Voltar para Notícias
Ciência ajuda a alimentar o mundo
08/02/2012
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=81070
Confira a entrevista com o moçambicano Hélder Muteia publicada no jornal O Globo de hoje (7).
Representante no Brasil da Organização das Nações
Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o moçambicano Hélder Muteia
destaca a enormidade do desafio que temos pela frente para alimentar a
crescente população mundial - seremos 9 bilhões em 2050 - de forma
sustentável e
num mundo cada vez mais quente. Em 2009, um em cada 6 habitantes do
planeta estava desnutrido. E entre 2010 e 2011, a produção mundial de
cereais caiu 1,1%. Para o especialista, somente a ciência e a tecnologia
poderão ajudar o mundo a estar à altura do desafio. O Globo:
Em 2009, atingimos um triste recorde mundial, com 1,023 bilhão de
pessoas desnutridas. Este índice deveu-se a fenômenos como a seca na
Rússia. Com a projeção de que eventos climáticos extremos vão se tornar
cada vez mais comuns, podemos esperar novos recordes de desnutrição num futuro próximo?
Hélder Muteia: Os desastres climáticos sem dúvida representam um
risco enorme aos esforços de combate à fome mundial, a exemplo da
terrível seca que atingiu a região do Chifre da África em 2011, a pior
dos últimos 60 anos. Mas eles são apenas parte do problema, há outros
fatores, como o aumento e a volatilidade dos preços dos alimentos, que
causam prejuízos aos pequenos agricultores, os mais atingidos pela fome.
Afinal, 75% das pessoas que passam fome no mundo estão no campo.
Nossa esperança é que a fome diminua no mundo. Até 2015 esperamos ter
menos do que 400 milhões passando fome. Mas para isso, o mundo precisa
estar preparado para produzir alimentos de maneira sustentável. Acima de
tudo, precisamos de uma nova plataforma institucional internacional, de
novos atores com vontade política para combater a fome. Só
recentemente, por exemplo, o G-20 incluiu o tema do combate à fome na
agenda de discussões. Voltando aos desastres naturais, temos de nos
preparar melhor para enfrentá-los e reduzir seus efeitos. Em um país de
forte instabilidade social, um evento climático extremo tem um efeito
devastador, como se observa em nações do continente africano. Isso gera
aumento dos conflitos armados, o que dificulta muito o trabalho de ajuda
humanitária nas regiões atingidas. Em áreas agrícolas, é preciso que
haja um conjunto de ações que fortaleça o sistema produtivo no campo
(acesso à terra, água, mercado e tecnologia ao pequeno produtor) e o uso de mecanismos de prevenção, como o mapeamento e a identificação do histórico de áreas atingidas.
O Globo: A produção de alimentos cresce hoje num ritmo que acompanha o crescimento da população?
Muteia: Nós temos muitos desafios. Como mencionei, a alta
volatilidade de preços tem prejudicado muito nossos esforços. Apenas
entre 2010 e 2011, ela empurrou cerca de 70 milhões de pessoas para a
pobreza extrema, tornando-as ainda mais vulneráveis à fome. Também temos
o desafio demográfico: em 2050 seremos 9 bilhões e a produção de
alimentos deve crescer em 70%. Porém, entre 2010 e 2011, a produção
mundial de cereais caiu 1,1% e o consumo aumentou em 1,9%. Isso afetou
negativamente os estoques mundiais. Mas nós acreditamos numa
recuperação sólida. Não só do ponto de vista da produção, mas também do
acesso real aos alimentos pelas pessoas mais vulneráveis. O
fortalecimento da produção e do consumo em âmbito local é uma peça-chave
nesse mecanismo. Por meio dele, é possível combater a fome e dinamizar a economia ao mesmo tempo.
O Globo: Qual será, nas próximas décadas, o papel do Brasil na
produção de alimentos? O crescimento de nossa produção, como é feita
hoje, representa um risco ao meio ambiente, levando em consideração a
expansão das fronteiras da agropecuárias para áreas de florestas?
Muteia: O Brasil é um país que aposta na agricultura. Essa aposta
deve vir acompanhada de três elementos essenciais: sustentabilidade
econômica, social e ambiental. A ciência já demonstrou que a base de
recursos que nos alimenta tem os seus limites. O ambiente é feito de
múltiplos sistemas que se sustentam em cadeia. Os solos, o fluxo das
águas, a temperatura, as florestas, a fauna... Eles formam uma cadeia de
sustentação. Qualquer desequilíbrio nessa equação pode comprometer a
vida no planeta. A agricultura mal concebida e mal implementada acarreta
riscos: desmatamento, emissão de gases-estufa, uso excessivo de
agroquímicos e degradação de solos. A ciência deve nos ajudar a
encontrar os melhores caminhos para uma vida mais sustentável em todos
os níveis. E o Brasil tem um papel fundamental nisso, pois possui muito
conhecimento na área agrícola. A ciência vai contribuir para o
desenvolvimento sustentável. Ela é parte essencial da solução para a
questão ambiental. O Globo: O governo brasileiro investe em
produtos transgênicos, fixação biológica de milho e cana-de-açúcar e
nanotecnologia na agricultura. Como o senhor analisa a aplicação dessas
tecnologias em alimentos?
Muteia: As instituições científicas têm a responsabilidade de
encontrar as respostas tecnológicas e propor as soluções para aumentar a
produção com sustentabilidade. Há regras mundiais e nacionais que
orientam esse exercício. Nós apoiamos toda pesquisa que promova os
objetivos de combater a fome, dentro da legalidade e de princípios
éticos. O Globo: Os transgênicos, como existem hoje, já são mal
vistos por parte da população. No futuro, quando se difundirem ainda
mais, podem provocar uma reação ainda maior? Muteia: A engenharia
genética é hoje prática comum dos institutos de pesquisa. Muito do que
produzimos e consumimos hoje é resultado de pesquisa em biotecnologia.
Sabemos que o assunto causa polêmica. Se essa polêmica vai prevalecer ou
não, dependerá muito da capacidade da ciência provar a existência ou
não de riscos em determinado setor, dependerá dos passos que a
tecnologia poderá dar. E dependerá também da imagem que o público formar
desses alimentos. Essa percepção é subjetiva, mas orienta o mercado. O
importante é garantir que os alimentos transgênicos sejam devidamente
rotulados. Estamos num mundo democrático, em que a livre escolha
prevalece. O mesmo acontece com a questão relacionada à agricultura
orgânica. O Globo: Em outros países, investe-se em soluções
ainda mais polêmicas, como carne produzida em laboratórios, ou na
alimentação com insetos. A FAO tem uma posição em relação a estes
projetos? Muteia: Devemos respeitar três elementos essenciais: o
científico, o cultural e o social. A ciência nos dá respostas sobre o
valor nutritivo, riscos e limites. Por meio dela, sabemos como uma boa
dieta deve ter equilíbrio entre valores energéticos, proteicos,
vitamínicos e minerais. Sabemos os potenciais riscos e excessos, os
níveis de toxicidade... A cultura nos orienta para aquilo que é
aceitável em determinadas regiões. As serpentes são fontes proteicas em
alguns lugares. A carne de porco e seus derivados são comuns em outras
culturas. Já os insetos são consumidos com voracidade por muitos povos.
Em certas partes da Ásia a proteína animal não é consumida. Somos seres
sociais. As sociedades são guiadas por seus princípios. E a alimentação,
como um direito, deve ser exercida com dignidade. A exploração de novas
fronteiras alimentares não pode ultrapassar as fronteiras da nossa
dignidade. (O Globo)
Representante no Brasil da Organização das Nações
Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o moçambicano Hélder Muteia
destaca a enormidade do desafio que temos pela frente para alimentar a
crescente população mundial - seremos 9 bilhões em 2050 - de forma
sustentável e
num mundo cada vez mais quente. Em 2009, um em cada 6 habitantes do
planeta estava desnutrido. E entre 2010 e 2011, a produção mundial de
cereais caiu 1,1%. Para o especialista, somente a ciência e a tecnologia
poderão ajudar o mundo a estar à altura do desafio. O Globo:
Em 2009, atingimos um triste recorde mundial, com 1,023 bilhão de
pessoas desnutridas. Este índice deveu-se a fenômenos como a seca na
Rússia. Com a projeção de que eventos climáticos extremos vão se tornar
cada vez mais comuns, podemos esperar novos recordes de desnutrição num futuro próximo?
Hélder Muteia: Os desastres climáticos sem dúvida representam um
risco enorme aos esforços de combate à fome mundial, a exemplo da
terrível seca que atingiu a região do Chifre da África em 2011, a pior
dos últimos 60 anos. Mas eles são apenas parte do problema, há outros
fatores, como o aumento e a volatilidade dos preços dos alimentos, que
causam prejuízos aos pequenos agricultores, os mais atingidos pela fome.
Afinal, 75% das pessoas que passam fome no mundo estão no campo.
Nossa esperança é que a fome diminua no mundo. Até 2015 esperamos ter
menos do que 400 milhões passando fome. Mas para isso, o mundo precisa
estar preparado para produzir alimentos de maneira sustentável. Acima de
tudo, precisamos de uma nova plataforma institucional internacional, de
novos atores com vontade política para combater a fome. Só
recentemente, por exemplo, o G-20 incluiu o tema do combate à fome na
agenda de discussões. Voltando aos desastres naturais, temos de nos
preparar melhor para enfrentá-los e reduzir seus efeitos. Em um país de
forte instabilidade social, um evento climático extremo tem um efeito
devastador, como se observa em nações do continente africano. Isso gera
aumento dos conflitos armados, o que dificulta muito o trabalho de ajuda
humanitária nas regiões atingidas. Em áreas agrícolas, é preciso que
haja um conjunto de ações que fortaleça o sistema produtivo no campo
(acesso à terra, água, mercado e tecnologia ao pequeno produtor) e o uso de mecanismos de prevenção, como o mapeamento e a identificação do histórico de áreas atingidas.
O Globo: A produção de alimentos cresce hoje num ritmo que acompanha o crescimento da população?
Muteia: Nós temos muitos desafios. Como mencionei, a alta
volatilidade de preços tem prejudicado muito nossos esforços. Apenas
entre 2010 e 2011, ela empurrou cerca de 70 milhões de pessoas para a
pobreza extrema, tornando-as ainda mais vulneráveis à fome. Também temos
o desafio demográfico: em 2050 seremos 9 bilhões e a produção de
alimentos deve crescer em 70%. Porém, entre 2010 e 2011, a produção
mundial de cereais caiu 1,1% e o consumo aumentou em 1,9%. Isso afetou
negativamente os estoques mundiais. Mas nós acreditamos numa
recuperação sólida. Não só do ponto de vista da produção, mas também do
acesso real aos alimentos pelas pessoas mais vulneráveis. O
fortalecimento da produção e do consumo em âmbito local é uma peça-chave
nesse mecanismo. Por meio dele, é possível combater a fome e dinamizar a economia ao mesmo tempo.
O Globo: Qual será, nas próximas décadas, o papel do Brasil na
produção de alimentos? O crescimento de nossa produção, como é feita
hoje, representa um risco ao meio ambiente, levando em consideração a
expansão das fronteiras da agropecuárias para áreas de florestas?
Muteia: O Brasil é um país que aposta na agricultura. Essa aposta
deve vir acompanhada de três elementos essenciais: sustentabilidade
econômica, social e ambiental. A ciência já demonstrou que a base de
recursos que nos alimenta tem os seus limites. O ambiente é feito de
múltiplos sistemas que se sustentam em cadeia. Os solos, o fluxo das
águas, a temperatura, as florestas, a fauna... Eles formam uma cadeia de
sustentação. Qualquer desequilíbrio nessa equação pode comprometer a
vida no planeta. A agricultura mal concebida e mal implementada acarreta
riscos: desmatamento, emissão de gases-estufa, uso excessivo de
agroquímicos e degradação de solos. A ciência deve nos ajudar a
encontrar os melhores caminhos para uma vida mais sustentável em todos
os níveis. E o Brasil tem um papel fundamental nisso, pois possui muito
conhecimento na área agrícola. A ciência vai contribuir para o
desenvolvimento sustentável. Ela é parte essencial da solução para a
questão ambiental. O Globo: O governo brasileiro investe em
produtos transgênicos, fixação biológica de milho e cana-de-açúcar e
nanotecnologia na agricultura. Como o senhor analisa a aplicação dessas
tecnologias em alimentos?
Muteia: As instituições científicas têm a responsabilidade de
encontrar as respostas tecnológicas e propor as soluções para aumentar a
produção com sustentabilidade. Há regras mundiais e nacionais que
orientam esse exercício. Nós apoiamos toda pesquisa que promova os
objetivos de combater a fome, dentro da legalidade e de princípios
éticos. O Globo: Os transgênicos, como existem hoje, já são mal
vistos por parte da população. No futuro, quando se difundirem ainda
mais, podem provocar uma reação ainda maior? Muteia: A engenharia
genética é hoje prática comum dos institutos de pesquisa. Muito do que
produzimos e consumimos hoje é resultado de pesquisa em biotecnologia.
Sabemos que o assunto causa polêmica. Se essa polêmica vai prevalecer ou
não, dependerá muito da capacidade da ciência provar a existência ou
não de riscos em determinado setor, dependerá dos passos que a
tecnologia poderá dar. E dependerá também da imagem que o público formar
desses alimentos. Essa percepção é subjetiva, mas orienta o mercado. O
importante é garantir que os alimentos transgênicos sejam devidamente
rotulados. Estamos num mundo democrático, em que a livre escolha
prevalece. O mesmo acontece com a questão relacionada à agricultura
orgânica. O Globo: Em outros países, investe-se em soluções
ainda mais polêmicas, como carne produzida em laboratórios, ou na
alimentação com insetos. A FAO tem uma posição em relação a estes
projetos? Muteia: Devemos respeitar três elementos essenciais: o
científico, o cultural e o social. A ciência nos dá respostas sobre o
valor nutritivo, riscos e limites. Por meio dela, sabemos como uma boa
dieta deve ter equilíbrio entre valores energéticos, proteicos,
vitamínicos e minerais. Sabemos os potenciais riscos e excessos, os
níveis de toxicidade... A cultura nos orienta para aquilo que é
aceitável em determinadas regiões. As serpentes são fontes proteicas em
alguns lugares. A carne de porco e seus derivados são comuns em outras
culturas. Já os insetos são consumidos com voracidade por muitos povos.
Em certas partes da Ásia a proteína animal não é consumida. Somos seres
sociais. As sociedades são guiadas por seus princípios. E a alimentação,
como um direito, deve ser exercida com dignidade. A exploração de novas
fronteiras alimentares não pode ultrapassar as fronteiras da nossa
dignidade. (O Globo)