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Anpege se manifesta sobre oferta de disciplinas virtuais na pós-graduação
29/05/2020
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O uso das tecnologias de acesso remoto faz parte do nosso cotidiano e delas precisamos nos apropriar. Porém, sua absorção acrítica e indiscriminada não pode ser incorporada de maneira a substituir o conjunto de aspectos positivos do ensino presencial na universidade pública, gratuita e de qualidade, estruturada no ensino, pesquisa e extensão, afirma a Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em GeografiaManifestação sobre oferta de disciplinas virtuais na pós-graduação A Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia (ANPEGE) vem, por meio desta manifestação, posicionar-se a respeito da excepcionalidade na realização do Ensino a Distância (EaD) nos cursos de pós-graduação – a partir da Portaria 343/2020 do Ministério da Educação – e contra o possível legado na manutenção dessa forma de ensino pós-pandemia. As aulas presenciais são insubstituíveis na formação de mestrandos e doutorandos, considerando que o processo de ensino-aprendizagem exige relação dialógica e de interação presencial. Também, não se substitui a Universidade enquanto estrutura física, lugar de socialização, encontros e trocas de experiências. A posição desta Associação Nacional baseia-se nas seguintes proposições:– A realização da chamada Educação a Distância (EAD) possui bases pedagógicas e legislacionais diferenciadas. Só muito recentemente houve autorização, por parte da CAPES, para a oferta de pós-graduação stricto sensu a distância. Esta modalidade exige formação para novas metodologias e a preparação das instituições para ofertá-la.– Os projetos pedagógicos, as linhas de pesquisa, a composição curricular e a estrutura física laboratorial da imensa maioria dos Programas de Pós-Graduação não foram propostas, pensadas e organizadas para o Ensino a Distância (EaD);– É necessário incorporar uma reflexão crítica, garantindo princípios sobre qualquer discussão, proposição e organização de atividades virtuais, como: a) o envolvimento e posicionamento dos discentes; b) a garantia de equipamentos, suporte tecnológico e condições de trabalho a docentes; c) a plena acessibilidade dos alunos a equipamentos e rede de comunicação sem ônus (financeira, de tempo e sobrecarga de trabalho); d) o impedimento de qualquer imposição a docentes e discentes em sua realização; e) a garantia de revisão de prazos das atividades disciplinares; e f) a não adoção de sistemas avaliativos virtuais.– A condição econômica dos discentes deve ser levada em consideração, bem como a capacidade dos docentes para a docência em meios virtuais. Muitos discentes não possuem acesso adequado à internet e devem receber tratamento isonômico no ensino público, gratuito, laico e socialmente referenciado ofertado no sistema de pós-graduação do país. Independentemente de qualquer posicionamento a priori contrário ou favorável à educação a distância, vale a proposição de que se um discente, apenas um, não tenha condições de participar, devido a limitações estruturais, toda a atividade não pode ser realizada.– As atividades virtuais nos Programas de Pós-Graduação não podem substituir, em nenhuma hipótese, o tempo de realização dos cursos de mestrado e doutorado. Os prazos para realização e conclusão das pesquisas devem ser revistos, considerando os reflexos que o isolamento social tem produzido na reorganização das rotinas individuais de docentes e discentes vinculados aos programas, sobretudo as mulheres e mães.– Os Programas devem procurar todos os meios para prorrogação de bolsas e prazos, garantindo sua extensão, no mínimo, na mesma proporção do lapso de tempo das medidas de segurança sanitária indicadas pelos governos (municipais, estaduais e federal).– A Pós-Graduação e a Pesquisa em Geografia têm como recursos metodológicos imanentes a realização de trabalho de campo e a utilização de laboratórios, sem os quais é impossível a realização da grande maioria das pesquisas propostas pela ciência geográfica. Sua substituição por plataformas virtuais não é minimamente possível sem um prévio e consistente comprometimento com a qualidade das pesquisas– Como já é de conhecimento público, a Ciência brasileira sofre o maior ataque de sua história, sintetizado nas manifestações e propostas do Ministério da Educação e do Ministério de Ciência e Tecnologia no atual Governo Federal, assim como nas medidas adotadas pela CAPES e pelo CNPq, seja na direção do enxugamento de recursos e corte de bolsas, seja na desqualificação de determinadas áreas do conhecimento. Esses ataques estão direcionados principalmente à Universidade pública, lócus da realização da maior parte da pesquisa científica no Brasil. Dentre tantas propostas destrutivas da Universidade, a realização de aulas virtuais em tempos de pandemia pode se configurar em instrumento de “reformas” para a organização universitária pós-pandemia, o que estaria bastante de acordo com o discurso privatizante, mercantilizador e de ataques e destruição do Estado pelo atual governo.– As condições de saúde mental e física dos docentes e discentes devem ser levadas em consideração em uma conjuntura trágica de pandemia, potencializada por um governo federal com posturas desumanas e anticientíficas. É preciso ter cautela e bom senso e não há razão concreta para apressar as formações ou tentar evitar, a qualquer custo, atrasos que são inevitáveis. Além disso, o chamado trabalho em casa impulsionado pela EaD pode intensificar, durante e depois da pandemia, situações de agravamento da saúde mental, uma vez que nele se perdem os espaços de socialização e convívio presenciais tão fundamentais à realização de aulas, pesquisas e ao próprio cotidiano de professores, discentes e pesquisadores.Diante desses posicionamentos, a ANPEGE recomenda aos Programas que discutam profundamente a excepcionalidade, eventualidade e transitoriedade da realização de aulas virtuais em disciplinas de pós-graduação, garantindo equidade no tratamento aos estudantes e docentes e objetivando minimizar prejuízos, sem deixar de considerar os limites infraestruturais e a saúde das pessoas. O uso das tecnologias de acesso remoto faz parte do nosso cotidiano e delas precisamos nos apropriar. Porém, sua absorção a-crítica e indiscriminada não pode ser incorporada de maneira a substituir o conjunto de aspectos positivos do ensino presencial na universidade pública, gratuita e de qualidade, estruturada no ensino, pesquisa e extensão.27/05/2020 Confira o documento neste link.