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Carbono embutido

29/11/2011 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=80277
Pesquisadores fazem balanço de CO2 da floresta.
O papel central da Floresta Amazônica para a
questão climática extrapola suas fronteiras de diferentes formas. Estudo
da Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA) constata: o
comércio de produtos para o mercado externo e para o consumo interno em
outras partes do país carrega 63% de todo o carbono emitido pela
economia da Amazônia. Gases do efeito estufa "alcançam" regiões
distantes da mata embutidos na exportação de alimentos, minérios e
outras mercadorias produzidas na região em processos que resultam em
emissões.
 
"Mitigar emissões prejudicará a economia regional e o sustento de
mais de 20 milhões de habitantes", diz o economista Joaquim Guilhoto,
coordenador do relatório "O Desenvolvimento da Amazônia Brasileira e as
Emissões de Gases do Efeito Estufa: um Dilema a Ser Enfrentado". O
trabalho cruzou dados do PIB amazônico com a média nacional das emissões
de carbono dos diferentes setores produtivos. A agropecuária, somando
insumos e produção, representa mais de um terço das emissões totais, com
destaque para soja e carne, setores que mais geram riqueza na região.
 
De acordo com o estudo, o consumo interno do Brasil fora da floresta
absorve 40% do carbono amazônico. A parcela de gases que permanece na
região (37%) está incorporada nos investimentos de bens de capital e
construção de infraestrutura. "A restrição das emissões pura e simples
não é solução, sendo necessária uma política de incentivos para mudar a
estrutura de produção e compensar financeiramente a população", analisa
Guilhoto. Em sua opinião, "o direito ao desenvolvimento é o principal
dilema para a mitigação de gases estufa na Amazônia, no Brasil e nos
demais países emergentes".
 
O tema é cerne das negociações da CoP-17, a conferência da ONU sobre
mudanças no clima que ocorrerá de 28 novembro a 9 de dezembro, em
Durban, África do Sul, quando os países tentarão avançar no debate para
um novo regime climático internacional, incluindo compensações para a
conservação florestal.
 
"O assunto marca a atual discussão do acesso a mercados e certamente
será o elemento de força para o corte de emissões, inclusive via taxação
de carbono", avalia Mario Monzoni, diretor do Centro de Estudos em
Sustentabilidade, da FGV, estimando que "mais cedo ou mais tarde a
questão baterá na Organização Mundial do Comércio (OMC)".
 
Estudo publicado neste ano pela Academia Nacional de Ciências dos EUA
revela que mais de 60% das fontes de carvão, gás e petróleo estão em
apenas 20 países e sugere a criação de um imposto sobre a extração de
combustíveis, o que cobriria 67% das emissões globais. A chamada
"precificação" de carbono envolve competitividade entre países e entre
conglomerados empresariais. Pela Convenção do Clima, emissões de carbono
não devem motivar barreiras comerciais, mas atualmente existe o debate
de propostas para legislações nacionais, tanto nos EUA como na Europa,
com restrições do gênero.
 
"O melhor para o Brasil, exportador líquido de emissões, é o assunto
permanecer no fórum do clima e não na OMC", opina Jorge Hargrave, do
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Em recente relatório, o
pesquisador Ronaldo Seroa da Motta, também do Ipea, mostra que
eventuais taxações de carbono seriam vantajosas para a indústria
brasileira na competição com a China. Na agricultura, ao contrário, o
país teria desvantagem.
 
Os reflexos atingiriam a economia da Amazônia. Na região, onde os
indicadores sociais estão abaixo da média nacional, 65% da população -
sem opções de sustento na floresta - já vive em grandes centros urbanos.
No Amazonas, 85% da energia é suja, proveniente de geradores a diesel.
Só recentemente, com a inauguração do gasoduto Coari-Manaus, pequenas
termoelétricas a gás natural começaram a ser construídas. Para mudar a
matriz energética, a capital aguarda a obra do linhão que rasgará 1,5
mil km de floresta para a conexão com a hidrelétrica de Tucuruí, no
Pará. "Energia e logística são essenciais para a expansão industrial",
diz Oldemar Ianck, superintendente da Zona Franca de Manaus (Suframa).
"Amazonia não deve ser apenas almoxarifado de matérias-primas para
outros Estados e para o exterior", diz.
 
Ele admite que há passivos a resolver, como os impactos ambientais na
capital. Ao atrair indústrias em troca de incentivos fiscais, Manaus
recebeu grande contingente de migrantes que ocupou bairros erguidos
sobre palafitas na beira de córregos poluídos, só agora alvo de projetos
de saneamento. "As indústrias da capital, responsáveis por 90% da renda
estadual, reduziram a pressão para o uso predatório da floresta",
argumenta Iank. Cogita-se agora na prorrogação da Zona Franca por mais
50 anos, conforme anunciou o governo federal. No entanto, "é preciso
corrigir rumos, porque não podemos subsistir apenas com incentivos
fiscais, mas investir em infraestrutura e nos recursos regionais".
 
A nova ponte sobre o rio Negro, inaugurada em outubro ao custo de R$ 1
bilhão, permitirá a expansão do polo industrial e da Região
Metropolitana de Manaus. Na expectativa do crescimento, o município de
Iranduba, na outra margem do rio, já registra o maior índice de
desmatamento do Estado. O lugar é palco do primeiro projeto da chamada
Zona Franca Verde: a fábrica Borracha da Floresta, inaugurada neste mês
com investimento de R$ 5,2 milhões. O empreendimento absorve a produção
seringueira de 17 municípios e se destina a abastecer uma indústria de
pneus, a Neotec, que fornece para o polo industrial de motos e
bicicletas, onde operam 25 empresas. "Enfim a cadeia produtiva da
borracha está fechada, desde a floresta até a capital", conta Valdelino
Cavalcanti, presidente da Agência de Desenvolvimento Sustentável.
 
"A expansão industrial puxará um novo modelo, baseado em alta
tecnologia, baixo carbono e energia renovável", garante João Talocchi,
coordenador do Centro Estadual de Mudanças Climáticas. O plano é fazer o
inventário de emissões industriais para o estabelecimento de metas de
corte. Esperam-se oportunidades com o mercado de carbono, na perspectiva
de avanços no debate global sobre o REDD (Redução de Emissões por
Desmatamento e Degradação) - mecanismo de compensação financeira para
conservação da floresta. "Não queremos ser vistos com o santuário; se o
mundo pede a manutenção dos ambientes naturais, que pague por isso",
afirma Nádia Ferreira, secretária de Meio Ambiente.
 
Amazônia - Conhecer o real papel da Amazônia para o
controle climático é chave para o País definir sua posição nas
negociações internacionais e defender a competitividade das empresas
brasileiras. A região captura mais carbono do que emite? Em busca de
respostas, cientistas brasileiros esquadrinham a mata para medições em
pontos estratégicos e estão perto de chegar a resultados conclusivos.
 
"Ao que tudo indica, a floresta tem sequestrado da atmosfera em média
uma tonelada de carbono por hectare ao ano, o que, extrapolando para
toda a Bacia Amazônica, significa 300 milhões de toneladas, superior às
emissões totais brasileiras, de 250 milhões", revela o pesquisador Niro
Higuchi, do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
 
O primeiro passo dos cientistas foi desenvolver um método preciso
para saber quanto cada árvore acumula de carbono com base no diâmetro do
tronco. Em seguida, a floresta no Estado do Amazonas foi dividida em
parcelas com tamanho equivalente a um quarto de um campo de futebol,
onde foram analisadas as árvores com mais de dez centímetros de
diâmetro. O modelo é agora ampliado para os estoques de carbono de toda a
Região Amazônica, mediante rastreamento com imagens de radar que
identificam em detalhes a cobertura florestal.
 
"Como oportunidade de negócio e item de valor para a remuneração de
quem conserva a natureza e seus serviços ambientais, o carbono precisa
de medição específica e confiável, dentro de padrões aceitos
internacionalmente", explica Higuchi.
 
Em paralelo, a pesquisadora Luciana Gatti, do Instituto de Pesquisas
Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo, coordena operações que
rastreiam a Amazônia com sobrevoos que medem a concentração e o fluxo de
carbono no ar, entre 300 metros e 4,5 km da superfície da floresta. O
objetivo é medir o dióxido de carbono, metano e outros gases, emitidos
principalmente por desmatamento e queimadas. "Já sabemos que o lado
Oeste da Amazônia absorve mais carbono do que emite, porque o
crescimento florestal é maior", diz Gatti, adiantando resultados que
estarão em breve em publicação científica. "Já não é verdade a tese
normalmente aceita de que a floresta adulta é neutra na tarefa de
capturar e emitir carbono".
(Valor Econômico)
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