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Pesquisador alertou para a ação do homem sobre o ambiente

20/03/2012 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=81611
Artigo de José Goldemberg, ex-reitor da USP, publicado no jornal O Estado de São Paulo de sábado (17).
Conheci Aziz como colega na universidade desde 1950
e como presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
(SBPC). Aziz Nacib Ab'Saber era mais que um geógrafo e fez contribuições
importantes em ecologia, biologia evolutiva, fitogeografia, geologia e
arqueologia.
 
Seus estudos, ao longo principalmente das décadas de 50, 60 e 70, são
fundamentais para a compreensão, por exemplo, dos processos de
especializações geomorfológicos, climáticos e florestais (hoje da
biodiversidade) amazônicas, utilizando-se de interpretação original
baseada nas mudanças do clima ao longo do Período Quaternário e a sua
influência na compartimentação do meio natural sob a forma de
"refúgios". Com base nesses estudos, apresentou a primeira grande
síntese das paisagens naturais brasileiras, expressa no seu famoso
trabalho Domínios Geomorfológicos do Brasil.
 
Pioneiro das pesquisas hoje ditas ambientais no País, Ab'Saber foi um
legítimo herdeiro da tradição francesa e alemã em geografia em que
concebia os fenômenos e processos que modelam os espaços e regiões de
modo integrado, com ênfase na evolução, estrutura e dinâmica das
paisagens naturais.
 
O que sempre me impressionou nele foi não só a competência específica
nessas áreas, mas uma visão do conjunto do que é o ambiente natural
onde vivemos e o quão vulnerável ele pode ser à ação do homem.
 
Já em 1954, preparou um trabalho sobre a cidade de São Paulo (O Sítio
Urbano da Cidade de São Paulo), publicado por ocasião do Quarto
Centenário, no qual apresenta sua original interpretação sobre a
evolução da capital paulista tendo como base a compartimentação do seu
relevo e da sua hidrografia e que é uma referência fundamental para a
compreensão da geografia da cidade.
 
Uma característica de toda sua vida profissional foi sua total
independência e coragem, que o levou a se envolver em controvérsias
sobre grandes projetos desenvolvimentistas no País, como a transposição
do Rio São Francisco, a expansão das culturas homogêneas e o Código
Florestal.
 
Como colegas, participamos dos grandes debates promovidos pela SBPC
no passado sobre os grandes problemas nacionais, incluindo energia
nuclear. O que ficou claro é que suas simpatias políticas nunca afetaram
o seu julgamento científico no que se refere às questões ambientais e
preservação da natureza, o que levou a um afastamento do governo Lula e
do PT, dos quais era inicialmente muito próximo.
 
O projeto científico que envolve Ab'Saber que conheço melhor é o
Floram, desenvolvido em colaboração com Jacques Marcovitch, Werner
Zulauf, Leopold Rodés e que apoiei como reitor da USP na ocasião.
 
A ideia do Floram era promover a implantação de florestas em larga
escala (8 milhões de hectares), capturando parte do carbono emitido pelo
desmatamento e queima de combustíveis fósseis que está mudando a
composição da atmosfera e provocando mudanças climáticas. Isto foi em
1989, antes que preocupações com mudanças climáticas se tornassem
populares e mostra a visão abrangente de Ab'Saber sobre essas questões.
 
Nos últimos anos, dedicou-se aos estudos sobre a Amazônia, no qual se
destacam suas contribuições sobre o Zoneamento Ecológico-Econômico
enquanto instrumento para o planejamento ambiental e territorial daquela
região com vistas, sobretudo, em sua visão, em medidas voltadas para a
conservação dos seus ecossistemas. Foram esses estudos que levaram
Ab'Saber a se insurgir contra as modificações aprovadas na Câmara dos
Deputados em 2011 no Código Florestal.
 
Sua vida é um excelente exemplo do que temos de melhor em ciência e integridade pessoal e profissional no Brasil.
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