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Savana aumenta 170% até 2100 na Amazônia, diz Inpe
18/03/2009
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=62264
Estudo inédito é o primeiro a simular efeito conjunto de desmate e mudança do clima; Calor e secura aumentam risco de incêndio e levam a floresta a um novo estado; em cenário otimista, só 66% da área cortada se regenera <BR><BR>Afra Balazina escreve para a “Folha de SP”:<BR><BR>Se até 2100 a temperatura aumentar 5C e forem desmatados 60% da floresta amazônica na América do Sul, a savana crescerá 215,6% na região. Neste mesmo cenário, somente 44,2% da floresta destruída conseguirá se regenerar.<BR><BR>Já num cenário um pouco mais otimista, em que a temperatura sobe até 3C e o desmatamento é de 40% até 2050, a savana se amplia em 170% e apenas 66,2% da área desflorestada pode voltar a brotar.<BR><BR>Os cálculos, que acabam de ser finalizados, integram um estudo inédito do grupo liderado pelo climatologista Carlos Nobre, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).<BR><BR>Pela primeira vez, cientistas do Brasil avaliaram os efeitos conjuntos do desmatamento e do aquecimento global para a Amazônia. A pesquisa, feita usando modelos computacionais, mostra que a combinação desses dois fatores nas próximas décadas pode levar à savanização da Amazônia e à perda "catastrófica" de espécies.<BR><BR>Este último cenário, o "otimista", está longe de ser ficção: uma elevação de 3C na temperatura da Terra até 2100 é a previsão do IPCC, o painel do clima das Nações Unidas. E um modelo da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) estima em mais de 40% o desmatamento nas próximas décadas se o desgoverno sobre a Amazônia continuar.<BR><BR>Após o desmatamento, explica Nobre, se não houvesse nenhum impacto, a floresta poderia crescer e ocupar novamente a área desmatada. "Como o clima muda, a floresta não consegue mais voltar onde o clima ficou mais seco", diz.<BR><BR>No primeiro caso, o clima muda em 66% da floresta, a tal ponto que não é mais possível manter o ecossistema original. "Aquelas áreas que foram perdendo floresta foram ganhando savana", afirma. Só que a savana que surge onde antes era floresta é pobre em espécies.<BR><BR>Outro fator importante é que a escala de tempo normal para a migração de ecossistemas é de séculos a milênios, ou seja, a adaptação ocorre de forma mais lenta que as alterações induzidas pelo desmatamento e pela mudança do clima.<BR><BR>Assim, esses fatores conjuntos têm o potencial de impactar profundamente a diversidade de espécies de plantas e animais numa das regiões mais biodiversas do planeta.<BR><BR>Em 1991, Nobre e seu colega Marcos Oyama publicaram o primeiro artigo sobre a savanização na Amazônia, levando em conta só o desmatamento.<BR><BR>O principal risco para a floresta da combinação dos efeitos de desmatamento e aquecimento é a maior sensibilidade da Amazônia a incêndios -algo com o que a floresta tropical não está acostumada e principal indutor de savanização.<BR><BR>Inflamável<BR><BR>"Quando você tem aquecimento global, tem secas mais intensas, mais fogo. E se você tem desmatamento, você aumenta a temperatura, diminui a chuva, tem mais seca e mais fogo", afirma Nobre.<BR><BR>"Antes, se ocorria uma descarga elétrica e a floresta pegava fogo, o incêndio ficava circunscrito a algumas dezenas de metros, pois a vegetação é tão úmida que o fogo não se propaga. Mas, na medida em que a exploração de madeira cria buracos, abrem-se estradas e a floresta vai ficando mais "ralinha", ela se torna mais suscetível."<BR><BR>Segundo Nobre, esse estudo representa uma primeira análise. "É ainda muito simplificado, mas serve para abrir as portas e mostrar que precisamos de análises mais realistas."<BR><BR>Segundo ele, o novo supercomputador do Inpe ajudará nesse trabalho. "Este novo supercomputador vai nos permitir fazer simulações matemáticas em que nós vamos colocar todos esses fatores juntos."<BR><BR>Para Nobre, "a cereja do bolo" é conseguir ligar seus modelos físicos a modelos de dinâmica do uso da terra. Esse é um dos objetivos do recém-criado Centro de Ciência do Sistema Terrestre, do Inpe.<BR><FONT size=1>(Folha de SP, 17/3)</FONT><BR>