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A rebelião do conhecimento, artigo de Sidarta Ribeiro

20/04/2010 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=70344
"Imagino uma cidade onde as crianças agreguem valor cultural aos seus cérebros e corpos, capacitando talentos como nas escolas-parques de lindas memórias. Um computador por estudante e não se fala mais nisso"<BR><BR>
<P>Sidarta Ribeiro é brasiliense, professor titular de Neurociências da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e chefe de laboratório do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra. Artigo publicado no "Correio Braziliense":</P>
<P>Apesar de estar fora da cidade há quase 20 anos, acompanho o que acontece pela imprensa e pelas conversas com amigos e mestres que moram no Distrito Federal. Que contribuição poderia dar nesse momento de crise institucional? Será esse o melhor momento para discutir Ciência e Tecnologia (C&amp;T)?</P>
<P>Como refletir isoladamente sobre C&amp;T, sem referência à Educação e ao modo como as políticas públicas se constroem e destroem no Planalto Central? Por que é que o GDF, apesar de coletar impostos sobre a renda per capita mais alta do país, nunca investiu consistentemente em C&amp;T? Motivado por essas perguntas trago algumas reflexões. Oxalá sejam úteis.</P>
<P>Por ser capital de um país continental, Brasília tem vocação cosmopolita. Pesquisadores estrangeiros circulam pela cidade para discutir convênios, firmar cooperações e participar de eventos. Cientistas, pensadores e inventores de todo o Brasil vêm ao DF para reuniões de órgãos federais aqui sediados, como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).</P>
<P>Todos os ministérios funcionam em Brasília, congregando as lideranças intelectuais do país. Temos a Universidade de Brasília (UnB), projetada para atender às aspirações mais universais de geração e disseminação de saber. Brasília abriga ainda três importantes centros da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Hospital Sarah Kubitschek, referência em reabilitação, e a Universidade Católica, que nos últimos anos tem investido em pesquisa. A cidade foi pioneira na implantação da Bolsa Escola, que acopla frequência escolar a benefício social.</P>
<P>Dado o reduzido tamanho territorial e sua grande concentração de capital humano e material, seria natural que Brasília fosse uma vanguarda educacional, praticando o currículo mais avançado da União. Também seria de se esperar que despontasse como uma potência científica, uma Suíça ou Israel dentro do Brasil.</P>
<P>A despeito de tanta oxigenação intelectual, o GDF nunca fomentou C&amp;T adequadamente. A escolha de presidentes da Fundação de Amparo à Pesquisa do DF (FAP-DF) raramente se pautou por critérios de excelência científica e representatividade acadêmica, transformando-a numa agência governamental débil. Pelo artigo 195 da Lei Orgânica, a FAP-DF deveria receber 0,5% da receita corrente líquida do DF, mas o aporte de recursos nunca foi seguro, constante ou mesmo previsível.</P>
<P>Sempre foram comuns os atrasos de meses ou anos no recebimento de auxílios, gerando insegurança e desencanto. Iniciativas relevantes da FAP-DF, como a ampliação do acesso digital, foram prejudicadas por denúncias de corrupção. Em consequência, boa parte dos pesquisadores do DF conta apenas com apoio federal.</P>
<P>&nbsp;</P>
<P>Umbigo do Brasil</P>
<P>Para entender tal estado de coisas, é preciso compreender que Brasília, apesar de cidadã do mundo, tem a administração voltada para o umbigo do Brasil. O golpe de 1964 sustou na infância a prática democrática da capital.</P>
<P>Com o fim da ditadura, Brasília passou a desenvolver-se politicamente como um estranho latifúndio goiano, pleno de currais eleitorais em que a relação eleitor-candidato foi rebaixada a troca de favores. Foi a disputa pelo voto de cabresto neocandango que levou ao paroxismo da guerra atual entre coronéis rivais. Que saudade de Sinhô Pereira, ex-cangaceiro que imigrou para o Goiás e aqui perto viveu sem incomodar ninguém!</P>
<P>O governo biônico de Joaquim Roriz iniciou a distribuição indiscriminada de lotes, causando o inchaço rápido da cidade. Infelizmente o polo de atração populacional não foi construído em bases econômicas sólidas, capazes de absorver a mão de obra chegante. Enquanto uma minoria supre o setor de serviços que atende à classe media, para a maioria resta o subemprego.</P>
<P>A massa de eleitores do Distrito Federal não consome nem produz muita arte ou esporte, o que dirá ciência. Com bravas exceções, nem há demanda popular nem existe oferta governamental de qualidade desses bens culturais. Novos bairros, viadutos, uma ponte e avenidas amplas... Não se fez nada parecido para fortalecer a produção de saber no DF.</P>
<P>O momento é ótimo para fazê-lo. Talvez a cidade não saiba, mas o país inteiro olha para ela com esperança. Por sonhos de Dom Bosco, Niemeyer e Lucio Costa, Brasília tem céu de utopia, arquitetura de ficção científica e missão de farol do mundo. O chamamento de JK capturou a imaginação nacional em todos os rincões. Brasília é o grande experimento dos brasileiros. Uma cidade no meio do país, livre de senhores e servos, construída do zero por um mutirão de compatriotas. O povo lido jamais será vencido.</P>
<P>É preciso demolir os currais eleitorais, oferecendo a todas as classes as mais nutritivas escolas que possa conceber a mente humana. É preciso trazer o método empírico para o centro do aprendizado, equipando cada futuro eleitor com ceticismo, rigor, busca do mérito e liberdade. É preciso alavancar a ciência básica e aplicada, cumprindo a lei para que a FAP-DF cumpra sua missão.</P>
<P>Alunos do ensino médio precisam ter bolsas para fazer estágios em universidades e manter alto desempenho escolar. Um computador por estudante e não se fala mais nisso. Imagino uma cidade onde as crianças agreguem valor cultural aos seus cérebros e corpos, capacitando talentos como nas escolas-parques de lindas memórias.</P>
<P>Palavras de Gilberto Gil: "O povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe." Uma cidade de oportunidades amplas para todos, pois é amplo o espectro das inteligências. É preciso transformar o capital humano, maior riqueza da nação, em cidadania plena. Nenhum lugar mais apropriado para realizar a rebelião do conhecimento do que Brasília.</P>
<P>Que os espíritos de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro insuflem mestres, alunos, pais e pesquisadores. Que não seja necessário esperar o aniversário de um século nem fritar toda a paciência com greves a fundo perdido. Libertar o povo gado pelo saber, eis a questão crucial de hoje até outubro, quando será eleito um novo governo. Façamos 50 anos em 4, eleitorado de Brasília! Aqui tudo é possível.</P>
<P><FONT size=1>(Correio Braziliense, 17/4)</FONT></P>
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