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Einstein e Bill Gates

09/10/2011 http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=80011
Crônica do professor Sergio Mascarenhas.
Recentemente o Ministério de Ciência e Tecnologia
passou a denominar-se Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. A
mudança foi adequada? Embora o Ministro anterior, um dos melhores que o
Brasil já teve Sérgio Machado Rezende, tivesse prestigiado fortemente a
Inovação, inclusive criando uma Secretaria especial somente para
Inovação, e indicado para ela um grande cientista, Ronaldo Mota, que,
aliás, continua nessa função com o presente ministro, acho que a mudança
do nome foi oportuna e gostaria de aproveitar para discutir o tema, da
maior importância para o desenvolvimento não só da Ciência e Tecnologia
mas da Educação em geral.
 
Para isso vou me valer de dois símbolos da sociedade global, Einstein
e Bill Gates, que ladeiam a figura de Janus, o único Deus Romano, não
copiado da mitologia grega, com seus dois instigantes e filosóficos
olhares, um para o passado outro para o futuro.
 
Começo pelo cenário da história da ciência e tecnologia: a
convergência temporal das duas é a característica principal dos tempos
atuais. Enquanto as leis da eletricidade e magnetismo foram
estabelecidas por Faraday e Maxwell nas quais se baseia o funcionamento
do motor elétrico, cerca de 4 décadas foram necessárias para o seu pleno
desenvolvimento tecnológico. Mas o tempo entre a descoberta das ondas
eletromagnéticas e suas aplicações já foi mais curto, apenas duas
décadas, entretanto no mesmo ano que o laser essa fabulosa fonte de luz
foi inventado já houve aplicações tecnológicas para o mesmo!
 
Hoje a característica de nossa era séc. XXI é a vida curta de
produtos, processos e serviços característica da economia globalizada
impulsionada pelos negócios que exigem competitividade acelerada. O
cerne dessa convergência, a sua força motora é a Inovação tornada
permanente, necessária, característica fundamental do dinamismo dessa
interação entre ciência e tecnologia. Mas nossa sociedade ou melhor na
cultura brasileira , temos características de inovação? Claro que temos,
no Futebol, no Carnaval certamente.
 
Ocorre entretanto que os nossos jovens talentos não foram educados
para a cultura dinâmica da Ciência, Tecnologia e Inovação. Uma razão
óbvia pode ser encontrada por uma simples visão da nossa sociedade:
campos de pelada em todo o Brasil, nas cidades, nas periferias, em
qualquer esquina desocupada. Carnaval começa logo depois que acaba pela
continuidade das escolas e sociedades carnavalescas. Há até um
sinergismo entre futebol e Carnaval as torcidas tipo Gaviões da Fiel são
também transformadas em Escolas de Samba no Carnaval!
 
Mas nas escolas com e minúsculo, isto é do sistema educacional a
ciência e a tecnologia são poucas e a inovação quer seja nos métodos,
quer nos processos de ensino - aprendizagem que  somente recentemente
despontam tímidos , numa infra-estrutura de escolas de curto tempo, não a
Escola Parque sonhada por Anísio Teixeira , mas a Escola mínima
cartorial, da violência e bullying na sala de aula , sem tecnologia
educacional moderna, com professores portadores da  do que chamo
Síndrome dos 4 Medos: 1 -Medo do aluno, 2 - medo do seu desamparo em
técnicas e conteúdos didático -pedagógicos, 3 - medo do conhecimento
avassalador que jorra pela internet e 4 - medo de seu futuro  social
como carreira, desprezada que foi não somente pelo Estado mas até pelos
sistemas privados que os escravizam com salários irrisórios e cargas
didáticas intensas.
 
Mas nosso tema é a Inovação! Mas como inovar em um ambiente desses
sem qualquer motivação seja para Einsteins ou Bill Gates? Recentemente a
Universidade Rockefeller recebeu o seu vigésimo sexto Prêmio Nobel,
dessa vez em medicina, uma única Universidade em New York 26
prêmios-Nobel! O Brasil não tem sequer um Nobel, nem mesmo em
Humanidades, a menos que se considere a copa do Mundo equivalente ao
Nobel e os festejos carnavalescos como tal! Falta mesmo é educação para
Ciência, Tecnologia e Inovação, uma nova cultura diferente dessa que
recebemos de nossos colonos machistas, escravagistas e exploradores de
nossas riquezas naturais sem lhes agregar quaisquer inovações.
 
Somente a Embrapa em tempos recentes acordou para essa visão e o fez
pela Ciência, Tecnologia e Inovação, provando que sem Einsteins
inovadores não teremos os Bill Gates empresariais, pelo menos em número e
qualidade suficientes para inserção virtuosa no Mundo Globalizado.
 
Estou há tempos propondo uma Rede de Agências Multimídia, associada a
uma Rede de Centros e Museus de Ciências e Tecnologia com Centrais de
Produção nas Cinco Regiões do Brasil para difusão da Ciência,
Tecnologia, Inovação tanto na Educação como nas empresas para sairmos
desse atraso histórico.
 
Quem sabe a angustiada solicitação da Academia Brasileira de Ciências
e da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) por uma
participação no pré-sal possa ser ouvida para essa finalidade? Seria um
grande momento na história do Brasil, mas teria que ser ouvido no meio
da gritaria dos estados produtores e não-produtores sem explicitações de
missões como essa que discutimos em prol da Ciência, Tecnologia,
Inovação na Educação.
 
Esperemos que desprezada pelos ilustres senadores a sugestão da
SBPC-ABC possa ser atendida pela Câmara Federal o que constituir-se-a
numa decisão histórica tão importante como a da Independência
Brasileira, desta vez dos grilhões do subdesenvolvimento.
 
Sérgio Mascarenhas é professor e coordenador do Instituto de Estudos
Avançados (IEA) de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP),
presidente Honorário SBPC e Membro Titular ABC.
 
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