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País fica atrás em inovação, diz Bird
12/09/2008
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=58559
<P>Estudo do Banco Mundial aponta que universidade é distante da indústria e que Brasil só adapta tecnologias <BR><BR>Simone Iwasso e Maria Rehder escrevem para “O Estado de SP”:<BR><BR>O Brasil está ficando para trás na comparação com outros países em desenvolvimento quando se trata de produzir conhecimento novo e de convertê-lo em resultados práticos.<BR><BR>A conclusão é de um estudo inédito do Banco Mundial (Bird), que será divulgado hoje em seminário promovido pela Fundação Lemann. Ele aponta os fatores da deficiência brasileira na área: ensino básico precário, que resulta em profissionais pouco qualificados, universidades distantes do setor produtivo e voltadas mais para conhecimento teórico do que prático e tradição de importar e adaptar tecnologias, em vez de criá-las.<BR><BR>“O Brasil está publicando pesquisas em um ritmo bastante aceitável, tendo hoje 2% dos artigos científicos de revistas e jornais internacionais. Mas o número de patentes é baixo, 0,18% das patentes internacionais são brasileiras”, explica Alberto Rodriguez, um dos principais autores, que está no País esta semana para lançar o estudo.<BR><BR>“Há a necessidade de que a pesquisa feita na universidade e nos laboratórios seja mais voltada para aplicações práticas e menos para a teoria. E há excessiva falta de investimento em pesquisa e desenvolvimento por parte do setor privado, que precisa se envolver mais.”<BR><BR>Segundo ele, enquanto outros países em desenvolvimento, como China, Índia e Coréia, estão se transformando em produtores de conhecimento graças a investimentos na formação de pesquisadores em áreas tecnológicas - e, com isso, alavancando suas economias -, o Brasil segue dependente de seus bens naturais, crescendo em um ritmo menor. “Apenas 19% dos estudantes de ensino superior no Brasil estão nas áreas de ciências e engenharias. No Chile são 33% e, na China, 53%”, afirma o relatório.<BR><BR>De acordo com levantamento feito pelo Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) da Unesp com base em dados do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), as universidades hoje representam 0,78% do total de depositantes de patentes no País - que conta com cerca de 50 mil pesquisadores.<BR><BR>A assessora da pró-reitoria de pesquisa da Unesp, Tânia Regina de Luca, reconhece a necessidade de as universidades investirem em inovação para a sua incorporação pelo setor produtivo, além da transformação do conhecimento científico em conhecimento técnico e gerencial.<BR><BR>“Não podemos negar que isso contribui para o crescimento econômico do País”, avalia. “Temos de manter relações próximas com as indústrias, mas não podemos deixar de lado a autonomia das universidades, a nossa preocupação é com o conhecimento pelo conhecimento, com a pesquisa livre, e às vezes a empresa está mais preocupada com a gestão do conhecimento para gerar lucro.”<BR><BR>Para Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), um dos motivos que explicam o descompasso entre indústria e academia é a falta de doutores trabalhando em pesquisa nas empresas. “A universidade muitas vezes não tem com quem dialogar na empresa porque ela não faz pesquisa e há poucos doutores”, avalia Cruz.<BR><BR>“Concordo com o relatório quando ele aponta que precisamos ter algumas universidades de excelência, com padrão de pesquisa internacional, e isso está na contramão da nossa política educacional, que não valoriza a excelência e prega a homogeneização”, afirma.<BR><BR>Petrobrás e Embraer são exemplos positivos <BR><BR>Na avaliação do Banco Mundial, o Brasil tem exemplos positivos em termos de produção de conhecimento tecnológico avançado, que merecem destaque internacional. O pesquisador Alberto Rodriguez cita o caso da Embraer e da Petrobrás, empresas nacionais que, segundo ele, têm feito esforços para criar conhecimento novo. <BR><BR>O problema é que esses casos não são suficientes para que o Brasil cresça fortemente. Além de serem poucos, de acordo com Rodriguez, não é possível perceber seu impacto nas cadeias produtivas. “A gente imagina que a Petrobrás produza um deslanche de inovação em todas as suas empresas distribuidoras. Isso acontece em algumas, mas não em todas.”<BR>(O Estado SP, 11/9)<BR><BR>Leia, abaixo, entrevista de Rodriguez ao Estado:<BR><BR>- Qual a principal conclusão do trabalho? Por que o Brasil não deslancha na área da inovação?<BR><BR>Fazemos uma análise de como a educação, no caso do Brasil, é um instrumento importantíssimo para a melhoria da competitividade no País. O Brasil vem crescendo, mas vem crescendo pouco quando você compara com outros países em desenvolvimento. <BR><BR>Só que esse crescimento econômico está embasado em dois elementos. Um deles está ligado ao boom das commodities, ou seja, que prova que o Brasil tem muitos recursos naturais e sabe explorá-los, conseguindo, com isso, uma balança comercial positiva. Um segundo elemento é que esse crescimento econômico, em comparação com outros países competidores do Brasil, como a China , como Coréia, como Índia, inclusive como o México, não é um crescimento impressionante, muito forte, é um crescimento razoável, mas não vai permitir que o Brasil chegue no patamar de país desenvolvido no futuro próximo. <BR><BR>- Por quê? <BR><BR>O Brasil não cresceu por ser uma sociedade inovadora, cresceu porque a base de capital de trabalho aumentou. Se você compara essa base do Brasil com a Coréia, o comportamento é muito parecido, mas a Coréia cresceu cinco vezes mais nesse período, o PIB per capita cinco vezes mais nesse período, você analisa porque e descobre que o elemento fundamental está no que se chama nos fatores totais da produtividade, essencialmente, na capacidade da sociedade em produzir de forma melhor, mais eficiente e mais barata o mesmo produto de alta qualidade. O Brasil foi débil nos últimos 30 anos. <BR><BR>- Há três tipos de inovação. Os aviões da Embraer, o iPod são inovações da criação de conhecimento, e o Brasil, nesse campo, tem algumas coisas boas e ruins. <BR><BR>O Brasil está publicando pesquisas em um ritmo bastante aceitável. Ele hoje publica 2% das pesquisas nas revistas e jornais internacionais e o PIB do Brasil é cerca de 2% do PIB do mundo. Então, em pesquisas está indo, mas em patentes está baixo, menos 0,18% das patentes internacionais são brasileiras. Há a necessidade de que a pesquisa e desenvolvimento sejam mais voltados para a indústria e menos para a teoria. É preciso conseguir que as empresas privadas façam investimentos em pesquisa e desenvolvimento. No Brasil, cerca de 70% do investimento em P&D é público, o que contrasta com o Japão, por exemplo, onde apenas cerca de 20% do investimento em P&D é público. <BR><BR>O segundo tipo de inovação é a inovação que vem de trazer conhecimento do exterior. É adoção e adaptação da ciência e tecnologia. Esse tipo de inovação é um tipo onde o Brasil mais uma vez fica um pouco atrás. Há dois mecanismos principais pelos quais um país consegue trazer conhecimento: um através do comércio exterior, porque a maioria do conhecimento vem através de maquinaria, por exemplo. <BR><BR>A segunda forma pela qual você consegue trazer e adotar tecnologia do exterior é através da troca universitária, pesquisadores brasileiros que vão para fora, alunos que vão para lá, alunos que vêm para o Brasil. Aí também o País fica bem atrás, o número de alunos indo para universidades no exterior é bem menor do que você em outros países até com populações menores. O terceiro tipo de inovação é o que se chama difusão de tecnologia e conhecimento que já estão no Brasil e que só precisam passar de uma empresa para outra para melhorar a produtividade de todas as empresas. <BR><BR>- E o que esses fatores têm a ver com a educação?<BR><BR>Para criar novas tecnologias não precisa de muita coisa, o que precisa é de PhD. Para pesquisar e obter patente é preciso educação de alto nível. No caso do Brasil é preciso investir muito mais em pesquisa prática aplicada a empresa, isso tem a ver com as universidade e sua relação com as indústrias.<BR><BR>Já para fazer adoção de tecnologias, você precisa de um cara que possa ler o manual da máquina nova que chegou de fora e possa ler, entender o que está dizendo e pensar em como ele pode melhorar o processo produtivo em que ele participa. Para isso é importantíssimo uma educação básica sólida. Aquela capacidade do empregado de pensar o que está fazendo de uma forma crítica e de propor ao gerente da companhia coisas diferentes lá na ponta, essa é a razão pela qual aos empresários fazem grandes investimentos na educação básica, especificamente na alfabetização. <BR><BR>Analisamos os dados e vimos que as empresas brasileiras fazem grandes investimentos em treinamento para os seus funcionários, muito maiores que a média mundial, só que as empresas grandes, produtivas, investem seus empregados para melhorar sua produtividade, as pequenas, quando fazem investimento,s são para suprir as deficiências do ensino básico. <BR><BR>Então, há um problema sério no ensino básico de não permite que as empresas possam realmente inovar, treinar para melhorar a produtividade ou conseguir difusão de tecnologia entre as empresas, porque seus funcionários não têm nível educacional básico suficiente.<BR><BR>- Existe algum modelo inovação que o Brasil é melhor ou pior?<BR><BR>O Brasil tem fachos de luz em termos de produção de conhecimento. Embraer, Petrobrás, pesquisa industrial em álcool. O Brasil tem feito grandes esforços para criar conhecimentos novos, o problema nesses casos é que não são suficientes para que a economia do Brasil cresça fortemente. É muito pouco e, além de ser pouco, a gente não percebe o impacto deles em sua cadeia produtiva. Na criação de conhecimento o Brasil tem fachos de luz que merecem reconhecimento nacional e internacional que não tem sido suficientes.<BR>(<FONT size=1>O Estado de SP Online, 11/9)</FONT></P>
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