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Especialistas alertam para risco de escassez de água
18/11/2011
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=80131
Engana-se
quem acredita que o novo texto do Código Florestal trará benefícios aos
grandes produtores agrícolas em detrimento do meio ambiente e do
restante da sociedade. O prejuízo será geral e irrestrito, caso o texto
em tramitação nas comissões do Senado mantenha alguns vícios que
adquiriu desde o relatório original, votado na Câmara.
Essa é a opinião de cientistas. O conjunto das
opiniões mostra que, se aparentemente, o setor rural ganha, a curto
prazo, com o aumento da área disponível e do desmatamento, sofrerá, no
futuro, como toda a sociedade, os efeitos da ação predatória.
A primeira consequência será a escassez de água. A redução da
vegetação nas margens dos rios e a falta de proteção às nascentes irão
provocar a redução da oferta do produto. Nascentes vão secar, rios
menores sofrerão rápido processo de erosão e os maiores, que recebem
água dos pequenos, ficarão assoreados. "Vai faltar água para a própria
agricultura", afirma José Galizia Tundisi, presidente do Instituto
Internacional de Ecologia (IIE). Segundo ele, a agricultura responde por
70% da água consumida no Brasil.
Tundisi diz que o texto do novo Código erra ao fixar medidas para as
florestas ripárias - contíguas aos cursos d"água. "Isso varia conforme o
rio, a região, o bioma. Essa questão tem de ser decidida em função do
tamanho do rio e da área de inundação. É antilógico e anticientífico
fixar uma barreira de cinco ou dez metros." Segundo ele, o custo é
também econômico. A degradação da área de mananciais não só reduz a
possibilidade de captação, mas também aumenta o custo do tratamento de
água.
Como o texto ainda pode ser alterado, os cientistas não projetaram
ainda quais serão os impactos, mas preveem várias consequências, tidas
como inevitáveis. Ocorrerão mais desmatamentos, assoreamentos de rios,
inundações de cidades, mais emissão de CO2, deslizamentos de encostas,
redução de produtividade depois de alguns anos de uso da terra, entre
outros, destaca José Antônio Aleixo da Silva, secretário da Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e coordenador do grupo de
trabalho da entidade na análise do Código Florestal.
O texto estimula o plantio em áreas alagadas, "o que é um erro muito
grave", diz Tundisi. O País tem 600 mil quilômetros quadrados dessas
áreas, com papel importantíssimo no controle de enchentes, nos ciclos
hídricos, na reciclagem de nutrientes e na manutenção da biodiversidade
aquática e terrestre. Estimula o plantio em várzeas, um erro muito
grave. Da forma como o novo Código está sendo concebido, parece que a
vegetação não tem papel ativo no ciclo hidrológico e, por isso, pode-se
desmatar. Mas a vegetação é fundamental. Ela evapotranspira e 30% da
água da atmosfera vêm da vegetação.
Para o biólogo Jean Paul Metzger, pesquisador da Universidade de São
Paulo, a comunidade científica entende que o Código pode prever algumas
exceções, sobretudo no caso de alguns produtos e da agricultura
familiar. "Arroz em várzea, pecuária no Pantanal, café, maracujá, maçã,
uva que precisam de encostas ou áreas de topo de morro, tudo isso
precisa de um tratamento especial", defende.
"Muitos desses produtos são de baixo impacto, por serem perenes, ou
explorados de forma extensiva como a pecuária no Pantanal. Mas isso
representa uma porcentagem muito baixa da agropecuária brasileira, menos
de 10%". O que ele não concorda é anistiar o desmatamento de áreas de
proteção, principalmente para culturas de exportação.
Metzger demonstra especial preocupação com o fim da proteção às áreas
de várzea e o impacto que isso pode ter no controle de enchentes. Para
ele, liberar o desmatamento de áreas alagadas ou em encostas apenas para
justificar exceções é um equívoco grave. "Não tem cabimento a gente
pegar a exceção para justificar uma mudança completa. Além disso,
estimula a ocupação de áreas de risco", explica. O biólogo lembra que
nas inundações que destruíram a região serrana do Rio de Janeiro no
começo deste ano, 80% dos prejuízos materiais ocorreram numa faixa de 30
metros ao longo dos rios, faixa que, em muitos casos, estava
irregularmente ocupada.
As principais mudanças defendidas pela comunidade científica no texto
da lei incluem acabar com a divisão entre áreas de preservação
permanentes e transitórias. O transitório é o passivo ambiental, a área
degradada, que, se não for considerada permanente e não estiver sujeita a
recuperação, pode representar uma perda definitiva da cobertura
vegetal. Outro aspecto importante é a defesa dos manguezais, excluídos
das áreas de preservação permanente (APPs).
Essas e outras advertências da comunidade científica foram oferecidas
aos congressistas pela SBPC no livro "O Código Florestal e a ciência.
Contribuições para o diálogo". O livro, elaborado durante um ano, aponta
os pontos que precisariam ser modificados e os argumentos científicos
para embasar a questão. Segundo Aleixo, a obra causou "grande impacto"
entre congressistas, mas nas votações tem prevalecido a força da bancada
ruralista, principal interessada na manutenção do texto como está.
Os documentos mostram que o argumento de que vai faltar área para
alimentação não tem validade, diz Metzger. Segundo ele, a área ocupada
pela produção de alimentos destinados ao mercado interno está estável
nos últimos anos. O que cresce é a produção de commodities exportáveis.
"Então o Código, do jeito que está, vai favorecer um grupo reduzido de
agricultores, que não precisam necessariamente desse tipo de estímulo".
O texto enviado pela SBPC procura argumentar que não existe o dilema
entre conservar/preservar o ambiente e produzir alimentos. Argumentam
que, com um aumento marginal da produtividade da pecuária brasileira,
muitas áreas de pasto poderiam ser liberadas para plantios agrícolas,
dispensado a derrubada de florestas para esse fim. A entidade também
defende o fim da anistia para os desmatamentos ocorridos nas APPs até
2008, a restauração de toda área desmatada à beira dos cursos d"água, a
manutenção dos manguezais, salgados e apicuns como áreas de preservação
permanente e a compensação da Reserva Legal o mais próximo possível da
área desmatada, entre outros aspectos.
(Valor Econômico)
quem acredita que o novo texto do Código Florestal trará benefícios aos
grandes produtores agrícolas em detrimento do meio ambiente e do
restante da sociedade. O prejuízo será geral e irrestrito, caso o texto
em tramitação nas comissões do Senado mantenha alguns vícios que
adquiriu desde o relatório original, votado na Câmara.
Essa é a opinião de cientistas. O conjunto das
opiniões mostra que, se aparentemente, o setor rural ganha, a curto
prazo, com o aumento da área disponível e do desmatamento, sofrerá, no
futuro, como toda a sociedade, os efeitos da ação predatória.
A primeira consequência será a escassez de água. A redução da
vegetação nas margens dos rios e a falta de proteção às nascentes irão
provocar a redução da oferta do produto. Nascentes vão secar, rios
menores sofrerão rápido processo de erosão e os maiores, que recebem
água dos pequenos, ficarão assoreados. "Vai faltar água para a própria
agricultura", afirma José Galizia Tundisi, presidente do Instituto
Internacional de Ecologia (IIE). Segundo ele, a agricultura responde por
70% da água consumida no Brasil.
Tundisi diz que o texto do novo Código erra ao fixar medidas para as
florestas ripárias - contíguas aos cursos d"água. "Isso varia conforme o
rio, a região, o bioma. Essa questão tem de ser decidida em função do
tamanho do rio e da área de inundação. É antilógico e anticientífico
fixar uma barreira de cinco ou dez metros." Segundo ele, o custo é
também econômico. A degradação da área de mananciais não só reduz a
possibilidade de captação, mas também aumenta o custo do tratamento de
água.
Como o texto ainda pode ser alterado, os cientistas não projetaram
ainda quais serão os impactos, mas preveem várias consequências, tidas
como inevitáveis. Ocorrerão mais desmatamentos, assoreamentos de rios,
inundações de cidades, mais emissão de CO2, deslizamentos de encostas,
redução de produtividade depois de alguns anos de uso da terra, entre
outros, destaca José Antônio Aleixo da Silva, secretário da Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e coordenador do grupo de
trabalho da entidade na análise do Código Florestal.
O texto estimula o plantio em áreas alagadas, "o que é um erro muito
grave", diz Tundisi. O País tem 600 mil quilômetros quadrados dessas
áreas, com papel importantíssimo no controle de enchentes, nos ciclos
hídricos, na reciclagem de nutrientes e na manutenção da biodiversidade
aquática e terrestre. Estimula o plantio em várzeas, um erro muito
grave. Da forma como o novo Código está sendo concebido, parece que a
vegetação não tem papel ativo no ciclo hidrológico e, por isso, pode-se
desmatar. Mas a vegetação é fundamental. Ela evapotranspira e 30% da
água da atmosfera vêm da vegetação.
Para o biólogo Jean Paul Metzger, pesquisador da Universidade de São
Paulo, a comunidade científica entende que o Código pode prever algumas
exceções, sobretudo no caso de alguns produtos e da agricultura
familiar. "Arroz em várzea, pecuária no Pantanal, café, maracujá, maçã,
uva que precisam de encostas ou áreas de topo de morro, tudo isso
precisa de um tratamento especial", defende.
"Muitos desses produtos são de baixo impacto, por serem perenes, ou
explorados de forma extensiva como a pecuária no Pantanal. Mas isso
representa uma porcentagem muito baixa da agropecuária brasileira, menos
de 10%". O que ele não concorda é anistiar o desmatamento de áreas de
proteção, principalmente para culturas de exportação.
Metzger demonstra especial preocupação com o fim da proteção às áreas
de várzea e o impacto que isso pode ter no controle de enchentes. Para
ele, liberar o desmatamento de áreas alagadas ou em encostas apenas para
justificar exceções é um equívoco grave. "Não tem cabimento a gente
pegar a exceção para justificar uma mudança completa. Além disso,
estimula a ocupação de áreas de risco", explica. O biólogo lembra que
nas inundações que destruíram a região serrana do Rio de Janeiro no
começo deste ano, 80% dos prejuízos materiais ocorreram numa faixa de 30
metros ao longo dos rios, faixa que, em muitos casos, estava
irregularmente ocupada.
As principais mudanças defendidas pela comunidade científica no texto
da lei incluem acabar com a divisão entre áreas de preservação
permanentes e transitórias. O transitório é o passivo ambiental, a área
degradada, que, se não for considerada permanente e não estiver sujeita a
recuperação, pode representar uma perda definitiva da cobertura
vegetal. Outro aspecto importante é a defesa dos manguezais, excluídos
das áreas de preservação permanente (APPs).
Essas e outras advertências da comunidade científica foram oferecidas
aos congressistas pela SBPC no livro "O Código Florestal e a ciência.
Contribuições para o diálogo". O livro, elaborado durante um ano, aponta
os pontos que precisariam ser modificados e os argumentos científicos
para embasar a questão. Segundo Aleixo, a obra causou "grande impacto"
entre congressistas, mas nas votações tem prevalecido a força da bancada
ruralista, principal interessada na manutenção do texto como está.
Os documentos mostram que o argumento de que vai faltar área para
alimentação não tem validade, diz Metzger. Segundo ele, a área ocupada
pela produção de alimentos destinados ao mercado interno está estável
nos últimos anos. O que cresce é a produção de commodities exportáveis.
"Então o Código, do jeito que está, vai favorecer um grupo reduzido de
agricultores, que não precisam necessariamente desse tipo de estímulo".
O texto enviado pela SBPC procura argumentar que não existe o dilema
entre conservar/preservar o ambiente e produzir alimentos. Argumentam
que, com um aumento marginal da produtividade da pecuária brasileira,
muitas áreas de pasto poderiam ser liberadas para plantios agrícolas,
dispensado a derrubada de florestas para esse fim. A entidade também
defende o fim da anistia para os desmatamentos ocorridos nas APPs até
2008, a restauração de toda área desmatada à beira dos cursos d"água, a
manutenção dos manguezais, salgados e apicuns como áreas de preservação
permanente e a compensação da Reserva Legal o mais próximo possível da
área desmatada, entre outros aspectos.
(Valor Econômico)