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Butantan tinha R$ 1 mi para reformas

20/05/2010 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=70972
Verba da Fapesp poderia ter sido usada em segurança de prédio antes de incêndio, mas acabou alocada para outros fins<BR><BR>
<P>Não foi por falta de dinheiro que o Instituto Butantan não melhorou a segurança de seu acervo de serpentes. Entre 2007 e 2008, a instituição recebeu quase R$ 1 milhão da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) para reforçar sua infraestrutura. Segundo levantamento feito pela Fapesp, esse montante veio de uma modalidade de financiamento conhecida como reserva técnica.</P>
<P>Esse dinheiro pode ser usado também para adquirir equipamentos importantes para os projetos, mas a maneira como ele é gasto é determinada não pela Fapesp, mas pela própria instituição que o recebe.</P>
<P>Ainda de acordo com a fundação, principal financiadora da ciência paulista, nenhuma fração dos recursos foi empregada em sistemas de prevenção de incêndio no Butantan.</P>
<P>De acordo com a Fapesp, o instituto apresentou propostas para outros editais mais recentes, que aceitaram inscrições até o fim de dezembro do ano passado e março deste ano. Esses editais pertencem a um programa de apoio à infraestrutura de instituições científicas, o qual inclui verba para coleções biológicas.</P>
<P>No primeiro caso, o Butantan pediu verbas da ordem de R$ 419 mil e US$ 146 mil (nesse caso, para gastos em dólar). O plano era informatizar as coleções do instituto. No segundo, os recursos requisitados (R$ 877 mil) se destinariam a classificar e informatizar o acervo de documentos históricos.</P>
<P>Nesses casos, também não houve menção à necessidade de prevenir incêndios.</P>
<P>Otávio Mercadante, diretor-geral do Instituto Butantan desde 2003, admite que não faltou dinheiro. "O dinheiro vinha [para o Butantan] de várias fontes. Do BNDES, da Fapesp, da Fundação Butantan, da Finep."</P>
<P>Segundo ele, apesar do incêndio, os prédios do local são seguros, e havia manutenção periódica. "Todos eles têm uma infraestrutura que é adequada. Apesar de velhos, eles têm instalação elétrica nova."</P>
<P>"Estamos fazendo uma nova subestação de eletricidade de R$ 10 milhões, por exemplo", diz ele, concordando em seguida que um sistema anti-incêndio custaria bem menos.</P>
<P>Logo depois do desastre, Francisco Franco, curador da coleção destruída, disse que o instituto pedira, sem sucesso, recursos da Fapesp para um sistema de combate automático a incêndio, nos moldes de museus estrangeiros.</P>
<P>Na terça-feira (18/5), Franco corrigiu. "Parece que esse pedido não foi encaminhado. Não tenho certeza", diz ele. "Não poderia ter acontecido, mas aconteceu. "C"est la vie." [É a vida]."</P>
<P>Agora, segundo Mercadante, BNDES, Fapesp e o governo estadual já entraram em contato oferecendo dinheiro para construir um novo prédio, com métodos modernos contra o fogo.</P>
<P>Na terça-feira, a Defesa Civil vistoriou o velho galpão incinerado. Parte do telhado ameaça desabar, tornando arriscado o resgate do que sobrou.</P>
<P>Segundo Franco, nesta quarta (19/5) pela manhã o telhado será escorado. Após isso, os pesquisadores poderão entrar no prédio e retirar o material que sobrou.</P>
<P>Eles ainda não sabem bem quanto do acervo poderá ser recuperado. "O resultado dessa avaliação só sairá depois de um trabalho de formiguinha. São vários vidrinhos com nomezinhos, não é uma operação simples", diz Mercadante.</P>
<P>Tendo observado brevemente o interior do prédio, porém, os cientistas já acreditam que parte razoável do material será salva. "Antes eu tinha plena certeza de que tínhamos perdido tudo", diz Franco.</P>
<P>Neto de Vital Brazil ataca fundação</P>
<P>O neto de Vital Brazil, Érico, criticou na terça-feira&nbsp; a Fundação Butantan pela gestão do patrimônio histórico e das coleções biológicas do instituto.</P>
<P>"O acervo do meu avô está jogado numa sala com goteira. Isso é inadmissível", declarou à Folha o historiador, que preside a Casa de Vital Brazil.</P>
<P>A família do médico fez circular nesta semana uma carta culpando pela tragédia "pessoas que tiveram até [há] pouco e ainda têm poder de decisão no Butantan".</P>
<P>Segundo ele, o problema começou nos anos 1980, quando o pesquisador Isaias Raw assumiu a presidência da fundação e resolveu priorizar a fabricação de soros e vacinas.</P>
<P>O instituto vivia na penúria na época. "É evidente que ele tinha de buscar uma alternativa, mas não dá para relegar [o patrimônio histórico] à última instância", afirmou.</P>
<P>Ao ser questionado se o Butantan relegou a manutenção do seu acervo, o diretor Otávio Mercadante disse que não.</P>
<P>"A coleção cresceu muito na minha gestão, foi criada uma curadoria de coleções, ela passou a ser valorizada", afirmou.</P>
<P>Raw se afastou da presidência no ano passado, em meio a uma investigação de desvio de R$ 35 milhões durante sua gestão.</P>
<P>Procurado pela reportagem, o pesquisador não foi localizado.</P>
<P>Museu britânico abriga exemplares do Butantan</P>
<P>Uma espécie de "becape" parcial da coleção de répteis queimada no sábado pode estar seguro a milhares de quilômetros do Butantan: no Museu Britânico de História Natural, em Londres. Segundo Érico Vital Brazil, seu avô tinha por hábito mandar exemplares a correspondentes em vários países, entre eles Reino Unido e Suíça.</P>
<P>Museus podem ajudar a recriar coleções perdidas de instituto</P>
<P>Enquanto os pesquisadores do Butantan lutam para estimar com precisão o tamanho do estrago, outras instituições Brasil afora, como o Museu Paraense Emilio Goeldi, já se mobilizam para ajudar o instituto a reconstruir seu acervo.</P>
<P>"Já teríamos condições de mandar hoje 3.000 lotes de aracnídeos para o Butantan", afirmou à Folha Nilson Gabas Júnior, diretor da instituição paraense sediada em Belém.</P>
<P>Na terça-feira (18/5) pela manhã, Gabas Júnior conversou por telefone com Otávio Mercadante, diretor-geral do Butantan, sobre a tarefa de refazer a coleção centenária. "Eles querem começar logo a reforma do prédio, e eu me prontifiquei a liderar um mutirão dos diretores de museus, um esforço de coleta", afirma o chefe do Goeldi.</P>
<P>"Esses aracnídeos, por exemplo, são espécimes duplicados, que nós não teríamos problema nenhum em enviar para o acervo do Butantan", afirma Gabas Júnior.</P>
<P>O Goeldi possui um dos maiores acervos da biodiversidade amazônica e enfrenta alguns dos mesmos problemas que levaram ao desastre no Butantan. Em março deste ano, um incêndio quase se alastrou pelo setor de entomologia (a coleção de insetos do museu).</P>
<P>"E isso foi depois de uma reforma na parte elétrica -a qual, pelo visto, não foi suficiente para impedir que uma coisa dessas acontecesse", afirmou Gabas Júnior.</P>
<P>Um dos principais desafios das coleções biológicas, explica ele, é o fato de que a dinâmica da coleta é muito rápida.</P>
<P>"É preciso levar em conta o ritmo com que as coleções crescem. Se não conseguirmos nos planejar para essa ampliação constante, sempre vamos ficar tapando buraco, sem conseguir preparar direito a expansão no futuro", afirma ele.</P>
<P>Um dos artifícios para facilitar esse planejamento é usar armários compactados, nos quais é possível arquivar grande quantidade de espécimes num espaço pequeno.</P>
<P><FONT size=1>(Reinaldo José Lopes e Ricardo Mioto)</FONT></P>
<P><FONT size=1>(Folha de SP, 19/5)</FONT></P>
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