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Enem - SiSU: mais desigualdade, artigo de Marcelino Pequeno
29/03/2010
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=69895
"Brasil é marcado por duas grandes desigualdades, uma geográfica (ou regional), onde se sobressaem as regiões Sul e Sudeste; e uma outra social, discriminadora pelo poder econômico. Ambas são acentuadas pela seleção unificada"<BR><BR>
<P>Marcelino Pequeno é professor do Departamento de Computação da Universidade Federal do Ceará (UFC) e secretário regional da SBPC no Ceará. Artigo enviado pelo autor ao "JC e-mail":</P>
<P>Entrou em operação este ano o Sistema de Seleção Unificada - SiSU, utilizando o Enem como exame único. Nesta primeira edição, 51 Ifes, entre universidades e institutos tecnológicos, tomaram parte, com 47 mil vagas sendo disputadas por 800 mil estudantes entre os 2,5 milhões que fizeram o Enem. Mas será que a comunidade universitária está consciente das implicações do novo sistema?</P>
<P>O MEC/Inep, após onze aplicações do Enem, acumulou experiência sobre a avaliação do ensino médio e se sentiu em condições de oferecer às Ifes um exame que substitua com vantagens pedagógicas os vestibulares tradicionais. A centralização do exame também permite um maior investimento na confecção do exame, que não pode ser reproduzido em dezenas de IES distintas. Assim, o MEC viu a oportunidade de, a partir da utilização do Enem como exame de acesso ao ensino superior, poder promover uma reestruturação do ensino médio.</P>
<P>Com o Enem na mão, o MEC também imaginou que poderia promover a unificação da seleção de vagas nas Ifes. Nasce assim o SiSU, proposto como uma racionalização da disputa de vagas e uma forma de democratizar a participação nos processos de seleção nas diferentes regiões do país. Também promoveria uma migração de alunos entre estados, o percentual de alunos que cursam universidade em estado diferente de sua origem não chega a 1%.</P>
<P>Acontece que o Brasil é marcado por duas grandes desigualdades, uma geográfica (ou regional), onde se sobressaem as regiões Sul e Sudeste; e uma outra social, discriminadora pelo poder econômico. Ambas as desigualdades são acentuadas pela seleção unificada. E isto já deveria ser razão suficiente para desencorajar sua criação.</P>
<P>Os resultados da primeira aplicação, que se encerrou no dia 12 de março, confirmam esta expectativa. São Paulo "exportou" 2.531 alunos e "importou" 169. Já o Piauí, "exportou" 85 e "importou" 612. O padrão se repete com estados favorecidos economicamente "exportando" mais do que "importando" estudantes, e vice-versa. O privilégio econômico é fator decisivo tanto para se conseguir a vaga, como, também, para permitir o deslocamento para cursar universidade em outro estado. Viver em residência universitária no Brasil só está acessível a 1% dos estudantes.</P>
<P>O MEC ainda não divulgou a proporção de alunos da escola pública que conseguiram vagas entre as 40 mil ocupadas no SiSU. Mas tudo leva a crer que a já pequena fração de alunos da escola pública seja reduzida, incrementando a outra desigualdade. A ironia é que mais alunos da escola pública concorrem a vagas no ensino superior (a intenção declarada do MEC), mas menos logram êxito.</P>
<P>Embora a primeira aplicação do SiSU tenha apresentado problemas operacionais que podem ser corrigidos em futuras edições, a grande debilidade do sistema é conceitual, e esta não tem solução à vista. Tivessem ocorrido discussões prévias com a comunidade acadêmica, estes problemas teriam sido detectados. Como não houve, temos um barco em cruzeiro precisando ser consertado, ou, talvez, abandonado.</P>
<P>Marcelino Pequeno é professor do Departamento de Computação da Universidade Federal do Ceará (UFC) e secretário regional da SBPC no Ceará. Artigo enviado pelo autor ao "JC e-mail":</P>
<P>Entrou em operação este ano o Sistema de Seleção Unificada - SiSU, utilizando o Enem como exame único. Nesta primeira edição, 51 Ifes, entre universidades e institutos tecnológicos, tomaram parte, com 47 mil vagas sendo disputadas por 800 mil estudantes entre os 2,5 milhões que fizeram o Enem. Mas será que a comunidade universitária está consciente das implicações do novo sistema?</P>
<P>O MEC/Inep, após onze aplicações do Enem, acumulou experiência sobre a avaliação do ensino médio e se sentiu em condições de oferecer às Ifes um exame que substitua com vantagens pedagógicas os vestibulares tradicionais. A centralização do exame também permite um maior investimento na confecção do exame, que não pode ser reproduzido em dezenas de IES distintas. Assim, o MEC viu a oportunidade de, a partir da utilização do Enem como exame de acesso ao ensino superior, poder promover uma reestruturação do ensino médio.</P>
<P>Com o Enem na mão, o MEC também imaginou que poderia promover a unificação da seleção de vagas nas Ifes. Nasce assim o SiSU, proposto como uma racionalização da disputa de vagas e uma forma de democratizar a participação nos processos de seleção nas diferentes regiões do país. Também promoveria uma migração de alunos entre estados, o percentual de alunos que cursam universidade em estado diferente de sua origem não chega a 1%.</P>
<P>Acontece que o Brasil é marcado por duas grandes desigualdades, uma geográfica (ou regional), onde se sobressaem as regiões Sul e Sudeste; e uma outra social, discriminadora pelo poder econômico. Ambas as desigualdades são acentuadas pela seleção unificada. E isto já deveria ser razão suficiente para desencorajar sua criação.</P>
<P>Os resultados da primeira aplicação, que se encerrou no dia 12 de março, confirmam esta expectativa. São Paulo "exportou" 2.531 alunos e "importou" 169. Já o Piauí, "exportou" 85 e "importou" 612. O padrão se repete com estados favorecidos economicamente "exportando" mais do que "importando" estudantes, e vice-versa. O privilégio econômico é fator decisivo tanto para se conseguir a vaga, como, também, para permitir o deslocamento para cursar universidade em outro estado. Viver em residência universitária no Brasil só está acessível a 1% dos estudantes.</P>
<P>O MEC ainda não divulgou a proporção de alunos da escola pública que conseguiram vagas entre as 40 mil ocupadas no SiSU. Mas tudo leva a crer que a já pequena fração de alunos da escola pública seja reduzida, incrementando a outra desigualdade. A ironia é que mais alunos da escola pública concorrem a vagas no ensino superior (a intenção declarada do MEC), mas menos logram êxito.</P>
<P>Embora a primeira aplicação do SiSU tenha apresentado problemas operacionais que podem ser corrigidos em futuras edições, a grande debilidade do sistema é conceitual, e esta não tem solução à vista. Tivessem ocorrido discussões prévias com a comunidade acadêmica, estes problemas teriam sido detectados. Como não houve, temos um barco em cruzeiro precisando ser consertado, ou, talvez, abandonado.</P>