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Muitos municípios pediram médicos a programa federal, mas poucos receberam

12/08/2013 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=88629
Para mostrar o atendimento, Zero Hora percorreu duas cidades selecionadas pelo Mais Médicos

 
Enquanto 22 municípios gaúchos comemoram ter conseguido ao menos um
profissional por meio do programa federal Mais Médicos, outros 324
seguem na fila de espera. Para mostrar como é o atendimento médico nas
cidades inscritas no programa, Zero Hora percorreu dois municípios
selecionados pelo Ministério da Saúde como prioritários: Redentora, no
noroeste do Rio Grande do Sul, uma das contempladas com pelo menos um
médico e São José do Norte, na Região Sul, que ainda espera por
profissionais.
 
Mesmo em Redentora, que ganhou um profissional, a demanda do Mais
Médicos não foi plenamente atendida. Segundo a prefeitura, ainda faltam
três profissionais para que as vagas do programa sejam preenchidas.
 
Dos 107 médicos selecionados para 35 municípios gaúchos, apenas 47
homologaram a inscrição, reduzindo ainda mais o número de cidades
beneficiadas. A baixa adesão de profissionais, que no Estado teve índice
de desistência de 56%, fez o governo prorrogar até ontem a
possibilidade de indicação, por médicos brasileiros, de seis opções de
cidades em que desejam atuar. Uma nova lista será publicada no sábado,
dia 10. Caso as vagas não sejam preenchidas, médicos estrangeiros
poderão ser chamados.
 
São José do Norte queria cinco e não levou nenhum
 
Os pacientes já sabem.
 
- Enfermeiro e dentista só de vez em quando - avisa Danúbio Machado,
20 anos, para outro homem que se aproximava perguntando por médico meia
hora antes de abrir o posto de saúde do bairro Cidade Baixa para tentar a
sorte com uma ficha de atendimento.
 
O município de 25 mil habitantes tem cinco postos de saúde da
família, mas somente um médico da família. Fora isso, ainda há um postão
com um clínico geral e um pediatra. A situação é tão crítica que a
cidade estava na lista de prioridades do programa Mais Médicos. Pediu
cinco para suprir o déficit. Não levou nenhum.
 
A demanda não atendida nos postos vai para o Hospital São Francisco, no município, ou acaba na cidade vizinha, Rio Grande.
 
- Por falta de atenção básica, nossos médicos não dão conta de
atender tantas pessoas. Nosso hospital tem 10 médicos, mas deveria ter
pelo menos mais cinco. O SUS paga muito pouco e não temos como atrair
profissionais - desabafa o presidente da associação do Hospital São
Francisco, Roberto Atore Rocha Junior.
 
O Ministério da Saúde estima que 85% dos problemas da população
poderiam ser resolvidos nos postos, o que desafogaria as emergências,
locais conhecidos pela dona de casa Márcia Andréia da Silva, 31 anos,
que carregava seu bebê de 10 meses, Leidimor, em busca de consulta no
hospital:
 
- Ele está ardendo de febre. Não tem ficha agora. O que faço? Vou eu
medicar? Volto meio-dia? Ou vou para Rio Grande? Para posto não vou, sei
que não tem médico - desabafou.
 
A conexão com Rio Grande é feita somente pela água. A balsa, cujo
trajeto leva meia hora, funciona das 5h45min às 23h30min. Para
emergências, há uma embarcação próxima com o logo da prefeitura e o
sugestivo nome "Esperança III". A grávida de sete meses Vanessa da Silva
da Hora, 22 anos, só espera que sua criança não nasça na madrugada:
 
- Senão, vai ser difícil arranjar transporte para Rio Grande!
 
Desde 2007, foram abertos três concursos para médicos com pelo menos
seis vagas em cada, mas ninguém assumiu, apesar da oferta de um salário
de R$ 10 mil, graças a um convênio com uma empresa terceirizada.
 
* Raio x da cidade
Habitantes: 25.503
 
* Número de médicos
Cinco postos de saúde da família: um médico que atende em apenas um
deles. No postão: um clínico geral, um pediatra.No hospital: 10
profissionais. Um Centro de Atenção Psicossocial: um clínico geral e um
psiquiatra.
 
* Atendimentos
Nos postos de saúde em que um médico atua: 440 ao mês . No hospital:
cem internações e 3,8 mil atendimentos ambulatoriais e consultas ao mês.
 
Redentora queria quatro mas ganhou apenas um
De duas a quatro horas é o tempo que o agricultor Abilio José
Felmdann, 61 anos, espera para ser atendido. Para ele, a contratação de
um novo profissional para o município representa menos tempo na fila de
espera do posto de saúde.
 
No início do mês, um dos 47 profissionais aptos a trabalhar pelo Mais
Médicos no Estado deve começar a atuar na cidade, no interior ou na
área indígena.
 
Embora faça parte do seleto grupo de 22 municípios gaúchos que
receberá ao menos um profissional na primeira fase do programa,
Redentora seguirá com vagas abertas. O médico selecionado, João Carlos
Bastos Pereira, 57 anos, sanará apenas um quarto da demanda do
município, que solicitou quatro profissionais ao programa. Dois deles
para trabalhar na área indígena, onde reside 40% da população, e outros
dois para atuar na cidade e no interior.
 
Pereira é conhecido da população de Redentora. Ele mora há 10 anos no
município e atende em um consultório particular. Antes, também
costumava atender no hospital da cidade, que foi interditado pela
Vigilância Sanitária do Estado em março.
 
Conforme a prefeitura, com o fechamento do hospital, 98% da população
passou a ser recebida na Unidade Básica de Saúde localizada no centro
do município. Os outros 2%, que têm maior poder aquisitivo, procuram
atendimento particular na cidade ou em municípios vizinhos, como Tenente
Portela e Santo Augusto.
 
- Recebi proposta em outro município, mas não gostaria de me mudar.
Por isso, me inscrevi no Mais Médicos. Se não fosse selecionado, já
teria deixado a cidade - comenta Pereira.
 
Redentora foi a primeira das seis cidades escolhidas pelo
profissional no Mais Médicos. Mesmo aderindo ao programa, ele afirma que
compreende a baixa procura da categoria. Segundo o médico, o projeto
peca por não oferecer benefícios, como 13º salário e férias, e plano de
carreira.
 
Para o prefeito Marcos César Giacomini, o programa é favorável, pois
ajudou o município na árdua tarefa de contratar e remunerar médicos.
Depois que dois dos quatro profissionais concursados desistiram de atuar
no município, a prefeitura abriu novo concurso em 2011, mas não recebeu
inscrições. A saída foi oferecer contratos emergenciais, por uma
remuneração que chegava a ser o dobro do concurso: R$ 10,2 mil. Mesmo
assim, apenas um médico foi contratado.
 
* Raio x da cidade
Habitantes: 10.222
 
* Médicos
O hospital está interditado desde março deste ano. Uma Unidade Básica
de Saúde. Área indígena: um médico. Treze postos de saúde: três médicos
que se alternam nas unidades.
 
* Atendimentos
Média de 1,5 mil em postos ao mês
 
(Fernanda da Costa e Júlia Otero / Zero Hora)
http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/geral/noticia/2013/08/muitos-municipios-pediram-medicos-a-programa-federal-mas-poucos-receberam-4228614.html
 
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