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Tesouro só teve valor sob a luz das chamas, artigo de Carlos Jared
19/05/2010
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=70949
"Todos nós hoje choramos por algo difícil de classificar, essa sensação de perda de um bem que vai muito além do material"<BR><BR>
<P>Carlos Jared é biólogo, pesquisador do Instituto Butantan e professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Artigo publicado na "Folha de SP":</P>
<P>O sentimento é realmente de profundo luto. O Instituto Butantan, o Brasil e a ciência choram. Segundo informações recentes, foram mais de 1 milhão de pessoas que contribuíram, durante os últimos cem anos, para a fundamentação desse inestimável acervo científico.</P>
<P>Desde a sua criação, nos tempos de Vital Brazil [médico que criou o Butantan na virada do século 19 para o 20], a Coleção Científica de Serpentes, Aranhas e Escorpiões (Herpetológica e Aracnológica) do Butantan foi construída principalmente com a ajuda da população rural, aterrorizada pelos animais venenosos.</P>
<P>Acervo em crescimento</P>
<P>No início, os colaboradores eram do estado de São Paulo e, em seguida, de todo o Brasil. À medida que foi tomando corpo, graças ao esforço de várias gerações de pesquisadores e de alunos, a importância científica desse acervo foi aumentando e, atualmente, era a maior coleção de serpentes do mundo.</P>
<P>Em relação aos aracnídeos, o acervo vinha crescendo vertiginosamente, rivalizando com os grandes centros mundiais de pesquisa científica.</P>
<P>Milhares de teses e trabalhos científicos, publicados nas mais importantes revistas científicas internacionais, muitos deles descrevendo espécies novas, foram realizados graças aos animais que estavam tombados nessa coleção.</P>
<P>Assim, pode-se afirmar, com toda a segurança, que muito da importância científica mundial do Instituto Butantan se deve a ela. Por outro lado, grande parte da história da colonização do estado de São Paulo estava ali, mesclada com a história do envenenamento por mordidas de serpentes, que assolava, juntamente com as doenças infecciosas, o colono, na maior parte de origem imigrante.</P>
<P>A distribuição original da biodiversidade de serpentes e aracnídeos, assim como as mudanças nessa distribuição em função do gradativo desmatamento, estava também registrada ali, por meio dos animais tombados, alguns deles totalmente extintos.</P>
<P>Além de todas as considerações de cunho estritamente científico que é possível tecer a favor dessa coleção, eu ainda faria outra, de caráter estritamente sentimental.</P>
<P>Vocação sacerdotal</P>
<P>A sua importância reside fundamentalmente no trabalho apaixonado e de vocação quase sacerdotal dos seus curadores e usuários. Todos nós hoje choramos por algo difícil de classificar, essa sensação de perda de um bem que vai muito além do material. Ao menos um sentimento positivo se pode indicar.</P>
<P>A tremenda importância da coleção era muito viva, ainda que escondida nas suas centenárias prateleiras de animais mortos. Resistiu mais de um século, mesmo se chocando com a frieza e a estupidez do reducionismo. Infelizmente a valorização desse tesouro só se deu à luz das chamas, que o transformaram em cinzas.</P>
<P><FONT size=1>(Folha de SP, 18/5)</FONT></P>
<P>Carlos Jared é biólogo, pesquisador do Instituto Butantan e professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Artigo publicado na "Folha de SP":</P>
<P>O sentimento é realmente de profundo luto. O Instituto Butantan, o Brasil e a ciência choram. Segundo informações recentes, foram mais de 1 milhão de pessoas que contribuíram, durante os últimos cem anos, para a fundamentação desse inestimável acervo científico.</P>
<P>Desde a sua criação, nos tempos de Vital Brazil [médico que criou o Butantan na virada do século 19 para o 20], a Coleção Científica de Serpentes, Aranhas e Escorpiões (Herpetológica e Aracnológica) do Butantan foi construída principalmente com a ajuda da população rural, aterrorizada pelos animais venenosos.</P>
<P>Acervo em crescimento</P>
<P>No início, os colaboradores eram do estado de São Paulo e, em seguida, de todo o Brasil. À medida que foi tomando corpo, graças ao esforço de várias gerações de pesquisadores e de alunos, a importância científica desse acervo foi aumentando e, atualmente, era a maior coleção de serpentes do mundo.</P>
<P>Em relação aos aracnídeos, o acervo vinha crescendo vertiginosamente, rivalizando com os grandes centros mundiais de pesquisa científica.</P>
<P>Milhares de teses e trabalhos científicos, publicados nas mais importantes revistas científicas internacionais, muitos deles descrevendo espécies novas, foram realizados graças aos animais que estavam tombados nessa coleção.</P>
<P>Assim, pode-se afirmar, com toda a segurança, que muito da importância científica mundial do Instituto Butantan se deve a ela. Por outro lado, grande parte da história da colonização do estado de São Paulo estava ali, mesclada com a história do envenenamento por mordidas de serpentes, que assolava, juntamente com as doenças infecciosas, o colono, na maior parte de origem imigrante.</P>
<P>A distribuição original da biodiversidade de serpentes e aracnídeos, assim como as mudanças nessa distribuição em função do gradativo desmatamento, estava também registrada ali, por meio dos animais tombados, alguns deles totalmente extintos.</P>
<P>Além de todas as considerações de cunho estritamente científico que é possível tecer a favor dessa coleção, eu ainda faria outra, de caráter estritamente sentimental.</P>
<P>Vocação sacerdotal</P>
<P>A sua importância reside fundamentalmente no trabalho apaixonado e de vocação quase sacerdotal dos seus curadores e usuários. Todos nós hoje choramos por algo difícil de classificar, essa sensação de perda de um bem que vai muito além do material. Ao menos um sentimento positivo se pode indicar.</P>
<P>A tremenda importância da coleção era muito viva, ainda que escondida nas suas centenárias prateleiras de animais mortos. Resistiu mais de um século, mesmo se chocando com a frieza e a estupidez do reducionismo. Infelizmente a valorização desse tesouro só se deu à luz das chamas, que o transformaram em cinzas.</P>
<P><FONT size=1>(Folha de SP, 18/5)</FONT></P>