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Cota é ilusão de fim do problema, diz reitor da Zumbi dos Palmares

14/05/2013 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=87024
Entrevista com José Vicente, reitor da faculdade Zumbi dos Palmares, para a Folha de São Paulo A maioria dos 1.500 estudantes da Faculdade Zumbi dos Palmares é negra, veio de escolas públicas e trabalha o dia todo. Para obter o diploma, desembolsam R$ 300 por mês."Aqui não tem riquinho como na USP, não", diz o reitor José Vicente. Dentre os que já passaram pelas salas de aula da faculdade que levam o nome de personalidades negras como Cartola e Barack Obama, e fizeram cursos como administração e direito, alguns hoje estão em cargos de chefia. Mas a inclusão do negro no mercado de trabalho ainda é um desafio que, diz Vicente, as cotas no ensino superior não conseguem resolver. "O Brasil nunca olhou a questão do negro com afinco." Leia abaixo os principais trechos da entrevista. InclusãoNo Brasil, temos a postura de resolver o problema pela metade. Entende-se que as cotas no ensino superior podem resolver a exclusão, o apartheid social. E não é isso. O Brasil nunca teve interesse em resolver esse problema da inclusão do negro com afinco. AçõesA estrutura está contaminada pela ideia de que não existe raça ou racismo, que o problema é econômico. É preciso um sistema e não uma ação. E o mercado de trabalho? E a história do negro? E o corpo docente? E a comunicação social? Isso não está sendo discutido. Há uma ação mínima que causa a ideia de que o problema está solucionado. Ensino SuperiorQuando a Zumbi foi criada [em 2003] havia cerca de mil instituições de ensino superior. Hoje temos mais de 2,3 mil instituições de ensino superior no Brasil e continuamos tendo apenas a Zumbi [como faculdade para negros]. Nos EUA há 130 universidades negras e 70% delas públicas. AlternativasEnquanto todos estão discutindo as cotas no ensino superior, nós fizemos uma faculdade para negros. Nessa perspectiva a Zumbi foi importante para não ficar refém do debate de cotas e de quem diz que raça e racismo não existem. Há formas criativas de se responder a uma demanda e a uma necessidade da educação superior como um todo. Dez anosTalvez sem a Zumbi nós não teríamos tantos formadores de opinião no movimento negro do Brasil. Fomos os pioneiros no ensino superior para negros e obrigamos todos a, de certa forma, mudar. LegislaçãoNós temos uma lei de história do negro e história da África que nunca saiu do lugar, um estatuto da igualdade racial que nunca foi regulamentado e nunca ninguém foi preso no Brasil pro crime de racismo. Estados UnidosNos EUA houve uma série de ações civis que implicavam o negro nas universidades, no mercado de trabalho, na comunicação social. Não há um único filme norte-americano sem um negro. No Brasil, que tem 50% da população negra, não vemos negros nos filmes, mesmo que sejam feitos com dinheiro público. PreconceitoEstou cansado de me darem a chave do carro quando vou a um restaurante achando que sou manobrista. Ou que sou motorista. Existe uma ideia negativa do negro, do enegrecer, do "lado negro". O negro é aquele cara que leva chumbo da polícia na TV. Com essa perspectiva no imaginário, quem vai querer contratar negro para cargo importante? EnadeÉ possível avaliar alguém da USP como alguém da Zumbi, que trabalha o dia inteiro e mora na Cidade Tiradentes? [faculdade é nota dois no Enade]. Isso é injusto e insano. Duvido que outra instituição consiga fazer o que a Zumbi faz do ponto de vista da autoestima, do conhecimento, da conscientização. (Sabine Righetti / Folha de São Paulo)
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