp em 2009. "Atualmente, temos 55 em andamento, que somam cerca de R$ 55 milhões em investimentos", diz Gláucia Mendes Souza, pesquisadora do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Bioen. "Parte desses recursos é financiada pelas empresas Dedini, Braskem, Oxiteno e Microsoft." No conjunto, os projetos buscam a "cana do futuro", que deverá ter alto teor de sacarose, grande resistência à seca e maior quantidade de biomassa.</P>
<P>Até chegar a isso, no entanto, a ciência ainda precisará percorrer um longo caminho, que passa pelo conhecimento do DNA da cana. O entendimento das diferenças no genoma dos organismos é um dos grandes desafios para o melhoramento genético de uma determinada espécie.</P>
<P>Por isso, há um grupo no Bioen, liderado pela pesquisadora Marie-Anne Van Sluys, do Instituto de Biociências (IB) da USP, que trabalha há dois anos no sequenciamento de mil pedaços lineares do genoma da cana, tarefa que deverá se estender por igual período. São áreas do DNA da planta de interesse para o programa, contendo genes associados com o aumento da sacarose e com a resistência e a tolerância à seca.</P>
<P>O Bioen não se limita, no entanto, aos aspectos puramente científicos da bioenergia. Há também preocupação com as diretrizes das políticas públicas para o setor sucroalcooleiro. Essa é a área de atuação do grupo de trabalho liderado por Luiz Augusto Barbosa Cortez, da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade de Campinas (Unicamp).</P>
<P>"Nas nossas pesquisas, procuramos identificar os gargalos da cadeia de produção desse setor", explica. "Chegamos à conclusão que o principal deles é o não aproveitamento integral da cana. Por isso, é preciso desenvolver tecnologias para o aproveitamento racional também da palha e do bagaço. O grande salto do setor será dado quando isso ocorrer."</P>
<P>Para Marcos Buckeridge, que coordena o grupo de trabalho que pesquisa melhores alternativas para a produção de etanol celulósico, o investimento em bioenergia, tem grande potencial de tornar o Brasil um líder mundial em uma área de ciência e tecnologia de ponta.</P>
<P>"Se o nosso país mantiver firmes os investimentos e aumentá-los ainda mais, em 10 ou 20 anos deveremos ter um ótimo retorno de toda essa aplicação", acredita. "Por isso, é crucial, neste momento, principalmente de transição política, que os tomadores de decisão que assumirem o governo estejam plenamente conscientes disso."</P>
<P><FONT size=1>(Evanildo da Silveira)</FONT></P>
<P><FONT size=1>(Valor Econômico, 26/5)</FONT></P>
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