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Recuperação de floresta leva de séculos a milênios

19/06/2008 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56765
Áreas degradadas de mata atlântica levam de 100 a 300 anos para se regenerar. Demora para retomar 40% de espécies endêmicas pode alcançar de 1 a 4 milênios, daí a urgência de preservar os últimos fragmentos <BR><BR>Um estudo na edição deste mês do periódico "Biological Conservation" traz boas notícias para a mata atlântica, que precisa desesperadamente delas depois de perder 93% de sua cobertura original. A floresta que recobria o litoral oriental do Brasil na chegada dos europeus consegue, sim, recuperar-se em tempo relativamente curto: 100 a 300 anos.<BR><BR>Em outras palavras, seriam necessárias de 4 a 12 gerações de brasileiros para recompor a mata destruída nas últimas 20. Se parece muito, prepare-se para a má notícia: o trabalho concluiu que a recomposição de toda a biodiversidade da floresta pode demorar entre 40 e 160 gerações (1.000 a 4.000 anos).<BR><BR>O estudo foi realizado por três pesquisadores da Universidade Federal do Paraná a partir de uma idéia de Marcia Marques, do Laboratório de Ecologia Vegetal. "Surgiu de uma curiosidade minha em compreender a resiliência [resistência] da floresta", conta. "Quando se observa uma floresta que se regenerou após um distúrbio, sempre vem a pergunta se aquela floresta corresponde ou não ao que era originalmente."<BR><BR>Seu estudante de mestrado Dieter Liebsch, co-orientado por Renato Goldenberg, se encarregou de levantar os dados. Eles foram obtidos em 18 outros estudos sobre mata atlântica publicados entre 1994 e 2007 que estabeleciam com alguma segurança a data de início da exploração da floresta. É o que se chama de "meta-análise" (compilação de informações de outros trabalhos).<BR><BR>A base da pesquisa foram as listas de plantas (florística) encontradas nos trabalhos anteriores. Uma floresta digna do nome precisa abrigar também aquelas espécies tolerantes à sombra, grandes árvores como a maçaranduba (Manilkara subsericea) e as perobas (Aspidosperma spp).<BR><BR>Isso leva tempo. Nos primeiros anos e décadas, predominam as espécies pioneiras, que se dão melhor com a abundância de luz solar em clareiras e fragmentos desmatados. Também são menos freqüentes as espécies que dependem de animais para ter suas sementes dispersadas, como os guamirins, parentes da goiabeira dependentes de aves.<BR><BR>Uma floresta madura contém 90% de espécies não-pioneiras e 80% de espécies dispersas por animais. Sabendo a proporção desses dois tipos e o tempo decorrido desde a perturbação da mata em cada um dos 18 casos, foi possível calcular a velocidade de regeneração do perfil: de um a três séculos.<BR><BR>A mata atlântica é também uma das florestas tropicais mais biodiversas do planeta, com 40% de espécies endêmicas (que só existem em certos locais). Para recompor essa chamada beta-diversidade, no ritmo atual, a mata precisaria de 1.000 a 4.000 anos. (Marcelo Leite)<BR>(Folha de SP, 18/6) <BR><BR><STRONG>Planos de manejo em xeque</STRONG><BR><BR>Estudo na Amazônia revela que floresta também precisa de mais tempo para se regenerar<BR><BR>O pitboy Carlos Maçaranduba, personagem do coletivo Casseta &amp; Planeta, não entenderia, mas as sutilezas em torno da árvore que lhe dá o nome são capazes de ajudar na preservação e exploração sustentável da Floresta Amazônica. É o que revela um estudo feito por pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que analisaram a estrutura genética da planta, considerada um dos modelos-chave para a compreensão da dinâmica da floresta.<BR><BR>O trabalho — que faz parte do projeto Dendrogene, que desde 2000 estuda o impacto da exploração florestal na biodiversidade da Amazônia — mostrou que para recuperar a sua área original, a Manilkara huberi, alvo crescente da indústria madeireira, necessita de 140 anos, bem mais do que os 30 anos recomendados pelo Ministério do Meio Ambiente para programas de manejo.<BR><BR>A análise lança uma sombra sobre os planos atuais de sustentabilidade da floresta.<BR><BR>— Embora ainda não esteja ameaçada de extinção, essa árvore amazônica é intensamente explorada na região por causa da sua madeira resistente e sua alta densidade — explica a pesquisadora Vânia Azevedo, que escreveu um artigo sobre o trabalho, agraciado com o prêmio “Stephen J. O’ Brien Award for 2008”, da Universidade de Oxford, Inglaterra. — Esses são alguns dos motivos que fazem com que a maçaranduba seja considerada uma espécie-modelo para representar a diversidade da floresta.<BR><BR>Como explica a pesquisadora, o manejo da região é feito de forma geral, considerando a floresta como um todo. O estudo mostra que esse padrão pode não ser o ideal.<BR><BR>— A regra de corte considera a floresta como um todo, mas a floresta é um ambiente complexo.<BR><BR>— conta Vânia, que fez a pesquisa ao lado dos cientistas Milton Kanashiro, Ana Yamaguishi Ciampi e Dario Grattapaglia. — Ainda faltam mais estudos sobre a dinâmica das florestas, mas tudo indica que as práticas atuais precisam ser revistas e que é necessário elaborar um modelo de exploração mais criterioso com base na diversidade das espécies existentes.<BR><BR>Diversidade que foi adotada pelos pesquisadores da Embrapa. Durante o trabalho, além da maçaranduba, foram estudadas outras cinco espécies.<BR><BR>— Foram escolhidas espécies com características diferentes, como polinizadores, taxas de crescimento e forma de reprodução. — conta Vânia. — A idéia era representar ao máximo a biodiversidade da floresta.<BR><BR><STRONG>Pior cenário é o permitido por lei</STRONG><BR><BR>No caso da maçaranduba, foram levantadas diversas informações sobre a biologia da espécie, inclusive dados genéticos. Depois, esse material foi enviado para um programa de simulação chamado Eco-gene.<BR><BR>— Juntamos todos os dados que foram obtidos nos estudos de ecologia. Quanto tempo a espécie está com flor, qual é a sua taxa de crescimento, qual é o fluxo de pólen etc. A partir dessas informações, criamos uma população artificial e simulamos a floresta ao longo de vários anos.<BR><BR>Dessa forma, explica a pesquisadora, foi possível criar diversos cenários sobre o impacto da exploração na floresta.<BR><BR>— Curiosamente, o pior cenário foi o atual, o permitido pela lei, de 30 anos de recuperação.<BR><BR>Em um dos cenários, fizemos um corte e deixamos a floresta se regenerar para ver quanto tempo ela levaria para se tornar novamente uma mata original. E o resultado mostrou que a maçaranduba leva cerca de 140 anos para voltar a ser o que era.<BR><BR>Outra revelação do estudo — no qual foram usadas imensas torres para estudar de perto a biologia das árvores — foi que o ciclo de pólen na floresta muitas vezes não chega a 50 metros.<BR><BR>— Isso significa que a diversidade de algumas espécies, como a maçaranduba, não está distribuído de forma heterogênea. Se você corta a floresta e deixa uma árvore muito longe da outra, isso pode atrapalhar a regeneração. Então, o corte não pode ser desordenado. Ele tem que ser criterioso. <FONT size=1>(Carlos Albuquerque)<BR>(O Globo, 18/6)</FONT><BR><FONT size=1><A href="http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56765">http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=56765</A></FONT>
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