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Sem sistema de combate a incêndio, museus de zoologia correm riscos

19/05/2010 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=70945
Com acervo de 10 milhões de exemplares, Museu de Zoologia da USP só tem extintor - e é definido pelo próprio diretor como uma 'bomba-relógio'. Museu Nacional do Rio de Janeiro possui hidrantes sem água e não conta com brigada de incêndio<BR><BR>
<P>O incêndio que destruiu o acervo de cobras e aracnídeos do Instituto Butantã fez soar o alarme sobre a falta de apoio à conservação do patrimônio histórico natural do País. Nenhum dos grandes museus de zoologia brasileiros conta com um sistema adequado de combate a incêndios. "Aqui só tem extintor", diz o diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP), Hussam Zaher.</P>
<P>Nem o fato de o museu ser vizinho a uma base do Corpo de Bombeiros deixa Zaher tranquilo. Alocado em um prédio histórico do Ipiranga, o MZ-USP tem um acervo de 10 milhões de exemplares de bichos da biodiversidade brasileira e mundial, de formigas e minhocas a onças e gaviões. Grande parte deles, preservada em potes com álcool&nbsp; como se faz em qualquer coleção desse tipo no mundo. A coleção de cobras do Butantã, comparativamente, tinha cerca de 85 mil exemplares.</P>
<P>"Temos, pelo menos, dez vezes a quantidade de álcool no prédio que o Butantã tinha. Mais as coleções secas, que também queimam com extrema facilidade", afirma Zaher. O porão é abarrotado de estantes com vidros e tambores com álcool, contendo mais de 1 milhão de exemplares de peixes. Outras coleções estão espalhadas pelo primeiro e segundo andares. "É uma bomba-relógio", diz o diretor. "Se esse prédio pegar fogo, será um desastre de proporções bíblicas. Não vai ter quem segure."</P>
<P>O biólogo Miguel Trefaut Rodrigues, professor da USP e ex-diretor do museu, conta um incidente que demonstra como é fácil começar um incêndio num ambiente como esse.</P>
<P>Em 1998, uma aluna usava uma lanterna para procurar um espécime na coleção de peixes, quando derrubou a lanterna e um pote com álcool ao mesmo tempo. A lâmpada estourou, soltou uma faísca e o álcool pegou fogo. "A chama foi controlada rapidamente e não houve danos. Mas poderia facilmente ter sido um desastre", lembra Rodrigues. Nem detectores de fumaça o museu tem.</P>
<P>Há cinco anos, a diretoria do MZ-USP desenvolve um projeto para a construção de um anexo, especificamente projetado para abrigar as coleções. O prédio histórico, então, seria todo liberado para exposições, laboratórios e salas de professores.</P>
<P>Essa é a melhor maneira de garantir a segurança de um grande acervo, afirma Zaher: colocar tudo num lugar só, com um sistema anti-incêndio à base de gás, que, ao detectar fogo, isola o ambiente e injeta dióxido de carbono no ar. É o que fazem os grandes museus de história natural, diz ele, como o American Museum, de Nova York, o British Museum, de Londres, e Le Muséum National, de Paris.</P>
<P>O projeto do anexo está orçado em R$ 7 milhões e aguarda aprovação final dos órgãos públicos além de uma fonte financiadora para ser executado. "Temos a solução. Só falta o dinheiro", afirma Zaher.</P>
<P>Preocupação nacional</P>
<P>Apesar de o Butantã ser um órgão estadual, o incêndio gerou repercussões também em Brasília. Especialmente na diretoria de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente (MMA), que prepara uma carta pedindo mais apoio à conservação dos acervos biológicos do país. "Não podemos permitir que uma tragédia dessas se repita", disse ao Estado o diretor de Conservação da Biodiversidade do MMA, Braulio Dias. "O risco existe em todas as coleções. Nenhuma tem instalações adequadas para detecção e combate a incêndios."</P>
<P>O Prédio das Coleções do Butantã também não tinha sistema anti-fogo. "O Butantã é um patrimônio nacional, não só do Estado de São Paulo, então isso é uma preocupação federal também", completou Dias.</P>
<P>Rio de Janeiro. Em outro grande museu de história natural do País, o Museu Nacional do Rio de Janeiro (MNRJ), a situação é igualmente preocupante. Localizado num palácio que data da vinda da família real para o Brasil (1808), o local não conta com brigada de incêndio e grande parte dos hidrantes no entorno do palácio está sem água.</P>
<P>Com a ressalva de que o museu já esteve em condições piores, o diretor adjunto administrativo Wagner Wiliam Martins confirma que a possibilidade de incêndio no museu costuma lhe tirar o sono. "Hoje, eu tenho condições de detectar um foco de incêndio, mas não tenho estrutura para apagá-lo."</P>
<P>Segundo ele, a idade do prédio e a estrutura da construção aumentam os riscos. "Temos 90% do prédio em madeira, do chão ao teto", disse. A madeira não só torna o acervo vulnerável, como impede qualquer modernização no sistema de combate a incêndios. "Aqueles borrifadores de água, por exemplo, não podem ser instalados, pois, se por algum motivo eles forem acionados por engano, você não consegue conter a água."</P>
<P>O Museu Nacional guarda um acervo de 20 milhões de animais, plantas e objetos históricos, incluindo as coleções de antropologia, paleontologia, geologia, botânica e zoologia.</P>
<P><FONT size=1>(Herton Escobar)</FONT></P>
<P><FONT size=1>(O Estado de SP, 18/5)</FONT></P>
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