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Assumir a derrota
28/11/2011
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=80256
Artigo de Marina Silva na Folha de São Paulo de hoje (25).
Na quarta-feira, na Comissão de Meio Ambiente do
Senado, ocorreu uma das derrotas mais sofridas que a luta socioambiental
em defesa do desenvolvimento sustentável poderia viver. A sessão, que
deveria tratar com tempo e profundidade o mérito do projeto de lei que
propõe criar um novo Código Florestal, transformou-se em um exemplo
perfeito do que, sem medo de errar, pode ser chamada de velha política.
O indicador dessa senilidade política veio na forma de argumentos
apelativos que tentavam convencer os "derrotados" de que deveriam
alargar o sorriso, disfarçar a indignação e posar para a foto com os
"vencedores", sem lhes estragar o realce da moldura.
Afinal, todos, como no episódio do vaidoso rei que estava nu,
deveriam repetir que o relatório Viana/Luiz Henrique havia conseguido
tecer um texto que, finalmente, faria o impossível: aumentar a proteção
de rios, encostas e florestas ao mesmo tempo em que acaba com a
obrigatoriedade de recuperação das áreas de preservação permanente e das
reservas florestais na maioria das propriedades privadas, com anistia
de multas de desmatamentos ilegais.
Durante toda a sessão, o tom era de "dever cumprido", de "conquista
histórica", de "consenso entre ruralistas, cientistas, governo e
ambientalistas". Mas, na verdade, o que ocorreu mesmo foi um acordo
entre poucos: governo e ruralistas, mediados pelos senadores Rodrigo
Rollemberg (PSB-DF), Jorge Viana (PT-AC), Luiz Henrique (PMDB-SC), Kátia
Abreu (PSD-TO) e pela ministra do Meio Ambiente, Izabela Teixeira.
Agora, o que se vê são todos os espaços sendo usados para fazer
grudar na história uma espécie de adesivo verde, um tapume para esconder
os escombros da legislação ambiental, que começa a ruir na derrocada do
velho guardião das florestas.
Nada mais característico da velha política do que conformar-se em
apenas parecer. Nesse caso, bastaria aos socioambientalistas deixar
prevalecer a tese de que -apesar dos retrocessos- também saíram
vencedores. Afinal de contas, também fazem parte do grande consenso.
Poderiam nos colocar na foto de todos os jornais esverdeando a moldura,
mas não seria a verdade.
As mais de 200 emendas apresentadas ao relator Jorge Viana demonstram
que o único consenso é que não havia consenso algum. E isso, por si só,
deveria fazer com que o processo de tramitação do projeto tivesse mais
tempo, para tentar construir soluções mediadas, e não aplicar na lei
aquilo que tanto se faz na floresta: o correntão! Sem essa mediação, vão
empurrar para a berlinda o compromisso assumido publicamente no segundo
turno pela então candidata Dilma.
Marina Silva escreve às sextas-feiras nesta coluna.
Na quarta-feira, na Comissão de Meio Ambiente do
Senado, ocorreu uma das derrotas mais sofridas que a luta socioambiental
em defesa do desenvolvimento sustentável poderia viver. A sessão, que
deveria tratar com tempo e profundidade o mérito do projeto de lei que
propõe criar um novo Código Florestal, transformou-se em um exemplo
perfeito do que, sem medo de errar, pode ser chamada de velha política.
O indicador dessa senilidade política veio na forma de argumentos
apelativos que tentavam convencer os "derrotados" de que deveriam
alargar o sorriso, disfarçar a indignação e posar para a foto com os
"vencedores", sem lhes estragar o realce da moldura.
Afinal, todos, como no episódio do vaidoso rei que estava nu,
deveriam repetir que o relatório Viana/Luiz Henrique havia conseguido
tecer um texto que, finalmente, faria o impossível: aumentar a proteção
de rios, encostas e florestas ao mesmo tempo em que acaba com a
obrigatoriedade de recuperação das áreas de preservação permanente e das
reservas florestais na maioria das propriedades privadas, com anistia
de multas de desmatamentos ilegais.
Durante toda a sessão, o tom era de "dever cumprido", de "conquista
histórica", de "consenso entre ruralistas, cientistas, governo e
ambientalistas". Mas, na verdade, o que ocorreu mesmo foi um acordo
entre poucos: governo e ruralistas, mediados pelos senadores Rodrigo
Rollemberg (PSB-DF), Jorge Viana (PT-AC), Luiz Henrique (PMDB-SC), Kátia
Abreu (PSD-TO) e pela ministra do Meio Ambiente, Izabela Teixeira.
Agora, o que se vê são todos os espaços sendo usados para fazer
grudar na história uma espécie de adesivo verde, um tapume para esconder
os escombros da legislação ambiental, que começa a ruir na derrocada do
velho guardião das florestas.
Nada mais característico da velha política do que conformar-se em
apenas parecer. Nesse caso, bastaria aos socioambientalistas deixar
prevalecer a tese de que -apesar dos retrocessos- também saíram
vencedores. Afinal de contas, também fazem parte do grande consenso.
Poderiam nos colocar na foto de todos os jornais esverdeando a moldura,
mas não seria a verdade.
As mais de 200 emendas apresentadas ao relator Jorge Viana demonstram
que o único consenso é que não havia consenso algum. E isso, por si só,
deveria fazer com que o processo de tramitação do projeto tivesse mais
tempo, para tentar construir soluções mediadas, e não aplicar na lei
aquilo que tanto se faz na floresta: o correntão! Sem essa mediação, vão
empurrar para a berlinda o compromisso assumido publicamente no segundo
turno pela então candidata Dilma.
Marina Silva escreve às sextas-feiras nesta coluna.